PELA TERCEIRA VEZ CONSECUTIVA, a Ferrari perde para si própria e
abre caminho para uma vitória da Mercedes. A história contada no México apenas repetiu, com algumas doses de drama, os roteiros da Rússia e até do Japão. Por erros diversos e por uma postura conservadora demais, a escuderia italiana abdicou do direito de vencer. Tinha o melhor carro do Hermanos Rodríguez e uma velocidade de reta que mantinha qualquer adversário atrás.
Mas acabou derrotada.
É incrível perceber como a Ferrari abriu mão do triunfo com seus dois pilotos. Pole pela sétima vez em 2019, Charles Leclerc saltou bem da posição de honra e garantiu a liderança ao chegar antes de todos na primeira curva. Sebastian Vettel defendeu a esquadra na largada, espremendo Lewis Hamilton. O alemão, então, se colocou em segundo e, ali, parecia que a corrida seria decidida apenas pelos carros vermelhos, que passaram ilesos pela confusão da primeira freada. Leclerc e Vettel começaram a determinar o ritmo. Só que esse desempenho era acompanhado tanto por Alex Albon, o terceiro colocado, quanto por Hamilton, que vinha em quarto. Primeiro indicador de que a estratégia teria de ser perfeita.
Charles Leclerc foi o maior prejudicado com a estratégia ferrarista (Foto: Scuderia Ferrari)
Leclerc não foi capaz de extrair performance com o jogo novo de pneus médios. E não demorou para a Ferrari notar que a tática estava realmente incorreta. Ou seja, era melhor uma parada apenas. Daí o engenheiro ficar a todo mundo pedindo desempenho a Charles. Ficou claro naquele momento que uma nova vitória do jovem seria muitíssimo difícil. Ou até mesmo o pódio, como acabou acontecendo. Ainda que tenha conseguido melhorar com os compostos duros, #16 perdeu o bonde da disputa pelo top-3 na parte final da prova.
Havia ainda Vettel. Com a informação de que a esquadra prateada iria mesmo para um único pit-stop, o pit-wall de Maranello achou por bem acionar um novo plano. Quer dizer, também partir para uma parada. Mas aí veio o segundo grande erro. Líder da prova, Sebastian insiste em ficar tempo demais na pista, e a equipe tem uma reação lenta frente ao que faz a Mercedes.
Então, quando finalmente Bottas vai aos boxes, os italianos ficam sem alternativa. Vettel vem na volta seguinte e retorna atrás de Hamilton e pouco à frente do finlandês, que passa a pressionar. A partir daí, o quase hexacampeão dá uma aula de pilotagem. Mesmo questionando o pit-stop tão cedo e a durabilidade dos pneus, o inglês conseguiu imprimir um ritmo consistente por 48 voltas, enquanto Seb não foi capaz de sequer ameaçar a liderança do rival.
Vettel foi ao pódio, mas o segundo lugar tem gosto de derrota (Foto: Beto Issa)
É bem verdade que a Ferrari foi ao pódio. Mas também é certo dizer que o resultado é pouco perto do desempenho que a equipe vem apresentando nesta segunda fase de temporada e do poder de fogo que tinha no México. Pode-se elogiar a eficiência e a competência que os italianos mostraram ao eliminar a maior parte dos pontos fracos da SF90 nesta parte final do campeonato, mas ainda há uma carência de personalidade e, principalmente, comando à escuderia.
A chefia é frágil, sucumbe à pressão e erra demais. Como Vettel disse há algumas semanas, a Ferrari tem todos os ingredientes para vencer, mas ainda não é capaz de combinar esses elementos para um prato perfeito. Porque, sim, é preciso ser perfeito para entrar uma luta com a Mercedes, que elevou muito o sarrafo nos últimos anos e não dá pinta de que vá desacelerar. Neste momento, depois de mais uma sequência de decisões desastradas, fica a impressão de que a escuderia ainda não está pronta para uma longa e tensa disputa de título. E a F1 perde com isso.
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