Diários de Viagem, por Fernando Silva: Diversão no paraíso verde e plano do Brasil

Não foi propriamente uma novidade estar em Goiânia. Mas, depois de quase cinco anos longe, é sempre bom voltar. E desta vez a expectativa estava em cobrir o Mitsubishi Racing Day. Mais do que isso, era a chance de ser parte do evento e guiar no belo Autódromo Internacional Ayrton Senna no Fun Day. E, definitivamente, foi um dia pra lá de divertido

Goiânia é uma das mais belas e agradáveis cidades que já tive a chance de conhecer a serviço do jornalismo. Foi com grande alegria que recebi o convite do GRANDE PRÊMIO e da Mitsubishi para cobrir o Mitsubishi Racing Day nos dias 19 e 20 de junho, lá no Autódromo Internacional Ayrton Senna. Foi minha primeira viagem neste retorno ao GP, sem contar o épico encontro com Mr. Bernie Ecclestone em Amparo, no fim de abril. Poder aliar viagem, trabalho e velocidade está, sem dúvidas, entre as grandes satisfações que a nossa profissão nos proporciona.

A última vez que estive em Goiânia foi há cinco anos. Sem dúvidas, é uma cidade que traz grandes recordações porque foi lá que abri a cobertura do Rali dos Sertões de 2010, um daqueles trabalhos que não saem da memória. Então, estar de volta ao chamado ‘paraíso verde e plano do Brasil’ acabou por ser muito especial também por isso. Mas a missão neste ano era igualmente interessante: poder acompanhar, de uma vez só, quatro eventos no mesmo lugar e em um só dia. Explico.

O Mitsubishi Racing Day foi um evento inédito promovido pela Mitsubishi Motors do Brasil e englobou, no mesmo ambiente, o rali de regularidade Mitsubishi Motorsports, a Mitsubishi Lancer Cup e os track-days Evo Day e Fun Day — ao qual estava inscrito e participaria logo mais. E não haveria lugar melhor para fazê-lo do que em Goiânia, capital do estado de Goiás, onde são fabricados os carros da montadora dos três diamantes por aqui, mais precisamente em Catalão, distante 216 km de Goiânia.

O lugar para abrigar o evento foi o Autódromo Ayrton Senna, que virou a grande praça do automobilismo brasileiro durante a reforma de Interlagos, em São Paulo. Particularmente, não conhecia o circuito, de modo que seria uma chance legal para estar presente, acompanhar o evento em si e desfrutar, como dizem os espanhóis.

A viagem propriamente dita começou na sexta-feira pela manhã, quando meu irmão, também Fernando, me levou ao aeroporto de Viracopos, em Campinas. Fazia muito frio, uns 15ºC, mais ou menos, o que era bem diferente daquilo que encontraria em Goiânia horas mais tarde.

Antes do embarque, uma partida de vídeo game: é óbvio que levei fumo (Foto: Fernando Silva/Grande Prêmio)

Ainda restava um bom tempo para o voo, então comprei uns créditos para jogar FIFA 15 num token da PlayStation no aeroporto. Nem precisa dizer que levei um fumo jogando contra a máquina. Mas ao menos me diverti um pouco. E era essa a grande razão de tudo, como é a própria razão da vida em si. Viver e se divertir durante o tempo em que vivemos por aqui.

E a ida para Goiânia me fez lembrar o quão curta é a vida. Dias antes, a cidade — e também o Brasil — lembrava um ano da morte trágica e precoce do grande Fernando Lúcio da Costa, o eterno Fernandão, dos caras mais aguerridos que já vi jogar. Não tive dúvidas em voar para Goiânia vestido com uma camisa vermelha em homenagem ao grande artilheiro e capitão do Colorado na campanha da Libertadores e do Mundial em 2006. O que jamais poderia imaginar que, dias depois, Goiânia choraria outra trágica morte. Coisas da vida.

Voo tranquilo e, depois de 1h30 de viagem, mais ou menos, era chegada a hora do desembarque no Aeroporto Santa Genoveva, não sem antes sobrevoar o lindo estádio Serra Dourada e o próprio autódromo. Quem também estava a bordo era o parceiro e interiorano Cleber Bernuci, colega de trincheira das antigas e que também havia sido convidado para a cobertura do Mitsubishi Racing Day por lá. E como esperado, fazia muito calor na bela Goiânia. E antes de seguirmos de taxi direto rumo ao autódromo, tentamos ajudar um senhor em dificuldades para fazer funcionar seu carro no estacionamento do aeroporto. Mesmo empurrando seu carro várias vezes, não teve jeito. O problema era bem mais sério. Quase apelidei o ‘tiozinho’ de Alonso, coitado.

