Quando o gato sai… Após anos de domínio, Fórmula 1 fica arejada sem Mercedes no jogo

Até mesmo a equipe que comanda as ações na Fórmula 1 mostrou entender que o esporte é animado quando dá tudo errado para ela e surge uma nova história

Há muitos motivos para recordar do GP da Itália de 2020: a primeira vitória de Pierre Gasly, a primeira chance real da McLaren ganhar uma prova desde 2013, o retorno da AlphaTauri/Toro Rosso ao topo do pódio após 12 anos e a primeira vitória de alguém fora da tríade Mercedes/Ferrari/Red Bull nos últimos sete anos. Mas a razão para uma Fórmula 1 mais arejada é muito clara: o fato da Mercedes ficar fora do jogo.

Antes de prosseguir, cabe explicação. A Mercedes não é, de maneira alguma, instituição que atrapalhe o andamento da Fórmula 1. Existe um motivo para o time prateado da Alemanha controlar as ações da forma que faz: é uma operação profissional, bem construída e comandada e está, definitivamente, no Olimpo das maiores da história da F1. A excelência jamais fará mal.

Dito isso, é preciso admitir que ter praticamente sempre a mesma vencedora, sobretudo em 2020, onde realmente a Mercedes não tem rivais a não ser que dê tudo errado, isso ganha força. Nos últimos anos, desde o começo da Era híbrida, somente Red Bull e Ferrari conseguiram desafiar, mas 2020 é um ano totalmente diferente. A Ferrari está jogada às traças, enquanto a Red Bull é segunda força por breve vantagem, mas que acaba potencializada por Max Verstappen.

É mais um efeito da excelência: quando ela joga sozinha e sem acompanhantes, por mais que arrecade justa admiração pelo sucesso, também carrega consigo olhos famintos de quem quer ver a confusão, outros protagonistas e diferentes histórias a serem escritas.

O hexacampeão Hamilton parabeniza Gasly e Sainz pelo pódio em Monza (Foto: Mercedes)

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Na Itália, foi precisamente o que aconteceu. Quase tudo deu errado para a Mercedes e, desta vez, diferente do GP dos 70 Anos, não tinha Verstappen para ocupar o espaço vazio. Com problemas e num fim de semana extremamente difícil, abandonou a corrida. Na Mercedes, que montou uma operação para largar na dianteira e jamais encontrar com as rivais na pista, largar de maneira trágica, como fez Valtteri Bottas, era imperdoável. Quanto a Lewis Hamilton, uma falha conjunta dele, da Mercedes e a sinalização do pit-lane rendeu punição. A corrida ficou totalmente aberta porque não tinha quem pudesse vencer.

No vácuo de vencedores, tal qual o vácuo que era necessário para ultrapassar, restou a Pierre Gasly a malandragem de usar Kimi Räikkönen de aliado. Enquanto o finlandês segurou Carlos Sainz, abriu pouco menos de 5s: o suficiente para segurar a McLaren nas voltas finais usando a inteligência e deixando apenas o ar sujo para o espanhol dançar buscando alguma vaga para clamar a dianteira.

“Parabéns a Pierre. É um resultado fantástico para ele. Eu obviamente vi o que ele passou, sendo rebaixado de um time principal e agora batendo esse mesmo time. É fantástico vê-lo se recuperar e crescer assim”, disse Lewis Hamilton logo após a corrida.

O que se perde de discussões sobre a repercussão de corridas é que pilotos são seres humanos e as equipes são formadas de um coletivo de seres humanos. Todos com emoções e leituras do paddock maior, inclusive sobre as equipes rivais, do que a opinião público. Estão dentro do jogo, afinal, e sabem quem são as pessoas envolvidas no tabuleiro para além dos pilotos e funcionários de equipes. Humanos num jogo de humanos.

E todo mundo ama boas histórias. Algumas pessoas mais que outras, claro, mas grandes histórias humanas, de superação, realização de sonhos, esse tipo de coisa, é difícil ver quem torça contra.

Hamilton é uma grande figura, talvez a maior da história da Fórmula 1, mas as vitórias dele estão normalizadas. O que é necessário para nos impressionarmos com uma vitória de Hamilton hoje em dia? Um número histórico como o que está chegando, o recorde de Michael Schumacher, ou uma vitória altamente improvável, cada vez mais rara. De Valtteri Bottas?

Mas um novo vencedor? Vocês sabem e eu sei que todos querem ver.

“É uma derrota para a Mercedes, mas uma vitória para o esporte”, disse Toto Wolff. “Isso é legal. Sempre dizemos para comemorar cada vitória como se fosse a última, porque nunca sabemos quando virá a próxima. Esses caras tiveram de esperar 4.371 dias, mas hoje é um dia que todo mundo na AlphaTauri nunca irá esquecer”, postou a conta oficial da Mercedes no Twitter ao lado de uma foto da comemoração do time de Faenza.

A Mercedes faz bem ao esporte. A liderança, o profissionalismo e o exemplo até para lidar com questões sociais. Mas algumas vezes no decorrer na temporada, para arejar as ações e a memória do público por grandes histórias, faz bem ao esporte que dê tudo errado para a Mercedes.

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