Motociclismo

‘As pioneiras’: Ana Carrasco – a primeira mulher a se tornar campeã mundial de motociclismo

No capítulo desta quarta-feira (6) da série ‘Pioneiras’, o GRANDE PRÊMIO traz uma entrevista com Ana Carrasco, a espanhola que fez história ao se tornar a primeira mulher a vencer um campeonato solo da FIM (Federação Internacional de Motociclismo)

Warm Up / JULIANA TESSER, de São Paulo
Aos 21 anos, Ana Carrasco já é dona de um importante capítulo na história do esporte a motor. Na temporada 2018, a espanhola de Múrcia se tornou a primeira mulher a vencer um campeonato solo da FIM (Federação Internacional de Motociclismo) ― antes da #2, Kirsi Kainulainen tinha conquistado um título mundial como passageira em um sidecar guiado por Pekka Paivarinta ― ao conquistar o título do Mundial de Supersport 300, uma das categorias do Mundial de Superbike.
 
Ana começou a carreira no esporte em 2011. Depois de somar seus primeiros pontos no Campeonato Espanhol de Velocidade, na categoria 125cc, Carrasco chegou ao Mundial de Moto3 em 2013. Nos três anos em que passou na categoria, a espanhola conseguiu como melhor resultado um nono lugar no GP da Comunidade Valenciana de 2013, ano em que também teve sua melhor performance no campeonato, com nove pontos.
 
A mudança para o Mundial de Supersport 300 veio em 2017, quando Ana conquistou sua primeira vitória na categoria ― na etapa de Portugal. No ano seguinte, a pilota da DS Junior foi ainda mais longe. No total, foram duas vitórias e duas poles em um 2018 que reservou lá seus desafios, inclusive na corrida final, quando a conquista do título veio apenas com um ponto de margem para Mika Pérez.
Ana Carrasco foi a primeira mulher a vencer um Mundial da FIM (Foto: WSBK)
Em entrevista ao GRANDE PRÊMIO, para a série ‘Pioneiras’, Carrasco afirmou que a conquista do título foi a realização de um sonho, mas não deixou de agradecer aqueles que a ajudaram na caminhada.
 
“Eu me sinto realmente bem. Ser campeã mundial era um sonho da minha vida, então estou feliz por ter conseguido”, disse Ana. “Também sou muito grata à Kawasaki, todo o time e todas as pessoas que me ajudaram ao longo do ano para chegar aqui”, seguiu.
 
Ainda, Ana contou ao GP que foi pega de surpresa com a reação mundial ao título. A espanhola foi parabenizada por inúmeros atletas, não só das duas rodas.
 
“Eu esperava ter um impacto grande, porque eu já tinha sentido isso com a minha primeira vitória no campeonato mundial, em Portugal, em 2017, mas eu nunca imaginei que atingiria níveis como esses”, contou.
 
Mesmo sendo uma desbravadora em um universo dominado por homens, Ana entende que todos os pilotos têm um caminho difícil rumo ao Mundial, independente do sexo.
 
“Acho que, normalmente, todo piloto tem uma história diferente, com muitas dificuldades, então eu não sei se o meu caminho até aqui foi mais difícil do que o deles ou não”, disse Ana ao GP. “Com certeza, não foi fácil, passei por muitos momentos e situações difíceis, mas eu sempre acreditei que o meu momento certamente chegaria”, frisou.
 
“Para mim, o mais difícil sempre foi encontrar pessoas que acreditassem que eu podia vencer, então foi difícil encontrar uma boa oportunidade com um bom time e uma boa moto”, relatou. “Acho que isso mudou muito depois da minha primeira vitória, em Portugal, porque muitas pessoas viram que eu podia lutar pelo campeonato se tivesse um bom apoio”, avaliou.
 
Questionada pelo GRANDE PRÊMIO se o fato de ser mulher acarretou em maiores dificuldades, Ana respondeu: “Eu não sei. Como eu disse antes, cada piloto tem uma história diferente e acho que não é fácil para ninguém chegar ao Mundial e ter boas oportunidades. Para mim, foi difícil encontrar apoio para lutar por bons resultados”.
 
Mas foi, justamente, esse apoio que facilitou o caminho de Carrasco até o título no campeonato passado.
 
