O futuro do Brasil na Ferrari é feminino? Quem são as brasileiras no programa da equipe

Antonella Bassani e Júlia Ayoub foram escolhidas para participar do programa Girls on Track da FIA, que tem objetivo encontrar a primeira pilota para a Academia de Pilotos da equipe italiana

O automobilismo tem mudado. O esporte ainda predominantemente masculino tem aberto a porta para o novo e para a inclusão, e isso é visto com o espaço que as mulheres têm ganhado cada vez mais. Um grande exemplo é a criação do ‘Girls on Track‘, programa da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) em parceria com a Ferrari para encontrar a primeira pilota da Academia de Pilotos. Na seletiva, duas brasileiras: Antonella Bassani e Júlia Ayoub.

A entidade máxima do esporte e a Comissão das Mulheres no Automobilismo anunciaram a criação do programa no início de junho. O objetivo é estimular jovens talentos do esporte, providenciar apoio desde os primeiros passos e evidenciar as competidoras. Destinado para garotas entre 12 e 16 anos, tem parceria com a escuderia de Maranello por quatro anos e pode render uma vaga na Fórmula 4 em 2021.

Na fase da triagem, mais de 70 pilotas se inscreveram e tiveram seus currículos analisados. Deles, apenas 20 nomes foram escolhidos para seguir adiante no processo. As duas brasileiras aprovadas têm 14 anos.

Mas como surgiu a paixão pelo esporte a motor? “Meu pai sempre foi um admirador do automobilismo, juntamente com meu Dindo [seu irmão], pois ambos corriam de kart e velocidade na terra. Desde muito pequena, eu visitava as pistas, mas com 4 anos e meio eu perguntei para meu pai se poderia andar de kart, e aí tudo começou. Andava muito em várias provas da região Sul, sempre alcançando posições expressivas nos principais campeonatos”, contou Antonella ao GRANDE PRÊMIO.

Júlia Ayoub foi uma das 20 selecionadas (Foto: Divulgação/RF1)

Para Júlia, o amor também teve início dentro de casa. “Tudo começou quando fui assistir a um treino de kart do meu irmão em Interlagos. Meu pai foi piloto quando jovem, e quando meu irmão iniciou no kartismo, só se falava de kart em casa. Desde a primeira vez em que estive em uma pista nunca mais quis sair de lá”, falou ao GP.

Os caminhos de ambas chegaram a se assemelhar. “Meus primeiros passos foram na categoria Cadete na Copa KGC de kart do Kartódromo Granja Viana. Fiz poucas corridas na cadete e logo depois subi de categoria: fui para a Júnior Menor, Kart 125 cc, kart grande, onde comecei a correr em outros campeonatos e ganhar um pouco mais de destaque”, pontuou Ayoub. “Comecei fazendo pequenos campeonatos, encarávamos como um lazer em família. Fui me familiarizando cada vez mais com o esporte e gostando cada vez mais. Em minha trajetória até agora, consegui vários títulos, mas acredito que o diferencial foi ter começado a andar em São, Paulo, na Granja Viana e Aldeia da Serra”, sublinhou Bassani.

Antonella sofreu um pouco por ser mulher. “Os meninos não gostavam de perder”. Em São Paulo, isso se acirrou. “Mas impus meu respeito no sentido de não me deixar abater por tantas batidas e jogadas para fora da pista parte dos meninos. Algumas vezes eram coisas de corrida, outras, por eu ser mulher. Hoje competimos de igual para igual”, completou.

E tanto Júlia quanto Antonella já tiveram a experiência de correr em campeonatos internacionais de kart. A primeira competiu no Europeu e Mundial de Kart em 2019; a segunda já participou do Sul-Americano de Rotax e da Rotax Max Challenge Grand Finals, em Portugal. E não resta dúvida se acreditam que as provas vão ajudar no programa.

