GUIA 2026: Indy agita bastidores com GP para Trump e órgão fiscal ‘sabor’ independente
Temporada 2026 da Indy começa sob questionamentos sobre retorno de Cindric e órgão fiscal independente, mas com expectativas pelo GP de Washington e promoção da Fox
A temporada 2026 da Indy começa quente. Nas pistas, todos tentam derrubar Álex Palou, o grande dominador da categoria nos últimos anos. Nos bastidores, porém, algumas arestas precisam ser aparadas, esclarecidas e até iniciadas para que o cenário fique mais ameno. Tradicionalmente mais tranquilo por estar no limbo entre o fim de uma temporada e o início da outra, o mês de janeiro foi absolutamente agitado na Indy.
Primeiro, pelo retorno de Tim Cindric à Penske, que gerou reações de desaprovação nos bastidores. Depois, pelo anúncio do GP de Washington, visto como um aceno a Donald Trump, o que alimentou a percepção de que a categoria assumiu um lado. Além disso, a Fox inicia sua primeira temporada como proprietária de parte da categoria, com interesse declarado em melhorar a promoção do campeonato.
Soma-se a isso a estreia do Conselho Independente de Arbitragem (Independent Officiating Board, IOB), criado para afastar qualquer fantasma de interferência da gestão Penske nos aspectos técnico e esportivo — mas que manteve diretores e comissários que estiveram em ação nos últimos anos, marcados por irregularidades técnicas da Penske; ou seja, as pessoas que tomam as decisões seguem as mesmas, apesar da nova roupagem. Confira alguns tópicos a se observar na Indy 2026.
Primeira temporada da Fox como proprietária

A Fox assumiu, em 2025, a transmissão da Indy nos Estados Unidos. Além da exibição em TV aberta, passou a cuidar da imagem internacional da categoria. A adição de novos elementos gráficos e a forte campanha promocional — com comerciais exibidos durante o Super Bowl — indicaram um início promissor.
O acordo foi além dos direitos de transmissão. Antes mesmo do fim do campeonato de 2025, a Fox comprou um terço da Penske Entertainment, empresa de Roger Penske que administra a Indy e o Indianapolis Motor Speedway. Desde então, as duas estruturas passaram a atuar de forma alinhada na promoção da categoria.
Um exemplo foi o retorno de Phoenix ao calendário. Após a queda de público em Iowa, a Indy encontrou na parceira uma solução para preencher a lacuna. A etapa será disputada no mesmo fim de semana da Nascar, no Arizona, enquanto a Truck Series servirá como preliminar da Indy em St. Pete — eventos em que a Fox possui os direitos da série de stock cars norte-americana.
Outro ponto é a Freedom 250, ou GP de Washington — ideia que nasceu dentro da Fox e ganhou força após manifestações públicas de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.
O que será da Indy após a Freedom 250?

Antes de fechar o calendário de 2026, Mark Miles, CEO da Penske Entertainment, admitiu a possibilidade de uma corrida de rua em Washington, nos arredores da Casa Branca, como parte das celebrações dos 250 anos da Declaração da Independência dos EUA. Era um projeto ambicioso, mas que, como disse o próprio dirigente, tinha desafios logísticos e financeiros — o que indicava que a ideia dificilmente sairia do papel.
Em janeiro de 2026, mesmo com o calendário já definido, a Indy abriu espaço para atender ao desejo de Trump, que pressionou publicamente pela realização da prova. No fim do mês, Roger Penske esteve na Casa Branca e acompanhou a assinatura do decreto que autorizou o evento — um tiro único, afinal, a etapa vai ocorrer somente neste ano.
Independentemente do viés político — ainda que Indy e Fox sejam vistas como alinhadas ao presidente — a repercussão foi enorme nos Estados Unidos, de modo positivo e negativo, refletindo a polarização que também é bastante presente no Brasil.
Uma crítica recorrente à gestão da categoria é que poucas etapas — ou nenhuma — recebem um nível de promoção próximo ao das 500 Milhas de Indianápolis. Nesse sentido, o GP de Washington deve alcançar patamar semelhante, ao menos em visibilidade. A dúvida é o que ficará depois. A Indy sairá maior? Financeiramente mais saudável? Hoje, a Indy 500 tem audiência cerca de seis vezes superior à das demais etapas, evidenciando a necessidade de reter público ao longo do ano.
Há também a questão financeira. A Fox injetou cerca de US$ 130 milhões (R$ 677,35 milhões na cotação atual) ao adquirir parte da Penske Entertainment, mas o montante é modesto diante do cenário do automobilismo norte-americano. A Nascar Cup Series, por exemplo, distribui cifras milionárias por etapa, uma média de US$ 10 milhões (R$ 52,1 milhões).
Além disso, a Indy não confirmou o GP do México, apesar de sinalizações anteriores, em meio à concorrência com Nascar e F1, administrada pela Liberty Media, controladora do autódromo Hermanos Rodríguez. Faltou dinheiro.
Outro projeto relevante é o GP de Arlington, em parceria com Dallas Cowboys e Texas Rangers. A categoria retorna ao importante mercado texano, mas não pode viver só do “oba-oba” e precisa consolidar as bases para garantir viabilidade esportiva e financeira por longos anos.
A volta de Tim Cindric