Seguindo para Goiânia homenageando o eterno Fernandão (Foto: Fernando Silva/Grande Prêmio)

Então seguimos rumo ao autódromo para começarmos as atividades por lá e tudo mais. Fomos bem recebidos por toda a equipe Mitsubishi. Para mim, foi muito bom reencontrar todos, pessoal que não via há pelo menos uns dois anos. Era bom estar de volta, definitivamente. Também tive a chance de ver novamente amigos como os locutores e jornalistas Luc Monteiro e também Marcelo Caiano. É bom demais ver e ser visto, então desde cara estava curtindo tudo.

Sexta-feira foi, no fim das contas, um dia de preparação para o grande evento que rolaria no dia seguinte em Goiânia. E entre uma atividade e outra de pista, tive a chance de conhecer o traçado andando de carona com o Felipe Maluhy, que já pilotou na Stock Car. Apesar da velocidade com o ótimo Lancer Evo, com direito a alguns drifts, foi uma volta tranquila, sem sustos. Foi bom para aprender bem o traçado, já que no dia seguinte estaria em ação guiando um dos modelos escolhidos pelo pessoal no Fun Day.

Entre as histórias curiosas daquele dia está a da equipe Paraguay Racing, inscrita na Lancer Cup e formada por brasileiros residentes no país guarani, mais precisamente em Ciudad del Este. O Paraguai tem certa tradição na América do Sul, sobretudo nos ralis de velocidade, mas o automobilismo de pista carece de desenvolvimento, uma vez que sequer há circuitos adequados para a prática do esporte. Então, uma das ideias do time liderado Odair dos Santos — dirigente do Club Atlético 3 de Febrero — e Carlos André é fomentar o automobilismo por lá e, aos poucos trazer pilotos paraguaios para competir aqui no Brasil.

Ainda na sexta-feira, tivemos acesso a uma palestra com ninguém menos que Ingo Hoffmann. Diante de uma infinidade de espectadores, o ‘Alemão’ falava com muita propriedade sobre sua carreira, os desafios que enfrentou desde sempre para tornar-se um piloto profissional, a curta experiência na F1, como conseguiu dar a volta por cima para virar o maior de todos na Stock Car e alcançar a maior vitória da sua vida, o Instituto Ingo Hoffmann, voltado para auxílio a crianças portadoras de câncer infantil e suas respectivas famílias, em parceria com o Centro Infantil Boldrini, em Campinas.

Equipe Paraguay Racing disputou a Lancer Cup em Goiânia (Foto: Fernando Silva/Grande Prêmio)

Enquanto ouvia Ingo falar sobre sua trajetória de vida, começava a pensar um pouco também na minha história, nos desafios que venci a cada dia, em cada aspecto, e pensava no quão bom é fazer o que se gosta e em meio a pessoas tão especiais. Tudo o que tive de superar para seguir em frente, na carreira e na vida. E tudo aquilo só me dizia que sim, que valeu a pena, e que está valendo a pena.

Então a programação daquela sexta-feira estava praticamente encerrada. Era hora de voltar ao hotel, recarregar as energias, jantar, fazer os contatos para saber se todos por aqui estavam bem e descansar. Sabia que o sábado seria intenso, mas também muito divertido.

O sábado amanheceu tão belo e quente quanto a última sexta, o que era prenúncio de um dia bem interessante e propício à prática do automobilismo. Seria interessante ver como seria organizado um evento ‘quatro em um’, e com os carros de rali do Mitsubishi Motorsport — nas categorias Graduados e Turismo — largando na pista e conhecendo o traçado antes de seguirem rumo às trilhas de asfalto e terra nas cercanias de Goiânia. E foram muitos, muitos carros acelerando ali, embora num ritmo bem menos intenso do que o que estava acostumado a ver por se tratar de uma prova de regularidade.

Tão logo a programação do Mitsubishi Motorsports seguiu toda para as trilhas, então a organização do Racing Day tratou de deixar tudo pronto para a largada da Lancer Cup em Goiânia. Era uma prova bem especial para os pilotos, já que a maioria estava competindo pela primeira vez fora dos domínios do complexo VeloCittà, belo e funcional circuito de propriedade da Mitsubishi, em Mogi Guaçu, interior de São Paulo. Imagino a ansiedade de todos ali no grid, mas também estava pra lá de ansioso.

Foi com o Mitsubishi ASX que completei as primeiras voltas guiando em Goiânia (Foto: Fernando Silva/Grande Prêmio)

É porque, depois da corrida, chegaria a minha vez de acelerar no Fun Day. Não tinha a menor ideia de como seria, apenas que era uma prova de regularidade, a exemplo do que acontece no Mitsubishi Motorsports, mas acelerando dentro de uma pista fechada, mas com velocidade e tempo controlados pelos postos de controle. Mas tinha minhas dúvidas se seria de fato um piloto capaz de cumprir à risca a tal da ‘regularidade’.

