Silverstone gasta dinheiro com recape mal feito e cria problema de segurança para MotoGP

Recape que visava assegurar permanência da MotoGP em Silverstone acabou por criar um problema de segurança ainda maior. Excesso de ondulações aumentou risco na chuva, forçando o Mundial de Motovelocidade a alterar o cronograma das corridas de domingo

Já ouviu falar em um tiro que saiu pela culatra? Bom, foi exatamente isso que aconteceu com o recape de Silverstone. 
 
A pedido da MotoGP, os responsáveis pela pista de Northamptonshire fizeram um reasfaltamento total da pista britânica, mas, embora o novo asfalto tenha oferecido mais aderência, o volume de ondulações aumentou consideravelmente em comparação com a superfície anterior.
 
E primeiro sinal de alerta aconteceu ainda em julho, durante a passagem da F1 por Silverstone. Na ocasião, Carlos Sainz Jr. chegou a dizer que lamentava pelos pilotos da MotoGP, já que a pista estava “tão ondulada ou até mais do que no ano passado”. 
 
“Lamento pelos caras da MotoGP que pediram por essa mudança e, provavelmente, não terão o que gostariam”, disse o piloto da Renault.
Chuva causou transtornos em Silverstone (Foto: Divulgação/MotoGP)
Tetracampeão da F1, Lewis Hamilton foi ainda mais incisivo em suas criticas e avaliou que o asfalto de Silverstone ficou pior do que o Nordschleife.
 
“As pessoas que eles contrataram fizeram o pior trabalho da história”, criticou o titular da Mercedes. “É a pista mais ondulada em que já andei. É mais ondulada do que Nordschleife, que tem cem anos. Está arrancando os olhos da cara”, seguiu.
 
“Fora isso, é fantástico, mas, Jesus, eles precisam contratar alguém melhor. Não sei como conseguiram fazer um trabalho tão ruim em asfaltar a pista”, completou.
 
No primeiro dia de atividades da MotoGP, os desníveis da pista não passaram despercebidos e Marc Márquez chegou, inclusive, a brincar que os responsáveis pela obra não deveriam ser pagos.
 
A situação, porém, piorou exponencialmente neste sábado, quando as ondulações causaram um efeito indesejado na combinação com a chuva. O acumulo de água nos desníveis do asfalto fizeram os pilotos aquaplanarem, causando quedas. Tito Rabat acabou levando a pior por conta de um acidente na Stowe, a sétima curva de Silverstone, no quarto treino livre
 
O piloto da Avintia estava na área de escape após uma queda ― com Álex Rins sinalizando desesperadamente os riscos para os colegas e as bandeiras vermelhas devidamente agitadas ― quando a Honda de Franco Morbidelli veio em sua direção. O #53 acabou atingido e teve múltiplas fraturas na perna direita. Tito foi sedado por conta da dor e transferido para um hospital em Coventry.
 
Vítima zero do ‘mar’ da Stowe, Álex Rins precisou se jogar da moto para evitar o impacto com o muro. Depois, mesmo tendo visto o risco da curva sete, o espanhol permaneceu na área de escape tentando alertar os demais.
 
“É a primeira vez que me atiro de uma moto a 170 km/h. O que me aconteceu hoje é incrível. Não tenho palavras para descrever”, comentou. “Quando saí dos boxes, já vi que tinha muita água na reta, quase um palmo, e achava que dariam bandeira vermelha. Vi que não deram e tratei de seguir para ver as minhas sensações no molhado. E, na volta seguinte, na metade da reta, cortei gás e, quando quis frear, vi que as rodas começavam a bloquear e que o muro estava cada vez mais próximo. Por isso, decidi me jogar com a moto em movimento”, justificou.
 
Rins, aliás, foi testemunha do acidente de Rabat e conta que ainda tentou alertar o #53.
 
“Eu vi Tito, mas ele estava de costas. Eu gritei para ele e gesticulei, mas ele não podia se mover. Eu via que Morbidelli também estava perdendo o controle, mas não pude evitar que a moto dele impactasse na perna de Rabat e lhe jogasse uns três metros mais para lá. Foi um impacto brutal”, contou.
 
As condições de pista no TL4 acionaram o alerta e a organização do Mundial acabou optando por modificar a programação para tentar fugir da chuva. Assim, a largada da MotoGP foi antecipada, mas isso não garante a segurança, já que a previsão é de chuva ao longo de todo o dia.
Álex Rins precisou se jogar a moto neste sábado (Foto: Suzuki)
Envolvido no acidente da Stowe, Franco Morbidelli classificou a situação no fim da reta do hangar como “o inferno”.
 
“O resto da pista estava quase seco, quando cheguei lá, era o inferno”, resumiu Morbidelli. “Aí eu simplesmente perdi a frente. Tinham bandeiras no local, mas eu não vi nada antes de chegar lá”, relatou.
 
Ileso do acidente, Morbidelli avaliou que vai ser muito arriscado correr em Silverstone com chuva.
 
“Se for como no TL4, é bem perigoso. Então temos de ver as condições nas curvas 7 e 8, pois, com a quantidade de água que tinha nesta tarde, não é possível”, opinou. “Nós estávamos com pneus de chuva, eu vi a parede de água e tentei reduzir a velocidade chegando lá, mas não tinha jeito de controlar a moto”, frisou.
 
Conhecido por seu espírito ~digamos~ aventureiro, Marc Márquez avaliou que é inviável correr em condições como as que marcaram o quatro treino livre.
 
