Em busca do bilhete de Willy Wonka: F1 2023 vive decisão com atualizações de Ímola

Diversas equipes chegam ao GP da Emília-Romanha em Ímola dotadas de novidades pesadas em seus carros para tentar um salto de qualidade numa temporada amarga para quase todo mundo

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O GP da Emília-Romanha, marcado para o próximo fim de semana, em Ímola, apresenta-se como um verdadeiro ponto de salvação para praticamente todo o grid da Fórmula 1. É natural que o começo de fato da temporada europeia pinte como a primeira grande boia salva-vidas para as equipes do campeonato: é assim todos os anos. Desta feita, cabe a Ímola o papel que tem sido de Barcelona nos últimos tempos. Como é uma temporada de grandes dificuldades para os times, o momento de virada se torna ainda mais fundamental. No grande pacote de atualizações, a esperança com formato de sonho é encontrar o bilhete dourado, como aquele distribuído por Willy Wonka para que cinco crianças visitassem sua lendária fábrica de chocolate.

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A expectativa por Ímola se desenha há tempos, desde antes do campeonato, na realidade. Já se sabia desde antes do GP do Bahrein que seria o primeiro ponto de grandes atualizações, só que um fator impensável se fez presente: as dificuldades das equipes na compreensão dos carros, algo surpreendente por se tratar no segundo ano do conjunto de regras.

E a expectativa se tornou colossal porque a esmagadora maioria das escuderias entrou em 2023 pior do que imaginavam para si próprias. São poucas as exceções da decepção atroz do campeonato: Red Bull e Aston Martin se destacam — e nenhuma delas planeja grandes mudanças em Ímola —, talvez com a companhia da Haas. De resto, não há ninguém feliz consigo mesmo.

O Willy Wonka de Gene Wilder, na versão de 1971 de ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’ (Foto: Reprodução)

A situação se torna um pouco mais densa dadas as condições climáticas do local. Há alerta vermelho para a região da Emília-Romanha por contas das fortes chuvas no norte da Itália nos últimos dias e a previsão é de que continue inclusive no fim de semana. Para piorar, o circuito de Ímola foi evacuado na última terça-feira, quando logística das equipes, organização e imprensa já trabalhava no local: o temor é o rio que corre em paralelo com o paddock e boa parte do traçado, o Santerno, que viu o nível d’água aumentar pelos dias de fortes chuvas. Assim, há perigo até de inundações.

Mesmo que a Fórmula 1 consiga ultrapassar a barreira climática e da água dos rios e conclua a semana com o GP, conforme marcado, ainda se trata de um golpe nas muitas novidades para as equipes. É possível que haja pouco tempo de teste efetivo, sobretudo porque a FIA pretende testar um novo pneu de chuva que não precisa de cobertores térmicos para ser aquecido. É possível que as equipes saiam de Ímola rumo a Mônaco e Barcelona sem entender bem se o que apresentaram funcionou muito, pouco ou atrapalhou.

Mesmo assim, enquanto o evento estiver marcado, resta a esperança das equipes com o que tem a apresentar. Sobretudo a Mercedes, além da decisão de última hora da Ferrari. Para os anglo-alemães é uma decisão absoluta: será um bota abaixo caso não haja uma resposta de imediato com as novidades.

Ímola teve de ser evacuado às pressas por conta do risco de alagamentos (Foto: reprodução/@LaurentDupin_f1)

MERCEDES

Quem mais causa curiosidade sobre o que virá por aí no GP da Emília-Romanha é a Mercedes. Isso porque o chefe de equipe, Toto Wolff, admitiu ainda durante a primeira etapa da temporada que o W14 havia falhado na parte conceitual. A decisão de manter a ideia do ‘sidepod zero’, tida como revolucionária nos confins da equipe, em relação ao ano passado, foi tombada. A Mercedes gostaria de aprontar um carro totalmente novo, mas o teto orçamentário impede. O que mudar, então?

Embora a equipe não tenha dito explicitamente quais as diferenças, as declarações ao redor da Mercedes nas últimas semanas começam a indicar o que vem. Uma troca fundamental está na suspensão dianteira, visto que é uma parte que a Mercedes escolheu inicialmente adotar com tamanha diferença para a Red Bull. Se a suspensão dos taurinos se aproxima do chão na hora da aceleração, a dos mercedistas levanta. No começo do ano, Wolff tinha dito que se o W14 operasse tão rebaixado quanto o RB19 “quebraria ao meio”, e a suspensão é um dos principais motivos para tanto. Com o carro mais perto do chão, dá para adquirir mais downforce.

