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F1

Titular por 23 dias, Razia revela contato com Lotus, mas fechou com Marussia “porque era o que dava”

Luiz Razia insistiu em manter seus investidores sob sigilo, mas mencionou que se tratam de dois, que falharam no pagamento da segunda das seis parcelas devidas à Marussia, causando a perda da tão sonhada vaga na F1 para Jules Bianchi

Warm Up / VICTOR MARTINS, de São Paulo

23 dias e dez horas foi o tempo que Luiz Razia permaneceu como titular na F1 (Arte: Bruno Mantovani)

Perguntar ‘tudo bem?’ para quem acabou de receber a notícia da perda do emprego que sonhou na vida é um ato falho inconsciente. Luiz Razia nem passou pelo período temporário de 30 dias – foram exatos 23 dias e dez horas –, mas viveu dias de aviso prévio na Marussia diante da inadimplência de seus incertos e não sabidos investidores. Até que, oficialmente, às 15h01 (de Brasília) deste 1º de março teve de entregar seu cargo de piloto titular de F1 para Jules Bianchi.

O riso que surgiu diante da pergunta até denotou uma conformidade de quem já esperava tal desfecho. Talvez não naquele dia, como a conversa acaba revelando, mas o calote na segunda das seis parcelas do pagamento combinado à pior equipe do campeonato fez com que a assinatura no contrato fosse invalidada. Em um primeiro momento, a análise apontou para um lado. “A gente fez tudo certo”, disse Razia com exclusividade ao Grande Prêmio por telefone. “O pessoal brasileiro que mora nos EUA e está investindo na gente tinha assinado o contrato e pagado a primeira parcela, então estava tudo indo do jeito que a gente precisava e, por questões de aplicações, eles tiveram problemas de tirar o pagamento para a outra.”

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Uma breve volta a novembro resgata a informação de uma fonte próxima a Razia. “Se ele vier ao GP do Brasil é porque alguma coisa está engatilhada para o ano que vem”, e quando o baiano de Barreiras apareceu no paddock de Interlagos, o questionamento sobre suas negociações e futuro encaminhado foi inevitável. Ali já se sabia que Luiz conversava fortemente com Force India e Marussia, principalmente, mas vai que alguma coisa sobrasse na Caterham.

Ali, no entanto, já se compreendia a dificuldade para arrumar patrocinadores, sobretudo nacionais. Enquanto o mundo se debruçava para descobrir os passos de Bruno Senna, Razia deixava propositalmente escapar, no fim de janeiro, o acordo com a Marussia. O anúncio pessoal foi posto em seu site, retirado no mesmo dia, divulgado no principal telejornal do país e só confirmado na semana seguinte, estranhamente um dia depois que a escuderia revelou seu carro novo.

A divulgação do material de imprensa da Marussia estampava claramente que seus patrocinadores/apoiadores, Cyber1 e Filabé, foram postos de forma virtual em seu macacão. Ao se apresentar para os primeiros treinos coletivos em Jerez de la Frontera, que acabaram sendo seus únicos, as marcas não apareciam mais em sua roupa de trampo. Tudo voltava ao enigma. Tipo este “pessoal brasileiro que mora nos EUA e está investindo na gente”.

“Isso foi enrolando, e o banco foi os enrolando também. A primeira semana de Barcelona passou, mas estava com muita esperança de que a gente ia resolver porque nos falaram que era uma questão de tempo”, contou Razia. “A gente começou a contatar várias pessoas que poderiam nos ajudar, mas não conseguiu – até hoje de tarde, a gente teve várias reuniões”, referiu-se a esta sexta. “A equipe obviamente precisava desta parcela, e a gente acabou sendo irregular com o contrato.”

Numa linguagem popular, foi a primeira mancada destes investidores com quem Razia trabalha “desde o ano passado”. “Os primeiros testes que eu fiz de F1 foram com eles, então estava tranquilo quanto a isso. E infelizmente acontece isso chegou a esse ponto de não poder fazer nada”, lamentou. O contrato foi assinado precisamente em agosto. “E os testes que a gente fez de Force India e Toro Rosso, além da nossa temporada de GP2, já tiveram suporte dessas pessoas”, defendeu. Luiz foi novamente instado a falar mais sobre a identidade deles. “Não posso porque seria falta de ética minha. A gente não se acertou ainda e vai ter de sentar para ver o que vai ter de fazer no futuro, e seria antiético da minha parte falar o nome delas.”

O que ao menos se pôde extrair é que se tratam de duas pessoas, “com empresas nos EUA e na Suíça”.



Dentre os investidores revelados por Luiz Razia, um deles deve estar relacionado à suíça Filabé (Arte: Bruno Mantovani)

Mais abertamente, em uma conversa anterior, Razia havia mencionado que quem agenciava sua carreira eram os empresários “Téo e Vera”. Que vêm a ser Téo e Vera Lopes, responsáveis pela Eau Rouge Motorsport Management, companhia com base na Inglaterra que também cuida dos brasileiros Rodolpho Gamberini, Victor Corrêa e Yann Cunha. “Eles não corriam atrás de patrocínio. A parte deles era falar com as equipes e fazer as propostas”, falou Luiz. Os intermediários de Luiz não só procuraram a Marussia e a Force India, como se sabe. “A gente chegou a conversar com a Lotus e com a Caterham também”, revelou.

A Lotus é a novidade desta história. “Inclusive o anúncio do (Romain) Grosjean demorou porque a gente estava falando bastante com eles”, comentou Razia, para completar que “não foi muito além de duas ou três reuniões”.

Já as negociações com o time de Vijay Mallya estavam, segundo o piloto, “bem adiantadas”. “Mas como os valores deles estavam fora da nossa possibilidade, a opção acabou restando entre a Caterham e a Marussia. E, pra falar a verdade, a gente fechou com a Marussia porque era a oportunidade que dava.”

Razia deu uma noção das cifras com as quais lidou. “Quando eu estava negociando com as equipes, muita gente falava em valores absurdos. Falavam em € 30 milhões, que é algo gigante, de patrocinador principal. O que é possível levar hoje para a F1 é algo entre € 5 a 8 milhões, no nosso caso”, contou. Diante da estimada quantia de € 20 milhões para o cockpit da Force India, Luiz respondeu que o preço era “mais baixo”. “Mas a Force India, na verdade, era uma incógnita. O (Adrian) Sutil garantiu a vaga na equipe, na minha opinião, porque poderia garantir mais pontos no campeonato – eles estavam vendo se valeria a pena pegar dinheiro de um piloto ou um piloto que poderia somar mais pontos.”