“Eu amo correr, mas se as condições forem como aquelas amanhã, não podemos correr”, disse Márquez. “As ondulações são o problema. A água está dentro das ondulações e aí você tem aquaplanagem onde não espera. Não é que você tem a mesma quantidade de água em todas as áreas. Você chega e aí onde estão as ondulações tem mais água”, explicou.
 
“A aquaplanagem é muito perigosa. Eu quase caí e muitos pilotos caíram quase que um atrás do outro”, citou. “Dependendo da situação, a direção de prova precisa avaliar o que fazer, mas eles têm muita experiência e tenho certeza que vão tomar a melhor decisão”, apostou.
 
Mais experiente entre os pilotos do grid, Valentino Rossi ressaltou os problemas de drenagem do novo asfalto.
 
“Para mim, a aderência do asfalto no molhado não é tão ruim, o problema é que a pista não drena o suficiente, porque é muito nova”, apontou. “Se tem muita água, ela fica na superfície e causa aquaplanagem. Quando é assim, é muito perigoso”, resumiu.
 
Igualmente experiente, Dani Pedrosa também se mostrou preocupado com as condições.
 
“A previsão é de chuva constante, e isso pode ser um problema. Eu não estava na pista no fim do TL4 quando o problema de aquaplanagem apareceu, mas eu vi o que aconteceu e Marc disse que estava muito perigoso”, contou.
 
Sempre sucinto, Cal Crutchlow também não mediu palavras na hora de falar sobre as opções para domingo.
Tito Rabat sofreu fraturas na perna direita (Foto: Reprodução)
“Parece que pode ser um desastre, porque a previsão para hoje era de menos de 1 mm de chuva e para amanhã é de mais de 16 mm, então ou não temos o feriado e corremos aqui na segunda-feira ou nos vemos em Misano, porque vocês viram o que aconteceu assim que tinha uma superfície de água”, declarou Crutchlow.
 
Integrantes da primeira fila da MotoGP, Jorge Lorenzo, Andrea Dovizioso e Johann Zarco ― respectivamente, aliás ― avaliaram que existe, sim, a possibilidade de a corrida não acontecer, já que o volume de chuva deste sábado não era tão grande para causar tantos problemas.
 
“É um assunto importante para conversarmos, porque parece que, com o novo asfalto ― nós corremos aqui no passado com chuva, mas não era um problema tão grande naquela área ―, a situação é bem difícil, porque é o ponto em que chegamos com mais velocidade, não tem tanta brita, tanto espaço em caso de queda”, disse o #99. “Com chuva forte, acredito que existe um problema ali, já que a água não sai da pista, então, em caso de chuva, concordo em não competir, esperar e encontrar alguma solução”, frisou.
 
Companheiro de Ducati, Dovizioso criticou os responsáveis pelo serviço na pista e garantiu que é possível fazer um trabalho melhor.
 
“Nós temos de ver se a chuva será constante, se será pior do que hoje, porque hoje não choveu muito, mas foi o suficiente para criar um problema”, ponderou. “Acho que, às vezes ― já aconteceu também em algumas outras pistas ―, quando reasfaltam a pista, às vezes criam mais problemas do que antes. Eu não estou envolvido, então não quero falar de detalhes, porque não sei, mas, com certeza, existe a possibilidade de fazer isso de um jeito melhor”, defendeu. 
 
“Acho que quando alguém tem de gastar muito dinheiro, é melhor gastar um pouco mais e não ter esse tipo de problema. Se você reasfalta a pista toda e tem mais ondulações do que antes, alguma coisa aconteceu. Eu não sei o que, não sou o cara certo para falar sobre isso em detalhes, mas acho que isso não tem de acontecer, pois se foi reasfaltado e temos essa quantidade de problemas com aquaplanagem, isso é demais, porque a água hoje não era algo impossível. Isso é ruim”, salientou. “Em relação à corrida, com certeza teremos de decidir no momento. Veremos quanta água tem na pista, damos umas voltas e, com certeza, os pilotos vão decidir, como aconteceu no passado”, assegurou.
 
Zarco acompanhou Dovizioso e avaliou que uma chuva mais forte e constante do que a de hoje inviabilizaria a corrida.
Até Marc Márquez acha que vai ser perigoso correr em Silverstone na chuva (Foto: Honda)

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“Se estiver chovendo desde cedo, desde as 6h, e continuar chovendo, mesmo que não seja forte, mas constante, acho que não será possível correr, porque vai ter água demais na pista nesta área”, opinou. “Não sei se podemos… eu nunca corri na segunda-feira. É difícil dizer. Estava chovendo só tinha cinco, dez minutos, não sei, tinha uma grande nuvem carregada, e causou um problema muito, muito grande, então se tivermos chuva constante amanhã, acho que não vai ser possível”, insistiu.

 
A mudança de horário acaba por deixar Moto3 e Moto2 mais expostas a intempéries climáticas, algo que, claro, não agrada aos pilotos.
 
“Nós vamos correr o risco, pois, se a MotoGP começa primeiro e aí chegar uma chuva forte, nós vamos correr com a pista 100% molhada. Talvez possamos correr ou talvez não. Teremos de controlar a situação. No fim, é o mesmo para todo mundo”, disse Jorge Martín, dono da pole na Moto3.
 
“Com uma chuva como a de hoje, é impossível fazer a corrida, porque é muito, muito perigoso para nós. Mas, não sei, temos de ver a situação amanhã”, completou Francesco Bagnaia, que larga na frente na Moto2.

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