Red Bull tomba último pilar do passado com saída de Marko em busca de frescor do início

A Red Bull encerra de vez um ciclo que representou muito frescor à F1 lá em 2005. Agora, diante de um 2026 desconhecido e cheio de novidades, volta-se para um recomeço mais que necessário para voltar ao protagonismo

Embora relativamente nova, considerando nomes como Ferrari e McLaren, presentes na F1 desde a Era de Ouro da categoria, nenhuma equipe do grid carregava o peso do que significa tradição como a Red Bull. Também pudera: nascida em 2005 de forma modesta, não demorou muito para começar a beliscar pódios e vitórias até viver o primeiro apogeu apenas cinco anos depois, quando viu o garoto-prodígio Sebastian Vettel começar a escrever o nome entre as lendas do esporte. Mas também não era de se estranhar que uma esquadra com a mente brilhante de Adrian Newey a assinar os projetos ficaria tanto tempo às sombras, pelo contrário. E a Red Bull foi crescendo e ganhando corpo cada vez mais, tornando-se a grande referência da Fórmula 1 moderna.

Bem, essa referência agora estará definitivamente no passado. Se a saída de Newey após quase 20 anos foi um verdadeiro choque, o que dizer quando veio a notícia de que Christian Horner, o líder mais jovem a assumir uma equipe, não estaria mais no comando do pit-wall após o GP da Inglaterra deste ano? Isso sem falar na partida de Jonathan Wheatley, diretor-esportivo e outra figura central dos primórdios, que resolveu aceitar o desafio de comandar a Audi na pista e romper os laços com a esquadra austríaca.

Mas essas foram apenas algumas das muitas peças do quebra-cabeça da Red Bull a serem espalhadas. E, curiosamente, tudo passou a ruir justamente no instante em que a equipe atingiu aquele que talvez seja o maior nível técnico já visto na F1, considerando os recordes obtidos na temporada 2023. Das 22 corridas realizadas, apenas uma não foi vencida por um carro da Red Bull, um domínio que superou a histórica temporada de 1988 da McLaren de Ayrton Senna e Alain Prost. Com Max Verstappen, o time de Milton Keynes parecia imbatível, mas todo aquele poder também passava pela sólida estrutura. Se o neerlandês fazia chover na pista, era porque tinha ao redor simplesmente a melhor equipe. Sem mais.

Acontece que nada é tão perfeito assim, nem mesmo um time sem adversários. Pois a Red Bull começou a perder para ela mesma ao se ver em meio a um escândalo que tentou abafar de todas as formas possíveis. E quanto mais se mexia, mais fedia, a ponto de revelar uma guerra de poder que tomou proporções inimagináveis e foi o início da ruína daqueles pilares até então inabaláveis. Helmut Marko colocou-se de uma lado. Horner, do outro. No meio, Verstappen tendia muito mais ao consultor pela dívida de gratidão por tê-lo levado à F1. E quem não tinha nada a ver, pulou fora antes que o navio naufragasse de vez e levasse todo mundo junto.

Christian Horner, Sebastian Vettel e Helmut Marko: Red Bull perdeu o frescor da sua mocidade na F1 (Foto: Red Bull Content Pool)

Horner saiu. Parecia, então, que a guerra havia realmente um lado vencedor. Mera ilusão, pois poucos são os que detém o poder sem ultrapassar linhas. E Marko já havia superado muitas por conta da língua ferina. Ela, aliás, foi quem o traiu, segundo a imprensa neerlandesa, numa acusação contra Kimi Antonelli que tomou proporções inimagináveis. Ou melhor, eram, sim, fáceis de serem medidas, considerando que vivemos tempos sombrios em que o ódio gratuito é disseminado com simples toques no teclado, palavras que dilaceram e são capazes de causarem verdadeiros traumas por toda uma vida.

Helmut até se desculpou por ter dito que o jovem Kimi havia, vejam só, errado de propósito no final do GP do Catar para ceder posição a Lando Norris e beneficiá-lo na briga do título contra Verstappen. Claro que era algo totalmente sem sentido, mas os pedidos de desculpa só vieram mesmo depois que o estrago havia sido feito. E nem mesmo a posição pública foi capaz de tirar de Antonelli a crença de que realmente havia sido o responsável pela derrota de Max. Ainda no carro, ao cruzar a linha de chegada do GP de Abu Dhabi, quis saber por quantos pontos Norris havia vencido. 2 miseráveis pontos, justamente a diferença entre quem termina em quarto e quem termina em quinto.

Mas este é apenas um dos inúmeros exemplos do quanto Marko, indiscutivelmente um olheiro dos bons quando o assunto é piloto, sempre foi especialista em promover terror psicológico na cabeça dos que passavam por sua gerência. Isack Hadjar, que é um dos mais talentosos da atual geração, contou que, da parte do austríaco, só recebia broncas. Liam Lawson, por sua vez, revelou que a pressão era tanta que recebia ligações do consultor às 6h da manhã.

Mas isso também não deixa de ser reflexo de uma liderança ultrapassada, que convence muito mais pelo medo do que pelo acolhimento. Só que os tempos definitivamente são outros. Aquele frescor da Red Bull de Sebastian Vettel, na verdade, começou a morrer em 2022, junto com o fundador Dietrich Mateschitz, e tudo porque a lacuna deixada por ele nunca foi totalmente preenchida. O espaço ficou ali, enquanto Horner e Marko tentavam ampliar cada vez mais os próprios. E nenhum dos dois prevaleceu.

Mas o arco-íris costuma surgir ao final de tempestades e tem bonito simbolismo de recomeço de um ciclo. E a Red Bull já vive isso desde que Horner deixou as garagens, com Laurent Mekies e uma necessária mudança de pensamento que levou Verstappen a disputar o título de 2025 até a última corrida, mesmo não tendo o melhor carro. Há também esperança de que 2026 enfim traga alguém capaz de conquistar resultados consistentes ao lado de Max, que é Hadjar, e isso é fundamental para recolocá-la no jogo. E mesmo com as incertezas em torno do próximo regulamento, a decisão de fabricar as próprias unidades de potência, agora em parceria com a Ford, também é a personificação de uma equipe que decidiu ser dona do próprio destino.

A Red Bull, portanto, dá boas-vindas de vez a uma nova era na F1 — agora, talvez com o mesmo frescor da aventura iniciada lá em 2005 e que precisava urgentemente voltar.

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