Os bastidores entraram em ebulição com a recontratação de Tim Cindric pela Penske, agora como estrategista de Scott McLaughlin. Considerado um dos nomes mais influentes da estrutura, há quem diga que conhece a equipe até mais que o próprio Roger Penske.
Publicamente, poucos questionaram a decisão. Existe gratidão à Penske por ter comprado e sustentado a Indy durante a pandemia, quando a categoria vivia período bem mais delicado financeiramente. Além disso, uma vaga na equipe é objeto de desejo para vários pilotos — e ninguém vai querer um confronto direto, que poderia encerrar as esperanças.
Nos bastidores, porém, a decisão foi mal recebida por parte dos envolvidos em outras equipes. O GRANDE PRÊMIO soube, inclusive, que há quem acredite que Cindric jamais deixou a estrutura.
Cindric havia sido demitido junto a Kyle Moyer e Ron Ruzewski após o caso dos atenuadores modificados ilegalmente, revelado na classificação das 500 Milhas de Indianápolis por denúncia anônima. A mesma trupe estava à frente da Penske no escândalo do push-to-pass em St. Pete, que abriu a temporada 2024 da Indy.
Questionado e com a credibilidade arranhada, Roger Penske, dono da equipe e da Indy, demitiu o trio e alegou, com um duro discurso, que a “integridade do esporte estava acima de tudo” — algo em que parece ter voltado atrás. Mesmo sob forte escrutínio, Penske reforça a equipe da Indy em busca de retomar a hegemonia na categoria, que está nas mãos de Ganassi e Álex Palou. Porém, com uma lupa enorme dos torcedores e fãs da categoria.
Órgão fiscal independente ou sabor independente?

O escândalo dos atenuadores fez a Indy acelerar um passo importante: a criação de um órgão fiscal independente para aferir os regulamentos técnicos e esportivos. Na tentativa de tirar qualquer mácula de que a Penske poderia interferir nessa área, possibilidade deixada no ar pelos vexames, o Conselho Independente de Arbitragem (Independent Officiating Board, IOB) foi formado por três nomes, sendo que dois deles foram escolhidos pelas equipes da categoria.
Os eleitos foram Ray Evernham, antigo chefe de equipe de Jeff Gordon na Nascar, cofundador da categoria SRX e proprietário da Evernham Motorsports; e Raj Nair, ex-diretor técnico e vice-presidente executivo de desenvolvimento de produto da Ford, além de ter sido responsável por programas da montadora na Nascar, IMSA e WEC.
Por fim, fecha o trio um nome indicado pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA): Ronan Morgan, que possui cerca de 50 anos de experiência no automobilismo e foi ex-diretor esportivo do GP de Abu Dhabi de F1 (entre 2009 e 2021), ex-presidente da Comissão de Pilotos, membro do Conselho Mundial do Esporte a Motor e conselheiro de Mohammed Ben Sulayem, presidente da FIA.
A movimentação é histórica pelo fato de a categoria sempre ter ficado distante da entidade quando o assunto é arbitragem, apesar de seguir normas de segurança da FIA (como capacetes, macacões e o HANS).
O tema por si só é polêmico, mas, como se não bastasse todo o contexto apresentado acima, as decisões da direção de prova da Indy vinham sendo questionadas há um bom tempo. Vale lembrar que a Honda cansou de indagar a capacidade de Roger Penske de se manter imparcial entre tantos conflitos de interesse — e apontou a criação do IOB como uma condição para seguir na categoria, o que foi oficializado semanas atrás.
No entanto, na semana em que a Indy começa, o IOB anunciou a contratação — ou recontratação — de membros que já atuavam na categoria em meio às polêmicas. São eles: Kyle Novak, diretor de prova desde 2018; Arie Luyendyk e Max Papis, comissários desde 2016; e Kevin “Rocket” Blanch, diretor-técnico e chefe de inspeção desde 2003. Entretanto, Blanch passará a contar com o auxílio de Nick Allen, ex-chefe de mecânicos de Colton Herta.
Além do bom trabalho, o IOB vai precisar refletir e ter independência da Penske Entertainment para que se enterre, de vez, qualquer ilação de que a Indy serve para a Penske vencer. Mas manter quem já estava ali gera uma série de questionamentos, já que o órgão foi criado exatamente para demonstrar uma estrutura independente e dar maior transparência e credibilidade. Na prática, são os mesmos integrantes que tomarão as decisões. Fica a pulga atrás da orelha: é uma mudança de fato ou apenas uma nova maquiagem? Essa nuvem insiste em não se dissipar.
O GRANDE PRÊMIO deu início, em 23 de fevereiro, ao Guia da temporada 2026 da Indy. Nos próximos dias, trará análises aprofundadas, projeções e tudo o que é preciso saber antes do sinal verde para o primeiro treino livre do GP de St. Pete.
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