Diário de um cancelamento: o passo a passo do coronavírus na MotoGP

Chefão da MotoGP, Carmelo Ezpeleta explicou as alternativas elaboradas para tentar assegurar a realização da corrida no Catar. O dirigente sublinhou que a prioridade é fazer o máximo dos GPs possível

A MotoGP elaborou uma série de planos alternativos para tentar garantir a realização do GP do Catar. No entanto, a mudança no controle de fronteira do país acabou sendo determinante para o cancelamento da prova da classe rainha ― os pilotos e equipes de Moto3 e Moto2 já estavam em Losail por conta da pré-temporada e, assim, não correr normalmente neste fim de semana.
 
Originalmente, o Mundial de Motovelocidade iniciaria a temporada 2020 neste fim de semana em Losail, mas a prova da classe principal teve de ser cancelada após o Catar determinar que cidadãos italianos e todos que passaram pela Itália nas últimas semanas cumpram um período de 14 dias de quarentena.
 
No fim do mês passado, Ezpeleta tinha admitido a preocupação com o GP da Tailândia ― que acabou sendo transferido para outubro ―, mas se mostrou seguro da realização da corrida em Losail. A situação mudou, porém, com o ‘boom’ de casos na Itália.
 
A Itália já conta com mais de 3 mil casos de COVID-19, especialmente na região norte do país. No entanto, 19 das 20 regiões do país já registraram casos. No total, são 107 mortes no país, que registra a epidemia mais séria da Europa.
Carmelo Ezpeleta (Foto: Divulgação/MotoGP)
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GRANDES PROMESSAS QUE NÃO VINGARAM

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Em uma coletiva de imprensa em Losail nesta quinta-feira (5), Ezpeleta explicou que a organização do campeonato considerou uma série de possibilidades, mas acabou tendo de cancelar a prova. 
 
“Quando isso começou, e é uma coisa que muda dia após dia, nós tentamos nos acomodar em acordo com todas as pessoas do paddock para tentar fazer o máximo que podíamos. Durante o último sábado, nós começamos a ver alguns problemas para que algumas nacionalidades viessem ao Catar. Aí nós começamos a tratar disso”, relatou o dirigente. “Primeiro, nós tivemos muita sorte com o fato de o teste de Moto3 e Moto2 ter acontecido na semana anterior, já que todos estavam aqui, então ficou muito fácil para fazermos as duas corridas que faremos aqui. Desde o início, nós decidimos com o Circuito Internacional de Losail, com a Federação do Catar e com o governo do Catar fazer as corridas de Moto3 e Moto2 e a Talent Cup da Ásia também. Além disso, nós fomos discutindo um dia após o outro”, seguiu. 
 
“Nós discutimos diferentes possibilidades. Até a manhã de domingo, estava tudo mais ou menos ok, muitas pessoas vindo, especialmente da Itália, estava chegando a Doha sem problemas, mas aí, de repente, em meados do dia, mudou, pois a situação da Europa estava mudando dramaticamente a situação aqui. Quando eles organizaram os italianos ou as pessoas vindas da Itália para fazerem uma quarentena aqui no Catar, obviamente isso é difícil e não podemos fazer. Nós começamos a pensar em outras possibilidades”, detalhou. 
 
A MotoGP, então, pensou em organizar um voo fretado para levar um número mínimo de pessoas para o Catar, mas, apesar de ter conseguido um acordo entre as fábricas para que todos tivessem um número igual de integrantes, também não teve condição de tocar esse plano alternativo. 
 