Por volta das 13h30, pouco depois do almoço, o Thiago Padovanni, que é um dos assessores de imprensa da Mitsubishi, me chamou e disse: “É a sua hora”. Já estávamos meio atrasados, na verdade, mas conseguimos assumir o controle do carro e acelerar. O modelo era uma Mitsubishi ASX branca dotada de câmbio automático — CVT. Levava o numeral #75. Só havia antes guiado um carro assim em outro evento, da Mini, na Fazenda Capuava, há muito tempo. Não tinha muita ideia de como proceder. Mas não parecia ser muito difícil.

O Cleber foi meu navegador nesta jornada. Colocamos capacete, apertamos o cinto e, com o ar condicionado providencialmente ligado, deixamos o pit-lane e enfim começávamos ali o tão esperado Fun Day. Ao todo, seriam 10 minutos de aquecimento e reconhecimento da pista e outros 30 valendo para a contagem dos pontos da regularidade no GPS. Não conhecia o traçado nem por vídeo game e só lembrava mesmo das voltas que tinha completado de carona com o Maluhy na sexta-feira. Mas agora era minha vez no volante, era bem diferente. Então não podia disfarçar que o começo foi um pouco tenso.

Planilha dos PCs do Mitsubishi Fun Day (Foto: Fernando Silva/Grande Prêmio)

O limite de velocidade estipulado pela planilha era de 120 km/h na reta. Parecia ser algo tranquilo para cumprir, no começo estava bem cauteloso. O Bernuci me dava uns indicativos de como usar a tangência das curvas, a passar por cima das zebras, coisas do tipo. Técnicas de pilotagem que eu não tinha lá muita ideia, já que, confesso, jamais sequer guiei um kart. Carros de rua, sim, obviamente, mas não é nem de longe a mesma coisa que acelerar num autódromo, ainda mais como o de Goiânia. Trata-se de um circuito bem seletivo, formado por uma longa reta, uma curva de raio longo logo depois, e um misto de curvas de baixa e alta velocidade, incluindo a última delas, que dá acesso à reta dos boxes. É um baita traçado, aliás.

A tensão ficou ainda maior quando foi acenada a bandeira quadriculada que, na verdade, sinalizava o começo do Fun Day propriamente dito, os 30 minutos pra valer. Apesar de ser competitivo, não estava muito preocupado com a regularidade, confesso, mas sim em cumprir a prova da melhor forma, explorar bem a capacidade do carro e também curtir a pista. Enfim, queria mesmo era me divertir. E com o passar das voltas, a tensão foi dando lugar ao prazer de guiar. E assim foi.

Acho que a cada volta que completava, me sentia mais seguro guiando o carro. O ASX é muito estável, então, o medo que tinha antes de escapar e rodar — e, pior ainda, causar um prejuízo enorme — foi ficando para trás porque o modelo realmente oferecia uma segurança incrível. Mesmo nas curvas, onde tinha de lidar mais e melhor com o ‘freia-acelera’, o controle de tração tratou de equilibrar as coisas, o que foi muito legal.

Não era propriamente uma corrida contra os outros tantos pilotos que estavam ali na pista naquele momento, mas ainda conseguimos ‘brincar’ bem, fizemos muitas ultrapassagens, mas sempre de forma segura e respeitando todo mundo. A cara tensa e preocupada do início do Fun Day deu lugar a muitos sorrisos quando já se aproximava o fim dos 30 minutos de prova. Tão bom, tão bom que o tempo de prova passou muito rápido. Terminado tudo, o Cleber elogiou a forma como me portei na pista e como soube lidar com tudo mesmo tendo quase zero de experiência em autódromo/kartódromo. Então o saldo foi bem positivo.

Praticamente chegava ao fim a jornada naquele dia em Goiânia. Tinha cumprido as pautas previstas e restava apenas acompanhar a premiação dos melhores do dia. Como esqueci por completo a competição do Fun Day, já que sabia que tinha passado o limite de velocidade e tempo, nem fui ver o resultado. Valeu pela diversão. E ainda tive a satisfação de encontrar e bater um belo papo com a Amanda Roldan, outra grande amiga que a profissão me brindou e que estava lá para disputar a etapa do Motorsports com sua mãe.

Ao me dirigir à saída do autódromo rumo ao hotel, só pude pensar na satisfação e no bom sentimento de dever cumprido naquele momento. E, principalmente, por ter reencontrado tanta gente boa e por ter me curtido tudo ao máximo. Agradeço à Mitsubishi pelo convite e ao GRANDE PRÊMIO pela chance de acompanhar tudo de perto e curtir cada segundo. Foi um dia pra lá de divertido. Definitivamente, valeu a pena demais.

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