Em meio a domínio de Dixon, Indy cresce com histórias de Kanaan e O’Ward

A temporada 2020 não é das melhores na competitividade e nem no nível das corridas, mas apresenta o interessante crescimento de Pato O'Ward e os momentos, finais ou não, da trajetória da lenda Tony Kanaan

2020 é um ano atípico para todas as categorias do mundo. Na realidade, para todos os esportes, para tudo que é atividade, afinal, o planeta atravessa uma pandemia. E é claro que isso se reflete na Indy, com um calendário muitas vezes mexido, cheio de rodadas duplas e desfalcado de diversas pistas tradicionais. No fim, o que se vê é uma temporada estranha, sem brilho, sem grandes disputas na pontuação e até nas provas. É um campeonato, em geral, bastante morno.

Assim, com Scott Dixon muito perto de um hexacampeonato merecido, mas que está desenhado desde as primeiras semanas de temporada, nos restam as histórias. E as melhores estão concentradas em um jovem promissor e em um veterano em suas últimas corridas: a graça da Indy 2020 está, basicamente, na evolução de Pato O’Ward e na definição de Tony Kanaan.

Comecemos, então, pelo mexicano. Aos 21 anos, Pato finalmente está acontecendo. A verdade é que o talento, o potencial, eles sempre estiveram ali, mas consistência foi algo que faltou em seu início de carreira. O’Ward era conhecido como alguém muito bom, mas que vivia em uma montanha-russa, seja por falta de orçamento ou por resultados que não chegaram nos momentos mais importantes. Mas o jogo está virando.

Pato O’Ward faz uma grande temporada (Foto: McLaren)

É curioso como um espaço de menos de dois anos foi tão maluco para Pato. Em 2018, o mexicano vencia a Indy Lights em cima de nomes como Colton Herta e Santi Urrutia, estreava na Indy com um top-10 em Sonoma e, aparentemente, estava com a vida ganha. Só que veio 2019 e tudo aconteceu. Primeiro, o carro da Harding que era para ele não existia mais, veio a Carlin. O início foi promissor, mas O’Ward entrou no programa de jovens pilotos da Red Bull e despencou. O contrato com a marca de energéticos durou pouquíssimo: uma etapa da F2 e três da Super Formula, sem qualquer resultado expressivo. Novamente, quando tudo caminhava para o pior, veio a virada, a partir do momento em que Pato foi anunciado como titular da McLaren na volta para a Indy em 2020.

E aí veio a união entre um ótimo piloto e um carro muito bom. Sim, é verdade que a McLaren ainda comete alguns vacilos nos boxes. Sim, também é fato que a Chevrolet está devendo em relação aos motores Honda, mas, em geral, já é um casamento que funciona direitinho. Enquanto Oliver Askew pena com problemas de novato, O’Ward demonstra maturidade e, mais do que isso: com menos de duas temporadas completas, já é um dos melhores pilotos do grid. Pato é futuro, mas também é presente em uma Indy cheia de bons nomes.

“Não foi frustrante. Estou em grande temporada, terceiro nos pontos, anotando pódios. Ainda sou novato, poder brigar por vitória no meu primeiro ano? Fico feliz com isso. É claro que queremos vencer, estamos aqui para isso, mas também para estar em pódios. Estamos melhorando cada vez mais, trabalhando juntos, mais fortes a cada fim de semana. Temos de seguir fazendo o que já fizemos. Executando desta maneira, a vitória virá”, comentou Pato, que já bateu na trave três vezes para vencer, incluindo na corrida 2 de Gateway.

Josef Newgarden tenta seguir vivo no campeonato (Foto: Indycar)

Entre esses bons nomes, é claro, se destacam Dixon e Josef Newgarden. E não é de hoje. 96 pontos separam os dois principais pilotos da categoria, que trocaram triunfos no oval curto de Illinois e Missouri. O hexa do neozelandês está bem próximo, mas o americano se recusa a jogar a toalha e vai carregando nas costas a Penske em uma temporada complicada do time mais poderoso do grid.

“O time fez um grande trabalho hoje. Pegamos tráfego nas últimas sequências e o Zach Veach nos atrapalhou. Estava voltas atrás e diminuindo o ritmo de todos. Não sei se estava tentando ajudar o companheiro dele, o Herta, mas estragou minha corrida e a do Takuma. Não sei como isso acontece quando você é parceiro de Honda. Eu esperaria algo diferente, especialmente com a outra montadora nas quatro primeiras posições. Foi um dia decente em termos de pontos e fizemos o máximo do que tínhamos”, falou Dixon após o quinto lugar na prova de hoje.

“Foi uma vitória no pit-stop. O time fez um grande trabalho nas paradas, me colocaram nas posições certas o tempo inteiro. Foi realmente divertido disputar com o Pato no pit-lane, foi uma vitória só pelo lado a lado na saída. Ele fez um trabalho incrível. Vai fazer grandes coisas no esporte. Não podemos desistir. Ontem foi um golpe grande, estamos cercados de azar neste ano. As amarelas foram contra nós em três ou quatro das outros corridas. As vezes vai ao seu favor, mas outras não, e isso é parte das corridas. Você tem de esperar uma em um stint bom, e talvez este seja um bom pontapé para o fim da temporada”, disse Newgarden depois de vencer.

Tony Kanaan fez sua última prova. Ao menos em 2020 (Foto: Indycar)

Mas a outra grande história de 2020 na Indy não está relacionada ao título, bem como não tem a ver com uma jovem promessa. Estamos falando de Kanaan, que, do alto de seus 45 anos, mostrou que ainda tem muita gasolina no tanque. O brasileiro, que fez apenas os ovais do calendário, ficou três vezes entre os 11 primeiros e sempre foi competitivo, mesmo que a Foyt esteja longe, bem longe de ser uma potência.

E a história de Tony é que, teoricamente, seria a última temporada dele na Indy. Campeão da categoria, vencedor da Indy 500 e um dos campeões de popularidade, Kanaan é uma verdadeira lenda e merecia a melhor das despedidas. O que não aconteceu em 2020. Não por seu desempenho, mas especialmente pela ausência dos fãs em tantas provas, principalmente em Indianápolis. Por isso, por mais que Gateway tenha sido tratada como sua última prova na Indy, não faz sentido que assim seja. E ele sabe disso.

“Tenho muitos fãs para agradecer pelo apoio, e por isso 2021 é tão importante. Eu acho que se não acontecer, vai ser OK, porque tive grande carreira, mas quero uma despedida digna. Estou ansioso pelo que vem na minha vida, mas mais uma Indy 500 seria especial. Mudei meu plano [de parar em 2021] porque não iria aposentar do jeito certo, mas meu time e meus patrocínios tomaram outra decisão. Isso significa que o meu desejo não necessariamente acontecerá. Agora, eu não tenho time ou patrocínios, mas vou começar as ligações nesta semana”, afirmou o brasileiro, que agora define seu futuro na Indy e na carreira.

Tony merece todas as reverências e homenagens, tem de sair carregado nos braços do povo e sair da Indy por cima, com tudo que tem direito. É fundamental que Kanaan volte em 2021, que retorne com condições de brigar por coisas grandes e que tenha, aí sim, uma despedida de acordo com seu tamanho. Para que possa passar a guarda para novos talentos que certamente vão seguir seu legado, entre eles O’Ward.

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