Verstappen paga para ver ‘nova’ Red Bull em 2026, mas voto de confiança cheira a ultimato
Max Verstappen foi convencido a ficar e continuar na Red Bull para a temporada 2026. A sensação, porém, é que o voto de confiança cheira a última chance para equipe mostrar que está nos trilhos
A Red Bull precisou rebolar com a desenvoltura dos dançarinos mais habilidosos do mambo internacional e cores mais vibrantes que as de Tony Manero para curtir os embalos de sábado à noite, mas conseguiu pintar o quadro que Max Verstappen queria ver. Com as oferendas entregues ao tetracampeão mundial para provar que falava sério quanto a manter a locomotiva nos trilhos das vitórias, agora tem de entregar o recibo de que entende qual caminho percorrer. É preciso mostrar que tem as regras da Fórmula 1 2026 no papo.
Verstappen tem contrato até 2028, um acordo assinado anos atrás e, conforme o público sabe agora, com diversas cláusulas de saída ano a ano. A possibilidade continua de abandonar o barco antes de chegar ao porto final põe a Red Bull num corner contínuo do ringue duma luta boxe em que não pode bater. Do outro lado, pudera, está o tetracampeão e todos os ovos de ouro que a marca de bebidas energéticas sempre sonhou em produzir na F1. Pode apenas apanhar ou esquivar. É a realidade na qual está para os próximos anos.
Talvez fosse impossível pensar nisso anos atrás, quando o contrato foi desenhado, mas a Red Bull não tem poder de barganha frente a Verstappen. A confiança por garantir Max ao lado se sobrepôs a qualquer preocupação quanto ao que o futuro pudesse assegurar. A equipe, afinal, viveu sem crises internas ao longo das duas décadas de trajetória da F1. Inebriada pela própria estabilidade, não imaginou que as crises, neste nível do esporte, estão sempre na esquina. O esporte rende poder aos envolvidos, e gente embebida pelas permissões que a vida empoderada e as fortunas nababescas lhe presenteiam são alvos mais fáceis de um dos maiores voos de Ícaro deste mundo: crer estar acima do bem e do mal.
A lição da perda de Sebastian Vettel estava ali. Vettel, outro tetracampeão, que conquistou o último caneco em 2014, mas um ano depois, desesperado com os problemas que a era híbrida oferecera a equipe que por tanto defendeu e fez, resolveu abandonar as asas da Red Bull pela rosa mais vermelha da Ferrari. Proteger-se em contrato talvez fosse a saída. Mas cabe outro questionamento: há como se proteger realmente de perder um talento colossal do naipe de Verstappen na F1? No fim das contas, a barganha cai do lado do piloto e daqueles prontos para recebê-lo. Todos os grandes campeões foram assim, em busca de quem tinha a glória para oferecer. Nenhum grande campeão, não importa o tamanho da história pela equipe que defende, estrebucha com ela sem tentar o choque de adrenalina da vida nova.

Assinar até 2028 era, no fim das contas, um atestado de fé. Em si mesma, na estabilidade invejável e tentar mostrar ao piloto que acreditava também nele. Quem sabe até contar com certa paciência no caso de um momento ruim com carros ou motores. O que a Red Bull não sabia era tinha previsão de tormenta alguns anos à frente. A presença de Christian Horner se tornou tóxica no começo de 2023 e, ao longo de um ano e meio, passou de tóxica a nuclear. Foi preciso esperar de certo que um contador Geiger do almoxarifado taurino explodisse em desespero para que finalmente a decisão óbvia fosse tomada. Era preciso seguir em frente, mesmo que Verstappen decidisse sair.
Entre o contrato assinado e a situação atual, além disso, houve o gosto que a Red Bull tomou por fazer motores. Com as diretrizes definidas para as regras de 2026, entra em ação um novo tamanho para a equipe que nasceu cheia de desconfiança por ser braço de uma fabricante de bebidas. A partir de agora, a Red Bull não apenas trabalha para entregar a melhor geração de chassis possível, o resultado final de ideias aerodinâmicas que potencializam um brinco de motor entregue por fábrica parceira. É ela própria, em parceria com a Ford, quem tem de parir um motor competente. São os taurinos que apostam alto para entrar num jogo em que Mercedes e Ferrari são bem-sucedidas a tanto tempo.
A permanência de Verstappen está diretamente ligada também ao breu que se avizinha. Sim, a Red Bull mostrou que o tem como peça principal no Carnaval de acontecimentos que a F1 impõe para o momento. A casa está limpa para recomeçar e não perder a bússola das glórias. Com essa declaração de boa intenção entregue, por que é que Verstappen daria adeus rumo ao desconhecido de 2026? Por que mudaria para uma rival que vai saber o quanto acertou ou erro nas próprias projeções do que a nova geração de carros da F1 precisa entregar? E se a Red Bull é quem ganha na loteria da concepção?
É melhor escanear a temporada, o mercado e entender onde tem mais a ganhar. Assim, o voto de confiança de Verstappen para a Red Bull é importante para o momento, mas tem também ares de última chance. Após dois anos de muita discussão sobre o futuro, 2026 é o momento derradeiro da comprovação. Se a Red Bull estiver distante — não apenas nos resultados, mas, e, talvez, especialmente, na qualidade da operação —, a ameaça virá novamente.

“Pelas declarações dele, ficou claro que queria ficar, e isso faz sentido, mesmo se a cláusula de saída fosse acionável. Ninguém sabe como será a situação em 2026. Em termos de motores, a Mercedes se declara a mais forte, mas não há nenhuma prova disso”, afirmou Helmut Marko, consultor da Red Bull e que tem relação sabidamente próxima a Verstappen.
“Em termos de chassi, também não se sabe se alguém vai acertar em cheio. Então, há muita incerteza e, puramente da perspectiva dele, faz muito mais sentido ficar, observar tudo e, se talvez não formos competitivos no próximo ano, aí sim reconsiderar a decisão”, acrescentou.
A Red Bull sabe que, ao ganhar 2026 com o melhor piloto do mundo, recebeu um breve alívio e uma espécie de prova final. Só aí, daqui um ano, é que vai saber se tem Verstappen para o futuro ou se terá de replanejar tudo no projeto da F1.
A Fórmula 1 volta às pistas após o recesso de verão, entre os dias 29 e 31 de agosto, para o GP dos Países Baixos, em Zandvoort.
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