Temporada virtual prova que as mulheres seguem ignoradas no automobilismo

Com raríssimas exceções aqui e ali, as milhares corridas virtuais, no Brasil e no exterior nos últimos meses, praticamente não tiveram a presença de mulheres no grid. A ausência somente reflete o quão vazio e hipócrita é o discurso da inclusão

A perspectiva de um segundo semestre intenso em razão da retomada das categorias do esporte a motor vai determinar o fim do protagonismo das corridas virtuais, que foram a grande válvula de escape para pilotos e também fãs do automobilismo nos primeiros meses deste incomum 2020. Foram milhares de provas de simulador, no Brasil e no exterior, muitas delas com a presença de competidores famosos e históricos. A chancela de categorias como Fórmula 1, Indy, Nascar, MotoGP e Fórmula E, por exemplo, deu ainda mais peso às provas virtuais, e até jogadores de futebol de renome foram chamados.

Mas há um ponto bastante negativo em meio a tudo isso e que somente reflete o quão machista segue sendo o esporte a motor em geral. Salvo raríssimas exceções — como nas 24 Horas de Le Mans virtuais, realizadas no último fim de semana —, praticamente nenhum grande evento virtual teve a participação de mulheres no grid.

Para ficar somente no exemplo da Fórmula 1, é triste constatar que as equipes chamaram várias personalidades que pouco ou nada têm a ver com o automobilismo. Jogadores de futebol como Sergio Aguero, Arthur Melo, Pierre-Emerick Aubameyang, Thibaut Courtois, Gianluigi Donnaruma, para citar somente alguns, disputaram corridas da chamada temporada virtual da F1, que também se encerrou no último domingo.

Campeã da W Series, Jamie Chadwick sequer teve a chance de guiar na F1 virtual pela Williams (Foto: LAT Photographic/Williams)

Luis Fonsi, cantor que ganhou o mundo com o hit ‘Despacito’, teve sua oportunidade para ‘brincar’, assim como nomes menos conhecidos como o youtuber Tiametmarduk e o esquiador Jon Olsson também aceleraram em alguma etapa da competição nos simuladores. Mas nenhuma mulher foi chamada pelas equipes para correr na F1 virtual. Uma vergonha.

Chama ainda mais a atenção que há equipes do grid com mulheres em seus quadros, como Tatiana Calderón na Alfa Romeo e Jamie Chadwick, campeã da W Series, na Williams. Outras tantas meninas, como Sophia Flörsch e Bruna Tomaselli, por exemplo, poderiam ter sido convidadas, mas foram solenemente ignoradas.

Para não ficar somente na Fórmula 1, vários organizadores de corridas virtuais se mostraram orgulhosos dos pilotos que conseguiram trazer para seus eventos. Gente do quilate de Fernando Alonso, Sebastian Vettel, Juan Pablo Montoya, Dario Franchitti, Mario Andretti, para ficar somente nos nomes mais vitoriosos. Até mesmo Esteban Gutiérrez, que Craque Neto tranquilamente chamaria de ‘pé de rato’ na F1, teve lá seus dias de protagonismo. Mas, de novo, nenhuma representante feminina na maioria esmagadora dos grids.

Fórmula 1 virtual
Teve piloto de categorias de base, jogador de futebol e até youtuber. Mas não teve uma mulher sequer na F1 virtual (Foto: Reprodução)

A única alternativa real de as mulheres competirem é a temporada virtual da própria W Series — que, na pista real, só vai voltar à ativa em 2021 —, que começou há 14 dias. E ainda que a categoria feminina seja criticada por separar as mulheres, esta foi justamente a responsável por fazer com que elas pudessem ter a chance real de disputar um campeonato virtual. O que é um alento para quem teve a temporada comprometida com a não-realização da competição de verdade neste ano.

O que é mais lamentável nisso tudo é que a cada 8 de março o discurso se repete: fala-se muito em inclusão, em luta para dar maior espaço para as mulheres mostrarem seu talento, no quanto é importante abrir a mente e as categorias para que elas possam competir não entre si, mas junto com os homens. Mas na primeira oportunidade para se fazer isso, sem as barreiras do automobilismo real como dinheiro e superlicença, as pilotas são completamente esquecidas.

Sobram palavras, falta ação. E assim caminha a mediocridade.

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