Sainz sofre para extrair tudo de carro campeão da Ferrari. E já pode virar ‘segundão’
Enorme destaque na temporada 2021 da F1, Carlos Sainz parece não estar entendendo como se portar em um grande palco, com um carro campeão. Com a Ferrari finalmente atingido status de principal força do grid, o espanhol ainda não chegou para o campeonato e vai apresentando uma versão muito mais errática do que a usual. E Charles Leclerc vai escapando na frente
A temporada 2022 da Fórmula 1 ainda está começando, mas não é exagero dizer que, até aqui, Carlos Sainz é uma das principais decepções. Coberto de expectativas pela performance irretocável de 2021, o espanhol era tido como real postulante ao título e, após três etapas, já há quem tenha desistido de pensar assim.
Para começo de conversa, é justo dizer que ainda é cedo para ser tão taxativo assim. Em um campeonato de 23 etapas, chegar a qualquer conclusão após só três corridas é, acima de tudo, precipitado. Mas está na hora de Sainz acordar, isso é evidente. Os 38 pontos de desvantagem para Charles Leclerc não vão sumir sozinhos, afinal.
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Antes de tudo, para entender o que transformou Sainz em um dos grandes do grid, precisamos voltar algumas temporadas. Mais precisamente, vir contando a trajetória do espanhol de 2019 para cá. Filho de uma lenda do rali e promessa importante na base da Red Bull, Carlos demorou um pouco a se mostrar na F1. Foi não mais do que bom na Toro Rosso e na Renault, mas teve uma virada de chave impressionante na McLaren.

Contratado sob olhares desconfiados após perder de Nico Hülkenberg na Renault e de Max Verstappen na Toro Rosso, o espanhol deu seu recado desde o início na McLaren. Se era Lando Norris a aposta da equipe – e é até hoje -, Carlos não se fez de rogado e foi para cima, comandando o time em 2019 e 2020. Foi com Sainz que a McLaren voltou ao pódio e teve os melhores resultados. Foram dois top-6 categóricos no Mundial de Pilotos.
Tão impressionantes que chamaram a atenção da Ferrari, equipe mais vitoriosa da história da F1. Em 2021, lá estava Carlos ocupando a vaga do tetracampeão Sebastian Vettel, que deixava o time sem ter conseguido cumprir a meta de levantar um caneco por lá. A pressão em cima do espanhol era evidente, não apenas para manter a ótima forma da McLaren, mas porque substituiria Vettel e estaria ao lado de Leclerc, menino de ouro dos italianos e que, no fim das contas, foi escolhido no duelo direto com Seb. Não era nada fácil.
Mas Sainz foi lá e peitou de novo. O espanhol teve um 2021 de brilho intenso, foi ao pódio quatro vezes e ficou em quinto no Mundial de Pilotos, na frente, inclusive, de Leclerc. Era a confirmação do status que havia recebido pelos anos de McLaren, a certeza de que, com o carro certo, brigaria pelo título.
Só que o Carlos de 2021 ainda não chegou em 2022. O terceiro lugar parcial na classificação nem é tão ruim assim, mas a pontuação fica bem aquém. É que Leclerc já tem 71 pontos, 38 a mais que o espanhol. Com o mesmo carro, a coisa começa a ficar complicada. E são em horas assim que o piloto vai errando em demasia, como aconteceu na Austrália.

No Bahrein e na Arábia Saudita, ainda que Leclerc tenha sido melhor na classificação e na corrida, Sainz não foi destroçado. Fez dois pódios, somou bons pontos, se colocou no jogo. Em Melbourne, porém, tomou um sonoro 0x26, com abandono e vitória do companheiro. E passou a ser, naturalmente, mais questionado. Afinal, será que o espanhol não está pronto para o passo adiante que representa disputar um título de verdade?
Mais até do que as corridas – e aí nem vale colocar Austrália, foi uma largada desesperada, pneus errados, problema no volante, enfim, um dia atípico -, mas é na classificação que o problema mais grave parece se encontrar. Ainda que só em Melbourne a posição de largada tenha sido trágica, Carlos teve o mesmo roteiro nas três provas: errou em todas as voltas finais do Q3.
Ou seja: a chance de ser pole esteve sempre lá, mas escapou na hora ‘H’ do mesmo jeito. No Bahrein e em Jedá, foi o mais rápido na primeira tentativa e, quando os rivais melhoraram na segunda, cometeu erros. Ainda assim, ficou nas duas primeiras filas do grid, no bolo. Na Austrália, uma bandeira vermelha causada por Fernando Alonso anulou a primeira tentativa de Sainz e aí, só com a última tentativa, deu ruim: errou de novo e ficou em nono.
Pode ter sido só coincidência, é claro, mas espanta o fato de Carlos ter cometido erros nas mesmas horas, nas três classificações. Será que, finalmente, o ‘Smooth Operator’ sentiu a pressão? É uma nova realidade, afinal, uma temporada em que pode finalmente vencer corridas e até disputar o título.

Só que para que isso ainda possa acontecer, Sainz precisa urgentemente virar a chave. Ainda restam 20 provas, verdade, mas a distância para Leclerc começa a ganhar contornos de irrecuperável. E o espanhol sabe bem disso: a partir de agora, é vencer ou vencer.
“O importante é que eu aprendi com isso, e nós como time também aprendemos. Para ser mais perfeitos, mais fortes, mais robustos em todos os aspectos, e manter na cabeça que ainda há 20 corridas e tudo pode acontecer. Só podemos utilizar este final de semana para nos fortalecer, ter certeza de que aprendemos com isso para ter 20 corridas perfeitas”, disse o piloto da Ferrari após a frustração na Austrália.
Sainz não ficou ruim do dia para noite e tampouco vai ser crucificado caso perca o título de 2022 para Leclerc ou para quem quer que seja. No entanto, o espanhol sabe bem que a oportunidade pode ser única, que o sonho da carreira nunca esteve tão factível. É hora de acordar e talento não lhe falta para voltar aos eixos e desafiar o companheiro sensação do campeonato.
Caso não acorde, a realidade baterá à porta muito em breve. Ainda mais se tratando da Ferrari, é crucial não dar brechas para ser tratado como segundo piloto. É também por isso que a resposta nas pistas precisa ser tão imediata.
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