Rossi fornece máquina de lavar e macula imagem unindo VR46 e Arábia Saudita

Animação com a entrada definitiva da VR46 na classe rainha do Mundial de Motovelocidade é completamente diluída pela aliança com uma ditadura que está por trás do assassinato brutal de um jornalista

Marc Márquez acabou a corrida em Portimão cansado e emotivo (Vídeo: MotoGP)

A entrada da VR46 na MotoGP vai deixar uma mancha na imagem de Valentino Rossi. Por mais que o salto definitivo da equipe para a classe rainha seja um marco para o Mundial de Motovelocidade, não dá para ignorar que isso acontece por meio de uma aliança com uma ditadura como a da Arábia Saudita.

Nesta quarta-feira (28), coube a Tanal Entertainment Sport & Media, uma holding do príncipe Abdulaziz bin Abdullah Al Saud, confirmar o salto da VR46 em definitivo. Em contato com o GRANDE PRÊMIO, a equipe que hoje está na classe rainha abrigada pela Avintia confirmou que se trata de uma extensão do acordo vigente, que estampou a marca ‘KSA New Cities’ nas motos de Luca Marini, na MotoGP, e de Marco Bezzecchi e Celestino Vietti, na Moto2.

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Valentino Rossi construiu uma história de mais de 20 anos do Mundial de Motovelocidade (Foto: SRT)

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O que ainda é incerto é se o contrato com a Dorna, a promotora do Mundial de Motovelocidade já foi assinado. A equipe não soube dizer e a marca comandada por Alberto Tebaldi ainda não retornou o contato do GP. Mas isso não importa tanto assim. Afinal, Carmelo Ezpeleta, diretor-executivo da Dorna, já disse várias vezes que haveria um lugar para o time na hora em que Rossi assim o desejasse.

O que importa mesmo é que, mais uma vez, a imagem que fica é que o dinheiro vale mais do que direitos humanos, mais do que as liberdades civis. E isso não é verdade. Relembrando a análise de Van Jones, comentarista da CNN norte-americana, na ocasião de derrota de Donald Trump para Joe Biden na eleição dos Estados Unidos, “caráter importa, ser uma boa pessoa importa”.

Claro, a eleição nos EUA é bastante mais importante que um patrocínio esportivo, mas a frase vale mesmo assim. “Ser uma boa pessoa importa”.

A Arábia Saudita segue a vertente wahabista do islamismo, a forma mais rígida e conservadora do Islã. O wahabismo, aliás, é conhecido popularmente como a mãe de todos os movimentos fundamentalistas e o ‘pai ideológico’ do Estado Islâmico. A Arábia Saudita é, inclusive, acusada de ajudar voluntariamente a conseguir recrutas para o grupo terrorista ― o raio-x do país está no texto ‘Transformação que sai com água’, publicado pelo GRANDE PREMIUM.

Só que a Arábia Saudita está tentando se afastar desta imagem de terror. E usando o esporte para isso. Receber Fórmula E, Rali Dakar, Fórmula 1 e até a Supercopa da Espanha é reflexo de uma ação de ‘sportswashing’. Ao se aliar à ditadura dos Al Saud, Rossi fornece mais uma máquina de lavar para os sauditas.

Em 2018, a imagem do país deteriorou ainda mais após o brutal assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, que foi torturado, morto e desmembrado dentro do consulado saudita em Istambul, na Turquia. Documentos divulgados pela Casa Branca no início do ano indicam que a inteligência dos Estados Unidos concluiu que foi o príncipe Mohammed Bin Salman que ordenou a morte do colunista do The Washington Post.

É com esse tipo de gente que Rossi quer andar lado a lado? Em mais de 20 anos no Mundial de Motovelocidade, o italiano de Tavullia construiu uma imagem positiva e sólida. Ele pode até não ser o bom moço clássico, mas certamente é alguém atrelado à liberdade, alegria. Valentino não faz alarde de seus projetos de caridade, mas tampouco é segredo que ele doou dinheiro para ajudar a Itália a combater a pandemia de Covid-19 ou que é um dos que mais colabora com a Riders for Health, uma iniciativa que nasceu no paddock do Mundial para ajudar a transportar recursos médicos para comunidades isoladas da África.

Aos 42 anos, Valentino soma nove títulos mundiais, sete deles na classe rainha, e é um dos maiores nomes do motociclismo. Sendo assim, não é difícil concluir que ele não teria grandes dificuldades em achar uma empresa disposta a apoiar a aventura da VR46 na MotoGP. Até por que não estamos falando de uma equipe que acolhe jovens ricos e sem talento. Muito pelo contrário! Franco Morbidelli, embora nunca tenha vestido as cores da VR46, é cria da Academia. Francesco Bagnaia, hoje vice-líder da classe rainha, foi o primeiro campeão com a equipe. Ou seja, além de estar ligado a Rossi, qualquer patrocinador se beneficiaria da visibilidade oferecida por pilotos gabaritados.

Valentino não precisava aliar a VR46 aos sauditas. Rossi não precisava se juntar a um país que viola reiteradamente os direitos das mulheres. As mulheres na Arábia Saudita não podem viajar sem autorização de um homem. Até muito pouco tempo, não podiam sequer dirigir.

A Arábia Saudita está na contramão de grande parte dos avanços sociais da humanidade. No Dakar, os pilotos receberam uma espécie de guia de boas maneiras com orientação até para esconder tatuagens para não terem problemas em áreas mais conservadoras do país. Rossi, por exemplo, não seria lá muito bem visto por causa da fofa tatuagem de tartaruga que tem na barriga.

Tem quem diga que esporte e política pertencem a universos diferentes. Não é verdade. O esporte pode ― e deve ― se aliar a causas nobres. Como tem acontecido na NBA, por exemplo, onde os jogadores deram um apoio maciço à causa antirracista. No Brasil da década de 1980, a Democracia Corinthiana tinha como uma das principais bandeiras a luta pelo fim da ditadura militar.

Lewis Hamilton se tornou um símbolo no esporte a motor, não só por combater o racismo, mas por também ser alguém de quem as pessoas esperam mais. Tanto é assim que várias ONGs se uniram para pedir que o piloto da Mercedes se manifeste contra o GP da Arábia Saudita, que peça a liberdade das mulheres que foram presas por protestarem em prol do direito de dirigir.

Ao colocar a equipe para servir de máquina de lavar para a ditadura saudita, Rossi macula uma história de mais de 20 anos no Mundial de Motovelocidade. E ele não precisava disso.

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