Da luta contra morte ao renascimento: Helena Soares coroa história de um milagre no Sertões

Helena Soares ficou entre a vida e a morte às vésperas do carnaval de 2018, quando sofreu uma ruptura da válvula mitral do coração. Os pulmões também foram afetados e resultaram em quatro meses de internação ininterrupta

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Muito mais do que a competição e a busca pela vitória por si só, o Sertões é um evento ímpar em razão das histórias que cercam a prova. Impossível não recordar a jornada de Helena Deyama e Josi Koerich, que sofreram com o incêndio que destruiu o carro durante uma especial do rali em 2009 e que receberam o surpreendente apoio do ‘príncipe’ Nasser Al-Attiyah, em ato que emocionou a todos naquela edição. Uma das grandes histórias de 2020 também envolve uma Helena, cujo significado é “reluzente”, ou “repleta de luz”. Mas, por muito pouco, a luz de Helena Soares não se apagou no começo de 2018.

Nome tradicional no Sertões, com nove participações no maior rali das Américas antes de 2020, Helena, que à época também era rainha de bateria da escola de samba Independente Tricolor, se preparava para o desfile daquele ano no Anhembi quando teve de ser internada às pressas com uma infecção urinária. Mas o diagnóstico foi muito mais grave: Soares sofreu uma ruptura da válvula mitral do coração, o que desencadeou também problemas no pulmão. Acostumada a uma vida de atleta, Helena se viu entre a vida e a morte.

“A minha recuperação foi muito lenta porque tive algumas complicações na cirurgia. Meu problema foi muito grave, tive uma ruptura de válvula mitral, e na época era muito bem condicionada, tinha um treinamento de atleta… O coração não deu sinais”, explicou a pilota em entrevista ao GRANDE PRÊMIO pouco depois do prólogo da última sexta-feira (30) no autódromo Velocitta, em Mogi Guaçu, interior de São Paulo.

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CLAUDIA GRANDI; HELENA SOARES; SERTÕES; SERTÕES 2020;
Claudia Grandi e Helena Soares celebram a vida e voltam ao Sertões em 2020 (Foto: Cadu Rolim/Shez)

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“Tive uma dor de estômago e, como qualquer outra, tomei um remédio e passou, mas o que causou a internação foi um edema pulmonar. Então, quando cheguei a ser internada, já estava num estágio muito avançado do edema”, recordou a competidora de 38 anos. O cenário, no fim das contas, era gravíssimo. “Fiquei na UTI entre a vida e a morte mesmo depois da cirurgia”.

Helena sofreu complicações de todo tipo como hemorragia, pneumonia, processos inflamatórios, falta de coagulação e ainda precisou de doação de sangue para se recuperar depois de ficar cerca de 20 dias na UTI. Ao todo, foram quatro meses ininterruptos de internação e outros quatro meses de uma jornada bastante lenta de recuperação. No aspecto financeiro, a pilota se viu sem opções a não ser vender o seu carro de rali para ajudar a pagar as despesas médicas.

Antes, em sua história no Sertões, Helena chegou a completar uma especial completamente desidratada porque todo o líquido disponível no carro foi usado para abastecer o radiador a cada 5 km, sob risco de o motor fundir. Depois, teve de encarar mais de 100 km com os dois ossos do braço fraturados para completar outra especial. Mas nada que se compare ao que Helena passou ao longo de 2018. Naquele ano, Helena Soares venceu o rali da vida.

A pilota voltou às pistas no ano passado na disputa das etapas da Mitsubishi Cup. Na sua categoria, Helena conseguiu bons resultados e foi ao pódio em todas as jornadas da prova. A competitividade estava lá e foi o que encorajou Soares a encarar o desafio maior: voltar ao Sertões em 2020.

O regresso ao Sertões foi oficializado com a inscrição feita ao lado de uma grande parceira: a navegadora Claudia Grandi. Mãe e avó, a copilota vai competir no maior rali das Américas pela primeira vez depois de enfrentar o luto em razão da perda do marido, Elson Meneses, também navegador.

Lado a lado novamente com Grandi, Helena completa a única dupla completamente feminina na competição dos carros em 2020 no Sertões depois de conseguir o patrocínio fundamental pouco antes da largada.

Definitivamente, eis uma dupla que tem a superação como marca de uma vida.

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CLAUDIA GRANDI; HELENA SOARES; SERTÕES; SERTÕES 2020;
Claudia Grandi e Helena Soares celebram a vida e voltam ao Sertões em 2020 (Foto: Cadu Rolim/Shez)

Rali novo, vida nova

Depois de lutar contra a morte, hoje Helena celebra a vida ciente de que, em meio a esse processo, muita coisa mudou.

“Não tem como passar por uma situação como eu passei sem passar por uma reflexão, sem passar por uma mudança, e essa mudança foi para melhor. É uma realização porque, não é que perdi a fé, mas achei que jamais iria competir. Então, é a história de um milagre, meu renascimento, estou fazendo o que mais amo na vida, que é competir, então, para mim, cada minuto aqui está sendo muito especial”, descreveu.

Hoje, o carnaval é uma página do passado para Helena, que se dedica à carreira de advogada, aos filhos João Rosate — também piloto, com passagem pela Stock Light —, Mayara e Luís Vinícius e também aos ralis.

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“Quando você passa por quatro meses de internação ininterrupta e outros quatro meses de várias idas e vindas, de muitas limitações, você aprende a esperar, a ser mais paciente, a ter mais fé. Venho atravessando uma trajetória desde o início por ser mulher, por ser uma das poucas mulheres, e também pela aparência, de ser musa… E sempre quis mostrar meu potencial como piloto. Hoje, claro, meus valores mudaram muito: quero ser reconhecida como a Helena do rali, a mãe do João Rosate, da Mayara, do Luís Vinícius, a mulher que pisa fundo”, contou.

Helena vai encarar seu primeiro Sertões depois de toda a sua luta para se recuperar com cuidados redobrados. Tudo por conta da pandemia do novo coronavírus. Mas a pilota reforça sua confiança na organização da prova e, principalmente, nos protocolos estabelecidos e que vão manter a caravana do rali em bolhas ao longo de todo o percurso desde o Velocitta, em Mogi Guaçu, até Barreirinhas, no Maranhão, o destino final da prova.

“Foi muito complicado porque sou uma possível paciente de risco. Segui o isolamento proposto pelas autoridades sanitárias, trabalhei em home-office o dia todo… Tive ansiedade, o que é natural, a gente fica um pouco tensa, mas todas as normas estão sendo seguidas, estamos no isolamento na bolha, todo mundo foi testado antes”, explicou.

“E a gente tem um chip, que delimita nossa locomoção nas bolhas. Eu me sinto segura porque vamos ser testados no decorrer de toda a prova, e tudo isso traz a questão de fé também. Tenho certeza que esse rali traz um propósito muito maior na minha vida”, disse, feliz, Helena.

E antes mesmo da largada neste sábado, a pilota já faz planos para 2022, quando o Sertões vai completar 30 anos de história e promete, além de um roteiro para cruzar o Brasil, ser o maior rali do mundo. “Espero fazer o rali histórico com ele, do Oiapoque ao Chuí, revezando entre piloto e navegador com ele”, concluiu a vitoriosa Helena Soares, pronta para acelerar no décimo Sertões da sua carreira.

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