Em modo carrossel, FIA promete ser perpétuo espelho de erros antigos para atrapalhar F1
Sequência de erros da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) no Bahrein mostra reflexo da maneira como decisões são conduzidas na presidência
O fim de semana da Fórmula 1 no Bahrein encontrou uma salada de enroscos nos quais a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) colocou pilotos e equipes. A repetição de histórias antigas e problemas vistos em passados recentes e a falta de confiança na própria tomada de decisões montam um quebra-cabeças explicado pelo carrossel de mudanças recentes numa federação tocada de maneira discutível.
A primeira lambança foi talvez a mais incompreensível, como se tivesse sido causada por gente que está conhecendo apenas agora os meandres das corridas. Nico Hülkenberg avançou ao Q2 da classificação, ainda no sábado, graças a uma volta que terminou deletada por desrespeito aos limites da pista. A percepção, em si, demorou um pouco — problema recorrente que fez, sob a antiga direção de prova, o órgão mudar a maneira de detectar os excessos desde meados do ano passado.
Mas esse nem foi o grande problema maior, ainda que seja uma questão. Se há um espaço entre o fim do Q1 e o começo do Q2 e diversos comissários para avaliar as ações, as voltas que valeram vaga têm de ser sempre avaliadas antes que os carros retornem para a fase seguinte.
A avaliação de que Hülkenberg estava fora das regras veio ainda com os carros na pista para o Q2, e o passo seguinte teria de ser automático: eliminar o alemão e dar a vaga ao dono das melhores voltas entre os que estavam fora. No caso, Alexander Albon. De maneira absolutamente juvenil, a direção de prova permitiu que Hülkenberg fosse até o fim do Q2 e, por conseguinte, impediu Albon de andar na pista.

Cerca de 40 minutos mais tarde, após o fim da tomada de tempos, martelo batido: volta eliminada de Hülkenberg e Albon subia de 16º para 15ª. Mas, claro, sem a chance de ir à pista para fazer algo melhor. O companheiro de equipe de Albon, Carlos Sainz, com o mesmo carro da Williams, conseguiu ir ao Q3 e terminar com a oitava posição do grid de largada. A chance de Albon ser melhor que 15º era evidente.
O segundo momento irritante do fim de semana de Sakhir foi logo na largada da corrida. Lando Norris se posicionou escancaradamente fora dos colchetes no momento da partida, uma punição que bastava alguém com dois olhos para averiguar, e mesmo assim o que surgiu nos primeiros minutos foi o aviso de que o incidente havia sido notado. Depois, sob investigação. Demorou 8 voltas, bem mais de 10 minutos de corrida, para que definissem a óbvia punição. Não rendeu nenhuma perda prática para a corrida, mas poderia ter. O fato de passar incólume pelo atraso quelônico foi apenas circunstancial.
Passemos um instante pelo safety-car, voltamos ao assunto mais tarde, para tratar da ida e volta da punição a Carlos Sainz. O espanhol da Williams foi penalizado inicialmente em 10s por conta de um toque com Andrea Kimi Antonelli, da Mercedes. A direção de prova comunicou que os comissários “analisaram os dados do sistema de posicionamento/monitoramento e evidências e vídeo no carro. Na entrada da curva 10, o carro %% travou as rodas dianteiras e subesterçou em direção ao carro 12, perdendo o apex e forçando o carro 12 a sair da pista. O carro 12 perdeu duas posições por isso”.
Até aí, tudo certo. Mais tarde, Sainz começou a ter problemas e terminou por abandonar a prova. O único abandono dentre os 20 pilotos. Antes de levar o bólido de volta à garagem, Sainz resolver agir junto da equipe. Foi aos boxes, cumpriu os 10s de punição e só depois abandonou.
Num golpe surpreendente, a FIA terminou a corrida expedindo uma punição de três posições no grid de largada no GP da Arábia Saudita por não ter cumprido a punição inicial. Incrível. Cerca de 10 minutos depois, comunicou que estava voltando atrás e retirando a punição posterior.
Decisões que demonstram uma FIA eternamente em busca da curva de aprendizado. Decidir o destinos da F1 é complicado e tem mais peso que em qualquer outro lugar do esporte a motor. Rui Marques, o diretor de provas desde a penúltima prova do ano passado, merece algum tempo para se entender com a realidade, bem como nosso oficiais que se juntem à FIA de tempos em tempos. A questão é que têm sido muitos e que trocam periodicamente.
Na semana passada, foi a vez do vice-presidente de esportes cair e deixar o cenário com apoio dos pilotos. É troca frenética de gente que toma decisões e de quem com elas delibera sobre erros e acertos, bem como os responsáveis por avaliações. George Russell, diretor da GPDA (Associação dos Pilotos da F1), voltou a falar sobre o cansaço com as muitas mudanças e que as coisas “não estão indo na direção certa”.
O maior problema de Marques, ao menos por enquanto, é não ter ao lado dele um grupo de trabalho com a experiência necessária para blindar os erros e acertos de um novato na categoria. O grupo troca peças freneticamente sem saber quem responde a quem, quem deve cobrar e com quem aprender. As decisões já tratadas refletem medo de errar que faz com que as coisas se definam de modo assustado.

Já o safety-car que mexeu com a corrida lembrou algo diferente. A prova estava na 32ª das 57 voltas de duração quando a direção de prova chamou o carro de segurança por conta de destroços na pista provenientes de um toque de Yuki Tsunoda em Sainz. Nada grave ou que tenha deixado a pista tão suja assim. Foram duas voltas apenas, mas que mudaram o rumo da prova e das estratégias, uma vez que todo mundo voltou junto aos boxes.
Não havia a menor necessidade de um safety-car. A cada novo diretor de provas que desembarca como um gaiato, a F1 enfrenta um período Nascar de criação artificial de uma briga entre carros próximos. É, de alguma maneira, algo que Niels Wittich, antecessor de Marques que tinha aprendido e evoluído muito ao longo dos três anos na direção – e que foi demitido contra a opinião dos pilotos e sem explicação clara diretamente pelo presidente da FIA – fez lá no começo.
Foi no GP da Austrália de 2023, quando tomou decisões forçadas para um emoção industrial no trecho final da corrida. O resultado foi uma relargada parada a quatro voltas do fim que não tinha o menor cabimento, era o desastre em verso e prosa pré-avisado, mas aconteceu assim mesmo. O resultado foi pancada por todos os lados. Ossos do ofício, e erros acontecem. Mas se sempre há alguém começando a se acostumar com a tomada de decisões, acontece mais vezes. Dá para entender de onde vem tais equívocos, mas a falta de tato da FIA para tocar as corridas da F1 parece arquitetada de tão trivial.
Enquanto não se acertar com a continuidade de processos e pessoas que atuam no dia a dia da tomada de decisões e supervisão na F1, a FIA está condenada e ser perpetuamente um espelho de erros do passado. Velhas histórias sempre à beira da esquina esperando para serem ressuscitadas como novas dores de cabeça.
A Fórmula 1 volta de 18 a 20 de abril em Jedá, palco do GP da Arábia Saudita, quinta etapa da temporada 2025.
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