Stock Car

Stock Car 2019 deve ter emoção até seu final. Mas pode premiar quem sequer vai ao pódio

A temporada 2019 da Stock Car tem, em seu regulamento, um 'segredo': é possível que o campeão não vença uma corrida sequer durante o ano - ou que ele nem vá ao pódio. Tudo isso por causa do aumento na pontuação da corrida 2. E enquanto aumenta a disputa pela glória, pode confundir o público

Grande Prêmio / FELIPE NORONHA, de São Paulo

A Stock Car tem uma situação curiosa: mesmo valendo mais pontos, a corrida 1 de suas rodadas duplas tem a festa mais moderada, com o champanhe sendo jogado para qualquer direção, menos a dos pilotos que dividem o pódio. Já a corrida 2, de pontuação diminuta em relação à que abre o dia, tem uma festa mais tradicional ao automobilismo, mesmo que com mais chances da presença de pilotos que não brigam pelo título.

Isso é claro, mas não estava na mente deste que escreve estas linhas ao entrevistar Gabriel Casagrande, piloto da Crown Racing, em Londrina, antes da pausa de seis semanas da categoria, que volta apenas no próximo dia 21 de julho. Mas, ao ouvir o piloto, a ideia desta análise surgiu.

Por quê? O tema da entrevista era sobre como Casagrande indica ser um dos pilotos que melhor entendeu o regulamento da Stock Car nesta temporada: que tem o fato de que não é necessário vencer (ou sequer ir ao pódio) para se manter com chances (e razoavelmente boas) de título.

Na temporada 2019, o vencedor da corrida 1 faz 30 pontos, enquanto o da 2 faz 24. A diferença diminui até a quinta posição, quando o da primeira faz 17 e o da segunda 16, e se iguala a partir da sexta colocação (15 pontos), se mantendo assim até o 20°. Ou seja: brigar pela pole, ou elaborar uma tática que coloque o piloto na frente da 1, pode desgastar o carro para finalizar o dia, enquanto outros podem jamais brigar por vitória, mas se manter no pelotão principal sem sequer forçar o carro no treino de classificação, já que há ‘grid invertido’.
Gabriel Casagrande (Foto: Bruno Terena/RF1)
Então as aspas de Casagrande (que estão abaixo) acabaram indicando que uma análise um pouco mais profunda era necessária. É o melhor jeito de se tocar o principal campeonato do automobilismo nacional?

“É um negócio que eu já coloquei como meta no início do ano, com meu engenheiro, que é quem decide o que a gente vai fazer nas corridas. Eu falei ‘cara, não me importo com pódio, com vitória, eu preciso fazer ponto. Eu preciso chegar no final do campeonato e estar bem’”, contou o #83 ao GRANDE PRÊMIO.

E isso faz sentido: mesmo sem pódios nem vitórias, Casagrande aparece em oitavo, com 77 pontos. Se os pilotos que estão acima não conseguirem pontuar bem na corrida 2 após vitórias ou idas ao pódio na primeira, o próprio Casagrande pode se aproximar dos líderes pela pontuação geral do dia (em que já houve casos em que ele foi o principal pontuador de uma etapa).

“No Velo Città eu tinha uma chance de ir ao pódio e abri mão, para preparar meu carro para ir bem nas duas corridas, é isso que a gente está priorizando. O pensamento é em pontos. Lógico que é legal,é bom para o patrocinador, mas é o pensamento desde o início do ano, a gente colocou como meta:  vamos fazer pontos, e não aparições esporádicas”, explicou.
Thiago Camilo (Foto: Duda Bairros/Vicar)
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Quem está na frente já sacou esta ‘pegadinha’ do regulamento. Líder do campeonato e dono de todas as quatro poles até o momento, Thiago Camilo já comentou ao GP como acha injusta a pontuação da atual temporada – mesmo com os 131 somados até aqui, ele sabe que poderia ser mais.

 O peso da corrida 2 não pode ser tão próximo do peso da corrida 1 por causa da inversão do grid. Não é justo que um piloto que chegue na décima posição - não é justo comigo ou qualquer outro, falo do regulamento como um todo, não pensando no que seria melhor para mim - largue na pole, tenha grande chance de vitória e some quase o mesmo número de pontos que o vencedor da primeira e quase igual ao segundo colocado, que teve muito mais trabalho para chegar ali na primeira bateria", disse ao GP.

“É um sistema que ainda precisa de adaptações, é um regulamento que precisa ser adaptado”, completou.

Casagrande segue o pensamento do líder – mesmo que venha jogando mais com o regulamento do que o próprio Camilo: “Eu acho que não é tão justo, porque você tem na maioria das vezes um cara que ganha a primeira corrida não conseguindo fazer a corrida 2. Já começou a partir de Goiânia uma forma de fazer a corrida 1: do terceiro para trás, o pessoal já começa a poupar.  Então os dois primeiros vão brigar pela corrida, e aí o pessoal de trás já começa a poupar para a segunda corrida.”
Carlos Col, promotor da Stock Car (Foto: Stock Car)
Ele cita que a Stock Car criou este sistema para que nenhuma das corridas fosse ignorada pelos pilotos, o que é verdade. Só que a própria direção do campeonato vê esse sistema como problemático. Carlos Col, o promotor da categoria, já falou que é contra o sistema implementado porque torna a compreensão por parte do público difícil.

Sou adepto de que a competição tenha o entendimento o mais fácil possível. Você não pode gostar de uma competição se você não estiver entendendo ela, ou se você tiver dificuldade em entendê-la", disse o dirigente.

É confuso e não é justo, mas é o que ocorre no momento. E, voltando ao parágrafo inicial, ainda faz com que a corrida 1, que vale mais, fique ofuscada: “A mídia está dando bastante importância para essa corrida 2. Eu acho que é um negócio natural, porque você tem duas corridas, é o cara que aguentou mais, só que o cara mais rápido, que teve um desempenho melhor, não está aparecendo nessa hora. Ficou um pouco injusto por causa disso.”

E assim a Stock Car seguirá até o final do ano, ao menos: com um sistema que não é o mais justo, mas que provavelmente vai garantir mais pilotos na briga pelo título. Com um sistema que não deixa claro ao espectador casual quem é o grande vencedor de uma etapa, mas que garante mais estratégias na pista. E com um sistema que pode dar ao público, ao final de tudo, um campeão que sequer subiu ao pódio durante o ano – por mais que isso ainda seja improvável. Ou seja: dificilmente ele será mantido para 2020. Quem entendeu como ser um grande estrategista para esta temporada tem uma janela, provavelmente, limitada para que a glória chegue – uma nova adaptação e novas ideias devem ser necessárias daqui alguns meses.

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