Como o bólido da Mercedes não faz isso naturalmente, precisa ser forçado a tanto, o que cria instabilidade. A troca da suspensão e torção do carro para operar mais rebaixado também força uma alteração natural no assoalho, que certamente será efetuada.

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Mas as mudanças são um ponto de partida para recolocar a Mercedes nos trilhos, e há a correria para garantir que não se trata do bilhete dourado do doceiro místico de ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’: a equipe quer desesperadamente que todo mundo saiba: não está alcançando a Red Bull.

“Precisamos controlar as nossas expectativas, porque vamos trazer um pacote de atualizações que consiste em novas partes da suspensão, da carroceria e outras coisas. Mas eu nunca vi, em meus 15 anos, uma solução simples ser introduzida onde, de repente, você desbloqueia 0s5 de desempenho. Eu duvido muito que isso vá acontecer”, cravou Wolff à imprensa após a prova em Miami Gardens.

“Mas o que estou ansioso é que tiremos variáveis da mesa, onde acreditamos que poderíamos ter introduzido algo que não entendemos no carro. Espero que possamos ir para um nível mais estável, e devemos ver onde está a base e o que podemos fazer a partir dali”, seguiu.

“O que vamos fazer é introduzir uma nova carroceria, um novo assoalho e estamos fazendo uma nova suspensão. Vai ser uma operação grande, uma cirurgia grande. Vamos ter muitos aprendizados no mundo virtual, onde estão os tempos de volta. Por isso que a atualização vai nos ajudar a ter uma direção e entender as várias áreas onde imaginamos que possamos entender o motivo do carro ser tão venenoso de pilotar”, concluiu.

As mudanças de uma Mercedes que tenta recuperar o caminho das vitórias (Foto: Mercedes)

FERRARI

A grande sacada vinda de Maranello era uma nova suspensão traseira, pensada especificamente para tornar o carro mais estável. No momento, e tanto com Charles Leclerc quanto Carlos Sainz concordam quanto a isso, o grande problema da SF-23 está na inconsistência. Pequenas mudanças de setup ou até pilotagem fazem o carro sair de um extremo para outro, com a proeza, inclusive, de sair de frente e traseira no decorrer da mesma curva.

Essa era a expectativa, mas foi abandonada com a previsão de caos para o clima da Emília-Romanha. “A Ferrari mudou os planos para o GP em Ímola. A piora climática esperada durante o fim de semana fez com que a equipe desistisse de inserir muitas novidades em Ímola”, informou a versão italiana do Motorsport.

“A decisão foi de adiar para Barcelona. Os engenheiros concordaram que isso faria mais sentido do que estrear a nova suspensão traseira em sessões de treinos livres numa pista que varia entre molhada e seca ou inteiramente molhada”, seguiu.

A realidade, então, é que a Ferrari não terá enormes atualizações, como era esperado anteriormente. Vai apenas com fatores específicos para a pista de Ímola, sem o desejo de testar numa pista provavelmente úmida ou totalmente encharcada. E, caso o leitor não tenha notado, a mudança será empurrada da sexta para a oitava corrida do ano, pulando o GP de Mônaco da semana que vem”, continuou.

Ferrari desistiu de grandes mudanças por ao menos mais duas semanas (Foto: AFP)

RESTO DO GRID

No que diz respeito à briga pelo quinto lugar do Mundial de Construtores, a McLaren, que apresentou somente no Azerbaijão o carro com que devia ter começado o ano, vai guardar as próximas mudanças bruscas para Canadá e Áustria, mas a Alpine prometera algo bombástico.

Durante o quase mês completo que a F1 ficou parada entre os GPs da Austrália e do Azerbaijão, a revista alemã Auto Motor und Sport publicou que a equipe francesa tinha planos de melhorar o tempo de volta em até 0s6 em duas súper atualizações nos próximos meses. Ambas seriam divididas em duas partes e renderiam, cada uma 0s3 por volta. A primeira delas começaria em Baku e terminaria justamente no GP da Emília-Romanha.