Antonella Bassani (Foto: Divulgação)

“Tudo ajuda. A tocada deles é diferente. Vivenciei isso quando fui para o Mundial de Rotax em Portugal, onde competi com pilotos de vários países. No Peru, a pista era bastante suja e isso para mim era familiar, mas não é como a casa da gente. Larguei de último e cheguei em 2º. Fui Vice-campeã Sul-Americana. Nos Estados Unidos, participei de um campeonato em janeiro deste ano, a experiência foi muito legal”, disse a catarinense Bassani.

“Com certeza a experiência que adquiri no Campeonato Europeu de Kart, especialmente no Mundial no ano passado, vai contribuir para minha participação no programa. Eu aprendi muito com o alto nível técnico lá de fora. Venho em uma crescente muito boa e ter ido competir na Europa em 2019 fez uma diferença enorme na minha carreira. Evoluí muito e com isso deu um grande passo como pilota”, emendou a paulistana Ayoub.

Ainda sobre a carreira, Antonella passou por momentos de tensão em 2013, quando sofreu um forte acidente ao capotar o kart. A pilota precisou passar por uma delicada cirurgia no pulmão, mas logo no ano seguinte já voltou para as pistas. “No primeiro ano tive medo, sim, [de voltar às pistas]. Olhava o tempo todo para trás, mas pedi aos meus pais não desistirem porque era o que eu mais gostava de fazer”, contou.

Júlia Ayoub se vê bastante preparada para o início das atividades (Foto: Divulgação/RF1)

“Então, fui acompanhada por psicólogo e psiquiatra para trabalhar o trauma. Em momento algum, após eu ter voltado às pistas, meus pais recuaram. Foi aquela história, ‘se der medo, vai com medo e tudo’. Hoje não lembro: quando fecho a viseira do meu capacete, entro no meu mundo e fica tudo bem. Eu e meu kart somos um só”, completou.

Já quando o assunto é o programa ‘Girls on Track’, as pilotas já estão com a preparação e ansiedade no alto. “As expectativas para o começo do programa são as melhores possíveis. Já vinha com preparo físico e alimentação muito bons. Agora vou intensificar meu preparo físico e mental, meu treino no simulador, no kart e tudo mais. Fazer parte da Ferrari é a realização do sonho de qualquer piloto”, destacou Ayoub.

Antonella seguiu o discurso da paulistana. “Não esperava chegar a um nível desse. Então, para mim, isso tudo é um sonho. Sempre fui muito esforçada e sempre tentei desempenhar da melhor forma meu papel como piloto, brigando e querendo mais. Porém, sei também que existem muitas mulheres muito bem qualificadas. O que posso dizer é que estou muito feliz, me sinto privilegiada por ter conquistado essa vaga na seleção e conseguido tamanha oportunidade. Às vezes, eu me pergunto até se a fichinha já caiu”, disse.

“Estou muitíssimo focada. Por causa da pandemia, estamos com os campeonatos cancelados, mas, em minha cidade tem kartódromo e lá tem sido a minha segunda casa. Treino muito. Fora o kartódromo, tenho treinos intensos com um personal para trabalhar a parte física e cardíaca, e estou com um professor particular que vem em minha casa para dar uma acelerada no inglês. Treino em simulador e tenho assistido a documentários sobre pilotos que fizeram história na Fórmula 1”, continuou.

Antonella está ansiosa para o início das atividades (Foto: Cris Reis)

“É um enorme desafio e uma tremenda responsabilidade [ser a brasileira na Ferrari]. Fico pensando na grandiosidade disso e, apesar de entender como uma baita responsabilidade, sinto muita gratidão também por fazer parte desse processo. Então, com certeza estou comprometida para dar o meu melhor em tudo”, completou.

E como encaram iniciativas como o ‘Girls on Track’? “Acho que demorou para essas iniciativas começarem a acontecer. Mas agora que as mulheres estão ganhando cada vez mais destaque, vamos ganhar cada vez mais espaço dentro do automobilismo”, concluiu Júlia.

“Acho muito legal. É importante que haja espaço para mulheres. A FIA dá o exemplo. Espero que com isso mais categorias sigam o caminho e desenvolvam programas para termos mais mulheres participando das corridas em condições dignas de vencer. Sempre disputei com muitos meninos, e sei que posso vencê-los”, encerrou Antonella.

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