Retrospectiva 2025: F1 encerra ciclo em baixa e com problemas a resolver para 2026

Com pouca ação nas pistas, uma disputa de título das mais sem graça e a FIA tropeçando nas próprias pernas, a última temporada da geração efeito solo foi ruim, mas pelo menos expôs alguns problemas que precisam ser tratados para 2026

A reta final da temporada 2024 da Fórmula 1, com McLaren e Ferrari brigando até o fim pelo título do Mundial de Construtores e Max Verstappen aos poucos perdendo a hegemonia com a Red Bull, indicava que 2025 tinha tudo para ser um ano de boas corridas e disputas acirradas. Ledo engano. Ainda que a busca pelo troféu tenha se estendido até o GP de Abu Dhabi, a história escrita pelas 24 etapas do calendário foi das mais sem graças, prejudicada principalmente pelo fim do atual regulamento dos carros de efeito solo, falta de gana dos candidatos ao título e ineficácia da Federação Internacional de Automobilismo (FIA).

O primeiro ponto, claro, tem uma interferência muito maior sobre o que aconteceu na pista. Quando as regras de 2022 foram escritas, o objetivo principal era reduzir o impacto do ar sujo, permitindo que os pilotos conseguissem seguir os rivais com mais facilidade, o que consequentemente aumentaria o número de ultrapassagens — uma tentativa válida de eliminar os problemas enfrentados na geração anterior. É justo dizer que o plano até funcionou em um primeiro momento, mas as dificuldades voltaram a aparecer à medida que as equipes desenvolviam os respectivos bólidos.

E tudo fica mais nítido ao analisar os dados a fundo. Na primeira temporada sob as normativas, quando os times se desesperavam na busca por respostas e apresentavam diferentes soluções aerodinâmicas, a F1 presenciou nada menos que 784 ultrapassagens — uma média de 35,6 por corrida. Em 2023, foram 858 trocas de posições em 22 etapas, já que os GPs da China e da Emília-Romanha não aconteceram, aumentando a média para 39. Vale destacar, porém, que esse valor acabou sendo distorcido pelo GP dos Países Baixos, que viu a forte chuva ter um papel fundamental nas 112 ultrapassagens por lá.

Os anos seguintes apresentaram uma tendência de queda, com 788 e 742 em 2024 e 2025, respectivamente, com médias de 32,8 e 30,9. Entretanto, se China, Ímola, Las Vegas e Catar forem excluídos dos cálculos, já que são as únicas praças que estiveram ausentes do calendário em algum momento nos últimos quatro anos, a diminuição do número de ultrapassagens fica ainda mais fácil de ser apontada: 741 em 2022, 733 em 2023, 636 em 2024 e 643 em 2025.

Último ano do regulamento ficou marcado pelo baixo número de ultrapassagens (Foto: Red Bull Content Pool)

A incapacidade dos pilotos de seguirem uns aos outros — a grande questão por trás das estatísticas negativas — se deve ao fato de o desenvolvimento dos modelos ter caminhado em uma direção que gera mais turbulência para aqueles que estão atrás. Com o aumento do ar sujo, há uma redução no downforce do carro perseguidor e uma maior dificuldade de lidar com a temperatura dos pneus, pois o monoposto passa a deslizar e, desta forma, superaquece a borracha.

De maneira geral, 13 das 24 corridas não chegaram sequer à marca de 30 ultrapassagens, com apenas seis provas indo além das 40. O GP de Abu Dhabi foi o que mais apresentou trocas de posições em 2025, com 60 no total, acompanhado por Bahrein (59) e São Paulo (57) no top-3. Mônaco e Catar figuraram na parte de baixo da lista, com quatro e sete, respectivamente.

A questão virou tema de debate até entre os participantes do grid, com Oliver Bearman citando o desconforto dos carros, Gabriel Bortoleto dando “graças a Deus” pelo encerramento do ciclo e Lewis Hamilton classificando a última geração como a pior da história. Por outro lado, Nico Hülkenberg defendeu os modelos “rápidos e espetaculares”, assim como Alexander Albon, que disse que as regras “não foram tão ruins”, e Liam Lawson, que deixou claro que vai sentir saudades da experiência que teve nos últimos anos.

