F1

Coluna Warm Up, por Flavio Gomes: Sir Chapman

Só que tem uma única equipe que não gasta tanto os pneus. A sua. Ou ex-sua. A Lotus, enfim. Fizeram um carro acertadinho, equilibrado, contrataram um piloto muito bom e o resultado é que ele consegue fazer as corridas com uma parada a menos. Mas as outras começaram a chiar e os caras que fabricam os pneus resolveram mudar tudo. Acho ótimo, porque passaram do ponto. Mas o cara que hoje toca sua equipe, ou sua ex-equipe, a Lotus, enfim, não gostou

Warm Up / FLAVIO GOMES, de São Paulo

Ou devo chamá-lo só de Colin? Nem sei se você ganhou o título de “sir”. Mas vá lá. “Sir” é uma forma respeitosa de se dirigir aos ingleses. Quando a polícia prende um bandido na Inglaterra, por pior que ele seja, chama-o de “sir”. “Tem todo o direito de ficar calado depois de esquartejar sua esposa, sir.” Lá todo mundo é “sir”. “Thanks, sir.” É chique, a Inglaterra.

Mas você não vive na Inglaterra faz tempo e consta que anda pelos nossos lados. Não sei se é verdade, nunca vi. De qualquer maneira, tenho certeza que já sabe que em 2010 meteram uma equipe com o nome da sua na F1 de novo. E depois teve um ano em que, na falta de uma, duas correram como Lotus!

Agora tem uma só, a primeira mudou de nome, é meio confuso. E essa nova lembra um pouco a sua. Fizeram um carro preto com uns detalhes dourados. Você se lembra bem. Por mais que lá nos anos 60 o British Green fosse uma coisa linda, foi com o preto e dourado que o mundo conheceu a Lotus, já com as corridas transmitidas pela TV e tal. Fotos suas jogando a boina para o alto com o preto-dourado recebendo a bandeirada correram o planeta. Nasceu uma lenda.

Pois é, essa Lotus, que usa também o logotipo que você criou, aquelas letras ABC que nunca sei direito o que querem dizer, é um espanto. Voltou a ganhar corrida no ano passado, ganhou de novo neste ano, tem subido ao pódio com frequência, faz um trabalho de marketing excepcional, divertido, moderno, usa as redes sociais com maestria, enfim, honra o nome.

(Não sei se você usa redes sociais, nem se tem acesso a elas aí onde está vivendo, mas deve saber do que se trata, também. Então, nem vou explicar o que é.)

Neste ano, o campeonato está muito esquisito. Fizeram uns pneus que se desmancham no ar e os caras têm de parar no box a cada seis ou sete voltas. Uma coisa de maluco. Domingo passado o Alonso, um espanhol, venceu em Barcelona com quatro pit-stops. Ele corre pela Ferrari, que é a mesma da sua época, continua vermelha e tal. A pista de Barcelona é outra, acho que você não conheceu. Mas eu falava do lance das pradas, e você sabia que hoje se troca pneu muito rápido, em menos de três segundos? É um negócio muito doido. Bloody fucking crazy. Mas isso está transformando os GPs numa confusão danada.

Só que tem uma única equipe que não gasta tanto os pneus. A sua. Ou ex-sua. A Lotus, enfim. Fizeram um carro acertadinho, equilibrado, contrataram um piloto muito bom e o resultado é que ele consegue fazer as corridas com uma parada a menos. Mas as outras começaram a chiar e os caras que fabricam os pneus resolveram mudar tudo. Acho ótimo, porque passaram do ponto. Mas o cara que hoje toca sua equipe, ou sua ex-equipe, a Lotus, enfim, não gostou.

É compreensível. O pneu é o mesmo para todo mundo. Se tem um que consegue gastar menos que o outro, palmas para ele. Azar de quem gasta mais. Mas andam dizendo que houve pressão de algumas equipes e que no fim das contas quem vai se dar mal nessas é a Lotus. Mudar a regra no meio do jogo é sacanagem, argumenta o chefe.

Concordo com ele, mas o negócio agora é sacudir a borracha e dar a volta por cima. Se os caras, com os novos pneus, vão parar três vezes, quem sabe a Lotus não consegue parar duas? Acredito que um carro que gasta menos pneu com borracha X deve gastar menos também se a borracha for Y. Não é assim?

Não, não é assim, eu sei. Claro que tem muito mais nesse céu aí do que apenas aviões de carreira. A relação carro-borracha tem a ver com a construção dos pneus, com forças laterais, com temperatura, com força da gravidade, com velocidade dos ventos, com derretimento da calota polar, buraco na camada de ozônio, com um monte de coisa. Não é uma mera questão mais duro/mais mole. A vantagem que sua Lotus teve nas cinco primeiras corridas do ano provavelmente não terá mais a partir do GP do Canadá.

Paciência, Colin. Ou Xap-Xap, que é seu apelido aí onde você vive — me contaram que é assim que te chamam por aí, e disseram inclusive que tem um boteco lá na vila que batizou uma mistureba de cachaça com Contini e canela de Xap-Xap, em sua homenagem. Você sempre inventou moda, foi um gênio incompreendido e combatido, criou muita coisa que ficou na história da F1. Não seria diferente agora com sua Lotus, mesmo você tendo se distanciado um pouco das atividades da firma, até onde a gente sabe.

Ou será que esse negócio de gastar pouco pneu tem seu dedo, também?

Tem?

Bom, então conta aí, só pra mim: qual vai ser a próxima? Andar sem asa?