Aconteceu que o rendimento da Alpine nas duas corridas desde o retorno, Baku e Miami, foi nada menos que pastelão. Os franceses criaram expectativa enorme para o crescimento e cravaram que o trabalho era para superar de vez Mercedes e Ferrari. Duas provas passaram, nada disso aconteceu, mas ainda se vê perto o bastante para atacar.

“Não estamos tão longe da Mercedes ou da Aston Martin, mas a desvantagem em pontos é grande agora”, continuou a chefia da Alpine. “Não otimizamos ou capitalizamos nossas oportunidades”, argumentou o diretor-executivo Laurent Rossi. Que, aliás, fez críticas abertas ao próprio time.

“Não gostei do primeiro GP porque houve muito amadorismo que levou a um resultado que não foi o certo, que foi medíocre, ruim. A última corrida, em Baku, pareceu tão horrível quanto a do Bahrein. E isso não é aceitável. O direito de cometer erros é um princípio básico, são dos erros que você aprende. No entanto, quando você repete erros, mostra que não aprendeu e não assume responsabilidades. Isso é inaceitável”, completou. Para a Alpine, portanto, é fundamental mostrar alguma evolução.

Pierre Gasly e a Alpine estão sob pressão interna (Foto: AFP)

Quem também mexe é a AlphaTauri, que tenta sair da penúltima posição do Mundial de Construtores e apresenta um conceito completamente novo de assoalho para Ímola, que é a corrida da casa do time de Faenza, cidade que fica justamente na região da Emília-Romanha.

“Teremos um assoalho completamente novo. Estamos ansiosos para contar com a novidade no carro: será um passo à ferente significativo, um grande passo, então esperamos que seja possível entregar de acordo com nossa expectativa. Há sempre um ponto de interrogação sobre o funcionamento das novidades, mas, até agora, nossas atualizações funcionaram bem. A nova asa dianteira se mostrou um acerto conforme o túnel de vento previu, então estamos ansiosos”, disse Guillaume Dezoteux, diretor de desempenho veicular do time da casa.

Pelos lados da Alfa Romeo, também há expectativa quanto a mudanças, embora não muito esclarecidas. “Temos um pacote de atualizações para Ímola e, esperamos, isso ajude. O problema é que, tenho certeza, todo mundo terá alguma coisa também. Temos de ver o quanto isso vai nos ajudar. Está tudo muito próximo que, mesmo para quem está atrás, uma coisinha e, pronto, voltamos ao pelotão”, falou o diretor de engenharia de pista, Xevi Pujolar.

Do jeito dele, calmo, mas deixando clara certa preocupação, Valtteri Bottas reforçou o pedido por melhoras urgentes. “Nosso foco tem de ser dar esse passo extra para que sejamos competitivos novamente. Teremos atualizações em Ímola que, espero, façam com que a gente avance e volte a lutar por pontos. Estou confiante no trabalho que estamos fazendo enquanto equipe e fico ansioso para as próximas corridas”, fechou.

Valtteri Bottas também está desesperado por mudanças na Alfa Romeo (Foto: AFP)

Na Haas, a atualização do assoalho surgiu na última corrida, em Miami, mas agradou. Segundo o chefe de equipe Guenther Steiner, não está nos planos da Haas apresentar uma grande revolução. “Temos mais coisas por vir ao longo do ano, mas são pequenos passos de cada vez. Não teremos um grande pacote de atualizações em Ímola, mas teremos algo novo onde vamos buscar desempenho”, declarou.

Bem como a Ferrari, a Williams tomou a decisão de atrasar qualquer grande mudança que pretendia fazer no carro para Ímola. Embora não tenha culpado o clima, o fator também esteve em pauta quando o chefe Dave Robson tratou da situação para a corrida. “Optamos por não levar nenhum novo item significativo para este evento. Temos menos jogos de pneus duros, bem como o novo pneu de chuva da Pirelli, que não conta com os cobertores térmicas. Dado o clima, pode significar muito”, fechou.

E veja: em ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’ o aviso no bilhete premiado é que, ao fim do tour pela fábrica, uma das crianças vai ganhar um prêmio muito especial. Todas as equipes sonham que o prêmio será delas, por que não?

A Fórmula 1 retorna no fim de semana dos dias 19-21 de maio, em Ímola, com o GP da Emília-Romanha.

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