GUIA 2024: Novo carro da F2 traz efeito-solo, cockpit democrático e mais segurança
Com uma aerodinâmica próxima ao que se vê na Fórmula 1 e inúmeras melhorias para aumentar a segurança dos pilotos em caso de impactos em T, por exemplo, o novo carro da Fórmula 2 também traz como diferencial volante e cockpit com maior capacidade de ajustes para facilitar a chegada de mulheres à classe
O início de uma nova temporada na Fórmula 2 sempre traz expectativa quanto aos pilotos, afinal se trata do último degrau antes do salto para a Fórmula 1, mas 2024 vem com um ingrediente ainda mais chamativo e que promete proporcionar às equipes um desafio extra: o carro. Pela primeira vez desde 2018, os competidores terão à disposição um equipamento atualizado e pensado não somente para ser mais próximo do que se vê na F1, como também oferecer um espaço mais democrático para homens e mulheres.
Essa é uma das principais propostas da nova geração de carros. O modelo atual, na verdade, era para ter se aposentado em 2021, mas a pandemia da covid-19 atrasou os planos, fazendo com que o grid permanecesse com o mesmo equipamento por mais três anos. Mas a mudança de regulamento da Fórmula 1 em 2022, com alterações significativas em termos de aerodinâmica, criou uma lacuna ainda maior entre as classes, portanto é uma atualização que também visa uma similaridade maior com a elite do automobilismo mundial.
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Comparando com a versão anterior, há muitas diferenças no design, algo que ficou muito visível assim que o bólido foi revelado ao mundo em agosto do ano passado. De cara, é possível notar as linhas mais arredondadas no sidepod, assim como o desenho da asa traseira seguindo o usado na Super Fórmula — principal série de monopostos da Ásia e que tem sido encarada cada vez mais como alternativa aos pilotos que aguardam por uma chance na F1.
Curiosamente, tanto o chassi do carro da F2 quanto o da Super Fórmula são produzidos pela fabricante italiana Dallara. O motor, por sua vez, é um turbo Mecachrome de 3,4 litros desenvolvido para funcionar com combustível 55% de origem biológica. A partir do ano que vem, os carros serão alimentados com combustível 100% sustentável produzido pela Aramco.

A principal mudança, contudo, está na parte de baixo. Assim com na F1, os carros da F2 2024 também terão no assoalho peça-chave para todo o trabalho em ganho de aerodinâmica — e, consequentemente, performance — por conta do efeito-solo. Após o shakedown realizado no Bahrein, Felipe Drugovich falou ao site oficial da categoria sobre o desafio para as equipes pelo “novo jeito de produzir downforce“. Esse ponto, na visão do campeão de 2022, pode trazer um equilíbrio maior ao campeonato, além de corridas mais disputadas.
Ainda sobre as modificações, a categoria se preocupou em seguir as mais recentes especificações de segurança determinadas pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA), conforme explicou o diretor-técnico da F2, Pierre-Alain Michot, ao site da revista inglesa Autosport em janeiro deste ano.
“O processo para projetar o carro foi bastante longo e intenso durante o inverno passado porque tivemos de criar um carro completamente novo… não do zero, porque a filosofia é a mesma, mas foi preciso acomodar muitos novos recursos e ter certeza de que estamos nos aproximando do visual da F1 que queríamos alcançar”, explicou o diretor.
“Levamos em consideração a aparência, mas também o desempenho e todos os novos requisitos técnicos da FIA em termos de segurança. Também tivemos de seguir todas as diretrizes que eles queriam alcançar com a F1 com os regulamentos mais recentes, apenas para ter certeza de que aumentaremos um pouco mais a performance do carro que já tínhamos em nosso DNA. É algo que sempre quisemos ter e avançamos com este modelo”, salientou, enfatizando que sempre foi preocupação da categoria poder oferecer aos jovens pilotos um equipamento que fosse capaz de prepará-los de forma mais efetiva para a F1.
“Um dos principais objetivos era segui-lo [o carro da F1] em termos de aparência, desempenho e todo o pacote aerodinâmico. É por isso que agora temos este belo modelo, com todas as características de um F1. A motivação foi o fato de que queríamos deixar os pilotos em boa forma para a etapa seguinte. É por isso que temos um carro que parece tão próximo da F1”, completou Michot.
Volante e cockpit adaptável: F2 2024 busca democratização da classe
Corrado Casiraghi, chefe-técnico das categorias de base chanceladas pela FIA, complementou à Autosport sobre a maior capacidade de ajustes. Há, por exemplo, um limite obrigatório para a carga da direção, um volante que pode ser melhor utilizado por quem tem mãos menores e um cockpit capaz de acomodar pilotos entre 1,50 m e 1,97 m de altura.
Tatiana Calderón, que também esteve no shakedown realizado no Bahrein, no ano passado, relatou como se sentiu melhor ao volante no novo carro, considerado pela pilota “de fácil adaptação”. “Foi extremamente positivo, e é um grande passo para as mulheres pilotos. É extremamente importante, porque se você não estiver confortável, nunca chegará ao limite. É preciso se concentrar na configuração do carro, não se o banco está confortável ou com o treinamento. Quando isso acontece, impede você de focar só nas coisas importantes”, frisou.
Casiraghi emendou que a questão da adequação do piloto foi reconhecida “como o principal obstáculo a uma maior inclusão”, ressaltando que as mudanças “visam criar um ambiente onde o talento e a habilidade de pilotagem tenham precedência sobre as características físicas”.

Com relação às melhorias na segurança, o chefe-técnico colocou o item como “prioridade máxima” no desenvolvimento do carro. Uma área que mereceu atenção especial para o carro da F2 2024 foi o Santo Antônio, peça que fica acima da cabeça do piloto e passou por atualizações quanto à capacidade de absorção de impacto na F1 após o acidente envolvendo Guanyu Zhou no GP da Inglaterra de 2022. Foi também na etapa de Silverstone, no mesmo ano, que Dennis Hauger foi parar com o carro sobre o cockpit de Roy Nissany após acidente provocado pelo piloto israelense.
A estrutura, portanto, foi fortalecida para suportar agora uma carga 20% maior que a anterior. A célula de sobrevivência também recebeu uma recauchutada após ser submetida a um teste que gerava uma desaceleração 30% superior à do chassi do carro da geração passada. Já a estrutura frontal pode absorver um impacto que tenha 50% mais energia, e a lateral do carro foi ampliada para proteger melhor a célula de sobrevivência. A parte lateral foi agora projetada para resistir uma carga de 380 kN (equivalente a 3.800 kgf), numa busca por proteger melhor o piloto em caso de batida em T, como a que vitimou fatalmente Anthoine Hubert na Bélgica, em 2019.
Para Calderón, o trabalho foi positivo. “Eles tornaram a lateral do cockpit mais forte e estão realmente dando um passo ainda mais longo do que a F1 dará em 2026. Eles analisaram os incidentes que tivemos no passado e avançaram muito nesse sentido. Como piloto, você sempre quer ter certeza de que está conduzindo algo muito seguro”, concluiu a colombiana.
O GRANDE PRÊMIO acompanha a temporada 2024 da Fórmula 2, que começa neste final de semana, entre os dias 29 de fevereiro e 2 de março, no Bahrein.
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