“Nós tentamos fazer isso e, durante a tarde de sábado, nós quase concordamos com isso. Todos viriam muito cedo, pois seriam liberados para entrar no Catar. Mas, repito, de repente, no começo da tarde de domingo um voo vindo de Roma foi proibido de entrar aqui não apenas para a nacionalidade italiana, mas para pessoas vindas de Roma. Deram a possibilidade de voltar à Itália ou fazer uma quarentena de 14 dias. Obviamente, nenhuma das possibilidades era boa para nós”, falou. “Aí, nós estávamos tentando organizar um voo especialmente de Nice para cá e aí aceitar algumas exigências para a comunidade da MotoGP, como mecânicos, engenheiros ou pilotos, para ficaram alocados em um lugar e virem para cá apenas para a corrida e voltar, mas também isso, na tarde de domingo, vimos que não era possível”, continuou.
 
O chefão da MotoGP explicou, também, que não tem como fazer muitas previsões, já que a situação vai mudando com o passar dos dias. 
 
“Essa é a situação no momento. O que vai acontecer no futuro? Isso é algo que não podemos prever. Depende de cada dia. E a cada dia a situação muda ao redor do mundo”, ponderou. “A única coisa que posso dizer é que vamos tentar fazer todo o possível: adiar ou fazer o que quer que seja. A nossa meta hoje é trabalhamos juntos, como fizemos todo este tempo, para tentar fazer o campeonato na melhor condição possível, mas tentar manter o campeonato e o número máximo de corridas que pudermos. Nós estamos preparados para fazer isso”, assegurou. 
 
Ainda, Carmelo revelou que a Dorna cogitou a possibilidade de adiar a corrida nos Estados Unidos, invertendo com uma das provas da Espanha, mas o tempo tornou essa transferência inviável. 
 
“Nós temos muitas possibilidades e estamos considerando tudo, mas a meta principal da FIM, da IRTA e da Dorna é manter o campeonato. Isso precisa ficar claro”, frisou.
 
Na prova deste fim de semana, as arquibancadas poderão ter público, mas o acesso ao paddock foi limitado. Ainda assim, Ezpeleta garantiu que trabalha com a possibilidade de algum caso de coronavírus surgir entre os integrantes do campeonato. 
 
“O primeiro artigo que temos em qualquer contrato com os promotores é que precisamos respeitar as leis do país. Se uma lei está em vigor, não podemos fazer nada”, declarou. “Nossa meta, e espero esclarecer tudo com isso, FIM, IRTA e Dorna, é manter o campeonato com o número máximo de corridas. O resto, tomamos medidas aqui que foram feitas junto com o circuito de Losail, em relação à presença de espectadores no paddock, em relação à possibilidade de algo acontecer, pois pode acontecer de ter algum caso na comunidade da MotoGP ou algo assim, nós estamos preparando equipamentos especiais para fazer isso. Nós também adotamos alguns tipos de medidas com os times de Moto3 e Moto2 para permitir que a situação melhore. Nós temos as autoridades locais, as autoridades da Organização Mundial da Saúde e tudo mais todas conectadas para tentar fazer o máximo, mas o principal interesse do nosso lado é dizer a todos que queremos fazer os GPs e nós podemos fazer. Obviamente, não será um campeonato normal e talvez tenhamos de mudar algumas coisas, mas queremos frisar duas coisas: o lado esportivo tem de ser igual para todo mundo e, segundo, vamos tentar nos acomodar à situação. Isso está muito claro”, insistiu.
 
Porteira fechada
 
O chefão da MotoGP salientou que a prioridade é fazer as corridas acontecerem e, por isso, é possível que alguma etapa aconteça de portões fechados.
 
“Tudo é possível. O mais importante para nós é ter uma solução para tudo. A Dorna, em seu acordo com a FIM e a IRTA, é uma companhia que organiza corridas. Essa é a nossa obrigação. Apesar de qualquer outra coisa. Para nós, o mais importante, mais do que a questão econômica ou o que quer que seja, é fazer corridas”, comentou. “E eu garanto que, com a colaboração de todas as pessoas da IRTA, dos chefes de MotoGP, Moto2 e Moto3, nós vamos tentar fazer o máximo de corridas que pudermos. Não vou dizer agora que estou otimista, mas a única coisa que prometo é que vamos trabalhar duro para qualquer solução que aconteça para fazer as corridas. As 19 corridas restantes”, ressaltou. 
 
