Ducati busca milagreiro, mas mostra impaciência para aguardar milagre

É justo que a Ducati explore suas opções para tentar recuperar o título da MotoGP, mas a rotineira troca de pilotos mostra que a impaciência pode colocar em risco o projeto vencedor

A Ducati precisa, urgentemente, desapegar de Casey Stoner. É bem verdade que o australiano escreveu o capítulo mais importante da história da marca, mas 1) aqueles eram outros tempos, 2) um talento como o do #27 não se acha em qualquer lugar, e 3) 2007 foi um ano onde a casa de Bolonha não só acertou a mão com a Desmosedici, mas também contou com o alinhamento dos astros. É bem improvável que a situação volte a se repetir, especialmente sem uma grande mudança de regulamento. Assim, paciência é a ordem do dia na MotoGP.
 
Nesta quarta-feira (27), o time de Borgo Panigale anunciou a contração de Jack Miller para a temporada 2021, com a opção de o contrato ser renovado para 2022. Ora, se a Ducati tem tanta certeza de que Jack é o homem ideal para levá-la de volta ao olimpo, por que não manter o padrão tradicional da MotoGP e fazer um acordo bianual?
 
Desde o desastre do projeto com Valentino Rossi, a Ducati trabalhou duro para se reconstruir. Sob o comando de Gigi Dall’Igna, a fábrica italiana transformou a Desmosedici, que é hoje uma moto bastante mais competitiva. Nos últimos três anos, Andrea Dovizioso deu à Ducati o segundo lugar no Mundial de Pilotos, o vice entre os Construtores em 2018 e entre as Equipes nos últimos dois anos.
A evolução e as mudanças da Ducati são claras de 2013 para cá (Arte: Grande Prêmio)
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Sendo assim, é claro que a Ducati precisa de algo mais para bater Marc Márquez, que conquistou todos os títulos, exceto o de 2015, desde que entrou na MotoGP. Mas, para isso, é preciso um pouco de paciência. 
 
De 2013 para cá, apenas Dovizioso permaneceu intacto no time. Em oito temporadas ― contando aí 2020 ―, o #4 teve nada menos do que cinco companheiros diferentes: Nicky Hayden, Cal Crutchlow, Andrea Iannone, Jorge Lorenzo e Danilo Petrucci. Com exceção do norte-americano, que chegou ao time em 2009, os outros não passaram de dois anos. O futuro de Danilo ainda é incerto, mas é pouco provável que ele seja escolhido no lugar de Dovizioso.
 
Em uma entrevista recente, Crutchlow revelou que deixou a Ducati, pois a fábrica já tinha contratado Iannone. Só que ele deixou o time no meio do vínculo contratual. Ou seja, a casa de Bolonha decidiu substituir o britânico cedo, sem que ele tivesse a chance de se habituar ao protótipo, já que vinha da Yamaha. E, tudo bem, ele também não estava lá muito satisfeito com a Desmosedici, mas, mais para frente, esse ponto vai ficar mais claro.
 
Iannone é um caso a parte. Afinal, fez lá umas lambanças no time. Ainda assim, Andrea perdeu a vaga por conta da contratação de Lorenzo. A Ducati ficou entre o #29 e Dovizioso e, no fim, acabou optando pelo mais experiente dos italianos.
 
Mas, com Lorenzo, é evidente a impaciência. Diretor-executivo do time, Claudio Domenicali não se furtou em criticar publicamente o espanhol. Uma e outra vez. 
 
É verdade que Jorge demorou um pouco mais que o esperado para se adaptar à Desmosecidi, mas, quando o fez, o clima já tinha desandado. 
 
Com o currículo que tem, Lorenzo merecia um pouco mais de crédito. Se fosse mais paciente, a Ducati poderia ter sido bem sucedida no confronto com Márquez em 2019 e, talvez, só talvez, Jorge não tivesse pendurado o capacete. É sempre bom lembrar que ― polêmicas a parte ―, Jorge foi o único a vencer um campeonato que contou com a participação de Marc.
 
Com Petrucci, de novo a impaciência. Danilo chegou com contrato de um ano, mas acabou tendo o vínculo renovado no ano passado. O italiano conseguiu a primeira vitória no GP da Itália de 2019, mas não teve uma temporada regular. Oscilou bastante, mas, mesmo assim, terminou a temporada à frente de Miller na classificação. 
 
2020 deveria ser um ano decisivo na escolha da Ducati, mas a pandemia do novo coronavírus forçou o adiamento das corridas e, assim, uma escolha cega de Bolonha.
 
É fato que Jack evoluiu no ano passado e também inconteste que ele está preparado para voos mais altos. Mas a carreira dele, que subiu prematuramente direto da Moto3 para a MotoGP pelas mãos da Honda, também teve seus momentos de oscilação. Não é como se fosse claramente uma escolha melhor do que Danilo.
 
Paralelamente a isso, a Ducati ainda não renovou o contrato de Dovizioso. Por quê? Andrea não conquistou o título, é verdade. Mas foi quem mais se aproximou de Márquez nos últimos três anos. Falta algo? Falta. Isso significa que a casa de Bolonha deve se livrar do italiano?
 
Recentemente, a Red Bull produziu um documentário sobre Dovizioso ― ‘Andrea Dovizioso: Undaunted’ ― e é justamente de lá que vem a evidência. O vídeo mostra claramente o descontentamento da fábrica com a postura do piloto. O #4 é reconhecido justamente por seu lado mais cerebral, mas os italianos esperam alguém mais impulsivo.
 
Jack talvez encaixe mais no perfil impulsivo que a Ducati busca. Mas, de novo, ela ofereceu a ele um contrato de um ano com a opção de mais um. Ou seja, ela também não está assim confiante de que ele seja ‘O’ cara.
 
O Mundial de Motovelocidade é repleto de talentos. Mas nem todos são como Márquez ou Stoner. Nem sempre os astros vão alinhar para que a fábrica italiana tenha o piloto certo, com a moto certa, no momento certo. Às vezes, é preciso construir o momento apropriado. Mas isso leva tempo. Isso exige paciência.
 
A Ducati quer um milagre. Mas não tem paciência de esperar acontecer. 
 

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