“Muitas pessoas me apoiaram na temporada passada. O time, com certeza, foi uma das partes mais importantes do ano, mas também muitas pessoas que estavam trabalhando comigo todos os dias para me preparar para a temporada”, contou. “Sou muito grata a todas as pessoas, porque, sem elas, não teria sido possível”, declarou.
Ana Carrasco também esteve no Mundial de Moto3 (Foto: LaGlisse)
Pioneira no mundo das duas rodas, Ana entende que sua conquista pode ajudar a abrir caminho para outras jovens pilotas que queiram ingressar no esporte.
 
“Acho que este foi um bom passo para todas as atletas femininas nas corridas de moto e eu espero que depois disso, seja mais fácil para as garotas que vierem depois de mim, com mais apoio e mais oportunidades competitivas”, afirmou.
 
Perguntada sobre qual conselho daria para meninas que sonham em fazer carreira em duas rodas, Ana avaliou que o mais importante é “curtir o esporte”.
 
“Eu sempre digo a mesma coisa: para mim, o mais importante é curtir o esporte, sem perder de vista a meta, trabalhar duro e sempre acreditar”, orientou. “Mas curtir o caminho é sempre mais importante. Se você curtir o que faz, as coisas chegam mais cedo e de uma maneira mais fácil”, ponderou.
 
Depois de provar que homens e mulheres podem competir em condições de igualdade, Carrasco avaliou que “não é necessário” criar uma série exclusivamente feminina, basta fomentar a base para facilitar o acesso das meninas ao esporte.
 
“Acho que não é necessário”, opinou. “Nós provamos que uma mulher pode vencer neste esporte lutando contra homens, então a única coisa que temos de fazer é ajudar e apoiar mais meninas e dar a elas a oportunidade de mostrar o potencial delas”, defendeu.
 
“Acho que o mais importante é trabalhar com a base, com meninas jovens. Também é necessário poder sempre manter uma pilota no Mundial para que possam ter uma referência e alguém para seguir. Assim, a meta para essas meninas e suas famílias seria mais realista e a base cresceria”, aconselhou.
 
O feito de Carrasco em 2018 foi tão expressivo que a espanhola acabou indicada ao Prêmio Laureus, o chamado ‘Oscar do Esporte’. A pilota concorreu com a jamaicana Briana Williams, do atletismo, o ciclista galês Geraint Thomas, com o norueguês Jakob Ingebrigtsen, do atletismo, a esquiadora italiana Sofia Goggia e a tenista japonesa Naomi Osaka, que levou o título.
 
Carrasco compareceu à festa de premiação, mas sequer preparou um discurso para o caso de ser a escolhida.
Ana Carrasco defendeu a DS Junior em 2018 (Foto: DS Junior)
“O simples fato de ser indicada já era um prêmio. Eu jamais teria imaginado que seria indicada entre os melhores atletas do mundo, então, vencer ou não, não era a coisa mais importante”, falou Ana ao GP. “Se eu tivesse vencido, teria simplesmente agradecido todas as pessoas que me apoiam todos os dias”, contou.
 
Para 2019, Ana troca a DS Junior pela Provec. A equipe, que opera o esforço da Kawasaki no Mundial de Superbike, montou um time sob medida para ela. 
 
“A principal meta, com certeza, é tentar lutar pelo título outra vez. Acho que com a Provec e a Kawasaki, eu tenho uma boa oportunidade de fazer isso”, comentou. “Para mim, o importante é pensar em cada corrida. Se fizermos um bom trabalho a cada corrida, podemos chegar ao fim do campeonato com chances de vencer. Vencer o campeonato é consequência de fazer um bom trabalho ao longo do ano”, resumiu.
 
Por fim, ao ser questionada sobre os próximos sonhos no esporte, Carrasco contou que espera competir contra os melhores do mundo, seja no Mundial de Superbike, seja na MotoGP.
 
“No momento, eu me sinto realmente bem no Mundial de Superbike. Eu gosto muito deste campeonato e eu também me sinto em casa com a Provec e a Kawasaki, então, no momento, a minha mente está no Mundial de Superbike. Eu gostaria de continuar melhorando e crescendo dentro do campeonato”, revelou. “Minha meta para o futuro é poder um dia correr conta os melhores pilotos do mundo na divisão principal do Mundial de Superbike ou na MotoGP”, concluiu.