Retrospectiva 2023: Ferrari se redime de início errático ao ser única a bater Red Bull
Novo chefe, velhos erros. A temporada 2023 da Ferrari foi marcada em muitos momentos pela inconstância, sobretudo no trabalho de box, mas quis o destino que fosse justamente a equipe mais tradicional da história da Fórmula 1 a quebrar o domínio de uma rival até então imbatível. É por isso que o saldo para 2024 é muito mais positivo e dá esperanças de que Maranello larga em vantagem na briga contra a Mercedes
A Ferrari pode bater no peito com orgulho e dizer que, num ano em que a Red Bull não teve adversários na Fórmula 1, foi ela quem conseguiu se valer da única brechinha de chance aberta para vencer os taurinos. E ainda que tenha perdido no final a queda de braço contra a Mercedes na briga pelo vice-campeonato, deixa 2023 com um bom saldo e a sensação de que entende muito melhor o projeto que tem nas mãos do que as rivais diretas.
O novo ano, porém, trouxe um desafio e tanto para Maranello. Após incontáveis erros que potencializaram o domínio de Max Verstappen do GP da França de 2022 em diante e culminaram no bicampeonato do holandês com quatro rodadas de antecipação, a Ferrari entendeu que era urgente mudar. A derrota da maneira como foi, após um início de ano em que Charles Leclerc prometia nadar de braçada, fez o chefe, Mattia Binotto, cair. E para o lugar do italiano, uma aposta ousada: o francês Frédéric Vasseur, então na Alfa Romeo.
Era uma escolha também pensada no entrosamento que já existia com o próprio Leclerc desde as categorias de base. “A equipe é mais do que uma pessoa. E, sim, estou muito confiante para o futuro com o que Fred tem em mente. Estou muito confiante. Acho que ele tem sido aberto sobre o que quer alcançar e a forma como quer alcançar. Isso me dá provavelmente mais confiança do que nunca. Então, por mais óbvio que seja, estou confiante para o futuro”, disse Charles em abril.
Mas havia muito mais em jogo do que melhorar o relacionamento piloto/chefe. O carro em si estava longe de ser dos piores, por mais que a diretiva para conter os quiques tenha sacrificado toda a força aerodinâmica da mãe da SF-23, a F1-75. Desde a mudança, a Ferrari que antes fazia a Red Bull ter de correr atrás nunca mais foi a mesma. E quanto mais a rival taurina crescia, mais a equipe vermelha tropeçava nas próprias pernas.

O início da temporada 2023 foi conturbado. Já na primeira corrida do ano, a confiabilidade mostrou ser um problema urgente. Leclerc foi forçado a abandonar com problemas de motor, e como se não bastasse, teve de trocar novamente a bateria da unidade de potência, já pagando punição de dez posições na segunda corrida do ano, na Arábia Saudita.
A realidade também não demorou a assombrar. Antes mesmo do final de 2022, os mecânicos foram colocados a um exaustivo treino de mais de 1.000 pit-stops com um único objetivo: não errar. Só que errou, e como errou! Porém, mais que as patacoadas que marcaram o campeonato passado, chamou a atenção as vezes em que pilotos e equipe nos boxes simplesmente não se entendiam. Em Mônaco, por exemplo, não faltaram reclamações de Carlos Sainz após blefes para enganar a Mercedes, sendo que a disputa em pista era contra a Alpine de Esteban Ocon. E o resultado do bate-cabeça não poderia ser outro: ao parar, o espanhol voltou atrás do francês.
Teve ainda Leclerc pedindo pneus macios em uma das trocas no GP da Espanha e recebendo um conjunto de duros, completamente ignorado. Mas aí veio a justificativa talvez mais surpreendente de todas: não havia discussões, e sim falta de entendimento por culpa de um defeito no rádio da SF-23. Sim, os pilotos de uma equipe de ponta gritavam e eram desprezados porque não eram, literalmente, ouvidos.
Falha técnica à parte, a dupla também deixou transparecer em reclamações um tanto acaloradas um contra o outro que talvez o relacionamento não fosse dos melhores, ao menos em 2023. Na Austrália, por exemplo, Leclerc não escondeu a insatisfação por não ter conseguido aproveitar o vácuo do companheiro na sessão classificatória. Na Áustria, foi a vez de Sainz pedir pelo rádio para a Ferrari ordenar Charles a abrir passagem, porém teve o pedido negado. E ainda teve outro atrito na Inglaterra, na classificação, quando o #16 reclamou de uma ultrapassagem na última curva quando tinha a prioridade na volta.

Seriam indícios de um fim próximo? Para Leclerc, porém, a repercussão das “discussões normais” foram “um exagero”. “Temos um ótimo relacionamento. Fora do carro, sabemos como trabalhar juntos e nos damos muito bem porque compartilhamos de muitos interesses. Ao mesmo tempo, há muita competitividade entre nós dois. Mas estamos na Fórmula 1, e amo o esporte por causa dessa competitividade. É ótimo termos isso. Ás vezes acontecem muitas discussões pelo rádio em algumas situações. Mas isso é por sermos competitivos, e ambos querem alcançar o melhor resultado possível. Há coisas que são normais”, garantiu o monegasco em agosto.
Em meio aos problemas, todavia, as conquistas ainda apareciam, pontuais, mas muito significativas. Leclerc fez valer o natural brilho em voltas lançadas e conquistou a pole-position no Azerbaijão. O monegasco conseguiu repetir o feito outras quatro vezes em 2023 (Bélgica, Estados Unidos, México e Las Vegas), mas nenhuma converteu-se em vitória. O máximo alcançado em cada ocasião fora o pódio.
E então, quiseram os tais ‘deuses da velocidade’ que assim como Gerhard Berger em 1988, fosse a equipe mais tradicional da história da Fórmula 1 a quebrar a hegemonia de uma rival até então imbatível. Em Singapura, quando tudo deu errado para a Red Bull, a camisa vermelha fez a diferença, porém não com o piloto claramente preferido, por mais que o time jamais vá admitir que tal preferência exista. Foi das mãos de Sainz que saiu a única vitória não taurina da temporada 2023 da F1, e numa aula de estratégia. Contra uma Mercedes favorita, usou o DRS para permitir a Lando Norris, em segundo, se defender dos ataques de George Russell. Foi a redenção. E o #63 ainda acabou no muro, no melhor final de corrida de um ano completamente previsível pela superioridade de um único time frente à inércia dos outros.
“É um sentimento maravilhoso, que chega depois de uma primeira parte da temporada difícil, mas a equipe reagiu muito bem, e estou mais do que feliz com essa vitória. Hoje tivemos um resultado bastante inesperado, mas estou mais do que satisfeito com todos que fizeram um ótimo trabalho na fábrica e na pista. Carlos foi excepcional em sua gestão de prova”, parabenizou Vasseur, lembrando ainda que o triunfo veio imediatamente após Monza, outro fim de semana em que os italianos foram fortes.
É por isso que o saldo que fica para 2024 é positivo para a Ferrari. Com atualizações mais assertivas e uma vantagem em ganho de tempo de túnel de vento por ter terminado atrás da Mercedes, a escuderia do cavalinho rampante pode ser um fator na briga para ver quem será capaz de ameaçar o reinado de Milton Keynes até a próxima mudança de regulamento.
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