Mas além dessa discussão, ainda há um outro fator que foi crucial para deixar o campeonato duplamente modorrento: a falta do chamado sangue nos olhos por parte de Lando Norris e Oscar Piastri na briga pelo título do Mundial com a dominante McLaren. Submissos às ‘regras papaias’, os pilotos até venceram sete provas cada, mas foram alvos de críticas em diversas oportunidades por causa da falta de agressividade e ambição nas disputas de pista — diferentemente de Verstappen, que foi o responsável por colocar uma graça na disputa ao se manter vivo até o fim com uma Red Bull cambaleante.

A postura de Lando Norris e Oscar Piastri também prejudicou o espetáculo (Foto: Reprodução/F1)

E seguindo o tom do que foi o certame, nem mesmo a prova no circuito de Yas Marina, que viu três competidores com chances de erguer o troféu, mostrou-se digna de um momento tão importante na história da F1. Na verdade, com exceção dos finais de semana em que a chuva se colocou como um fator — como Austrália e Inglaterra — ou pistas específicas que geralmente proporcionam um bom espetáculo, como é o caso de Interlagos, pouco pôde ser aproveitado deste ano. Não há nada que realmente deixou saudades.

Por fim, até as decisões inconsistentes ou pouco claras da FIA viraram temas constantes de debate. As punições dadas a Verstappen na Espanha, Piastri em São Paulo, Bearman na Itália, Hamilton na Cidade do México e a Carlos Sainz nos Países Baixos — que acabou sendo revertida — tomaram lugar nos holofotes mais do que deveriam. Contudo, a falta de sanções por parte da direção de prova em outros casos, como Charles Leclerc cortando caminho logo após a largada no México, por exemplo, passaram despercebidas e justificaram a insatisfação dos pilotos e do público.

Devido a essas e outras situações, os competidores passaram a cobrar comissários permanentes a partir de 2026, algo sobre o qual a FIA ainda não bateu o martelo, embora já tenha anunciado algumas mudanças no Código Desportivo Internacional (ISC, da sigla em inglês). Com o intuito de minimizar o número de erros, ficou determinado que a partir da próxima temporada os profissionais poderão revisar as próprias decisões dias depois do fim de uma corrida.

Uma segunda alteração se refere à criação de um novo sistema de comissários que permite a nomeação de um painel fora de uma semana de evento, desde que seja formado por pelo menos cinco membros que tenham conhecimento comprovado sobre a competição. Esse grupo poderá julgar os casos a qualquer momento, até mesmo durante o período de férias da F1 — algo que não acontece hoje.

A FIA estabeleceu mudanças nas decisões dos comissários a partir de 2026 (Foto: Reprodução/F1)

De qualquer maneira, é importante frisar que, mesmo que poucos pontos positivos possam ser tirados da temporada, muitas lições foram aprendidas. Com a chegada de um novo regulamento, que coloca um ponto final na geração dos carros de efeito solo, a promessa de corridas menos previsíveis e mais ultrapassagens deve ser alcançada. Com a aerodinâmica ativa e os novos métodos de uso das baterias, tudo indica que os pilotos vão possuir as ferramentas necessárias para serem mais agressivos.

Da mesma forma, os passos dados pela FIA, ainda que pequenos, para extirpar de vez os erros por parte da direção de prova precisam ser interpretados como um avanço. É inadmissível que a F1 lide com tanta dubiedade semana após semana. As regras precisam ser aplicadas com mais clareza e as decisões tomadas com mais consistência, gerando um cenário comum para comissários, pilotos e público.

Em resumo, a péssima temporada 2025 pelo menos expôs as feridas que necessitam ser tratadas. Mas só o tempo dirá se os remédios receitados foram os corretos.

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