Nova chance para o Catar?
 
Com o GP do Catar desfalcado neste fim de semana, Ezpeleta deixou em aberto a possibilidade de realizar a corrida no futuro, mas ressaltou que Losail vai passar por obras de drenagem, o que dificulta este reagendamento. 
 
“A corrida do Catar da MotoGP está cancelada. Isso está claro. E todos eles ― MotoGP, Moto2 e Moto3 ― vão receber, pois eles já gastaram o dinheiro para vir para cá. A corrida da MotoGP está cancelada, pois não teremos oportunidades, também porque o Catar está comprometido com trabalhos de drenagem e tudo mais para o próximo ano e eles precisam começar, pois já contrataram o trabalho”, justificou. “Se, no final da temporada, existir a possibilidade, veremos. Hoje, a situação é que teremos Moto2 e Moto3 neste fim de semana e, a principio, a corrida da MotoGP no Catar está cancelada. Mas, como eu disse, qualquer coisa pode acontecer e todas as possibilidades serão contempladas”, garantiu. 
 
“Qualquer mudança, será possível apenas se todos concordarem. Mas, pela minha conversa com todos os times, todos querem fazer o máximo de corridas que pudermos. Nas mesmas condições iguais para todo mundo”, contou.
 
Exames prévios
 
Também, Ezpeleta explicou que a MotoGP também considera a possibilidade de submeter os integrantes do campeonato a exames preventivos para atestar a ausência de vírus, mas, ao menos até aqui, esta não foi uma opção viável. 
 
“Nós seguimos o que o Ministério da Saúde do Catar decidiu e eles disseram que não era possível. Mas, claro, nós contemplamos uma das situações para o futuro de oferecer a possibilidade de fazer um teste nas pessoas com antecedência”, afirmou. “Obviamente, não é possível manter todas as pessoas que vêm da Itália 14 dias em quarentena juntos. Nós achamos que existem outras possibilidades. E, lembrem, que neste caso especial, nós só tivemos problemas com a MotoGP, mas, a partir de agora, são muito mais pessoas em Moto2 e Moto3 que vem da Itália ou de outras comunidades possivelmente banidas. Precisamos considerar o número mínimo para fazer as corridas de Moto2, Moto3 e MotoGP, que é mais de mil pessoas”, destacou.
 
Mais problemas
 
Apesar do cancelamento, a MotoGP não ficou sem trabalho em Losail. Como testou no circuito catari no fim de fevereiro, a classe rainha deixou os boxes montados, com as motos preparadas para o fim de semana. Mas, sem a corrida, foi preciso desmontar tudo e despachar.
 
No entanto, as restrições de entrada no país dificultaram esse processo. De acordo com o site espanhol ‘Motorsport.com’, a Ducati conseguiu enviar poucos funcionários para desmontar tudo.
 
Ao fim do teste, algumas equipes decidiram manter funcionários no Catar, especialmente por terem sido alertados de que japoneses poderiam não ser liberados para voltar uma vez que deixassem o país. A Suzuki, por exemplo, manteve integrantes por lá.
 
Equipes italianas como Pramac e Aprilia e, especialmente, Ducati, porém, tiveram problemas. O time de Borgo Panigale, de acordo com a publicação espanhola, não deixou ninguém em Losail.
 
Assim, a Ducati acabou enviando apenas três pessoas para o desmonte dos equipamentos: os espanhóis Artur Vilalta, o assessor de imprensa, e Pedro Crespo, mecânico de Andrea Dovizioso, e o croata Kreso Prsa, assistente do #4.
 
A Aprilia tinha deixado um italiano no Catar e ele ganhou a companhia de outros cinco espanhóis para embalar os equipamentos. No caso da Pramac, o coordenador do time, Félix Rodríguez, foi ajudado por outros dois espanhóis.
 

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