Retrospectiva 2023: F1 enfrenta corrida cancelada e portões fechados em ano terrível

Um calendário insano foi coroado com corrida cancelada antes da temporada, corrida cancelada em cima da hora e até uma sessão de treinos livres com portões fechados, como se a F1 vivesse o auge da pandemia de novo. Um 2023 logisticamente bem complicado

A temporada 2023 da F1 foi muito ruim por inúmeros fatores. O nível das corridas não foi dos melhores, parte considerável do grid esteve muito abaixo tecnicamente dos padrões normais e, claro, a competitividade foi inexistente, com Max Verstappen e Red Bull absurdamente dominante e campeões. Mas a Retrospectiva relembra aqui outro ponto negativo: a logística conturbada, o calendário insano.

Na sanha de quebrar recordes seguidos de tamanho de calendário, a F1 chegou em 2023 com 23 etapas. Diga-se: poderiam tranquilamente ser 25, mas Rússia e China caíram antes da hora. A Rússia, pela Guerra da Ucrânia; a China, mais uma vez, pela pandemia de covid-19. No fim, só 22 corridas foram realizadas.

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É que, além dos problemas de China e Rússia, o GP da Emília-Romanha viveu um caos particular. Uma chuva absurda, alagamentos, estado de calamidade pública em boa parte da Itália. A F1 tentou correr quase que até o último minuto, mas ninguém conseguia chegar ao autódromo, nem forçando muito aquilo ia rolar.

Mas teve mais confusão. Foi zebra que perfurava pneus no Catar, parafuso solto na pista em São Paulo, bueiro que soltou em Las Vegas e por aí vai. Por falar em bueiro de Las Vegas, esse momento inóspito gerou mais tumulto: o atraso para correção dos problemas no traçado fez simplesmente o TL2 acontecer sem público. Portões fechados, em pleno 2023, como se fosse pandemia. Mas era ‘só’ alta madrugada e a necessidade de liberar a pista para a cidade usar assim que as atividades acontecendo. Quem teve essa brilhante ideia?

O paddock de Ímola, completamente alagado quando a F1 tentou correr lá (Foto: Twitter/Steffen Dietz)

Falando em brilhante ideia, temos de citar as sprints, né? Mais um ano com elas, mais um ano em que realmente não fizeram diferença. Até rendem algumas boas histórias, vitória de Oscar Piastri, pódio de Pierre Gasly, mas é muito pouco. É pouco para o efeito devastador que elas têm nos finais de semana: parque fechado todo antecipado e sem sentido, a reprodução quase que sempre exata do que vai ser visto no domingo. Tem graça isso?

Bom, fato é que precisamos nos acostumar. Na realidade, as sprints estão longe de uma unanimidade negativa e, no momento, muita gente já parece ter aceitado que elas estão aí e vão ficar. Tanto que a luta de equipes e pilotos é por adaptações no fim de semana, mudança na ordem das atividades, coisas assim. E vão ser seis corridas curtas de novo em 2024, junto de um calendário de nada menos que 24 etapas.

E é justamente isso que puxa o último e talvez mais importante ponto sobre a logística da F1 em 2023 e, claramente, no futuro: não há qualquer cuidado com a saúde dos envolvidos. A temporada que vem, nova recordista de etapas, vem com dobradinha entre Azerbaijão e Singapura, rodada tripla entre Las Vegas, Catar e Abu Dhabi e por aí vai. Como ficar saudável?

Presidente da associação dos pilotos, George Russell enfim foi vocal sobre o tema. Tudo bem, a organização basicamente não serve de nada, não tem peso algum, mas é alguém importante de se posicionar. O inglês disse que correu limitado fisicamente pela sequência insana de provas. E que tal Fernando Alonso, um dos maiores de todos os tempos, cogitando enfim se aposentar só por causa do cronograma insalubre?

Russell foi mais um a criticar o calendário “nada sustentável” da Fórmula 1 (Foto: Mercedes)

A Williams foi outra a dizer que a F1 tem “ultrapassado limites” com a expansão de corridas para abraçar o mundo, enquanto Russell, de novo, foi duro nas críticas. Segundo o piloto da Mercedes, as consequências sérias estão deixando marcas mesmo com a temporada já encerrada.

“Por causa das mudanças no fuso horário, minha frequência cardíaca durante a noite de sono é, em média, cerca de 25% mais alta do que seria quando estou em um local por mais tempo. Passei duas semanas em um mesmo lugar neste verão, o período mais longo que passei em três anos, e minha frequência cardíaca foi a mais baixa de todos os tempos”, relatou George.

É fato que a correria desordenada da F1 não faz bem a ninguém, especialmente aos pilotos e, claro, mecânicos, mas aí também estamos diante de algo que não parece perto de mudar. O dinheiro fala mais alto e ele tem berrado na categoria.

Com a temporada encerrada, a Fórmula 1 retorna apenas no ano que vem, no dia 2 de março, com a estreia do campeonato no GP do Bahrein.

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