Contratos longos na F1 acendem alerta para renovação de grid e papel das academias

Não que as renovações de Charles Leclerc e Lando Norris com Ferrari e McLaren, respectivamente, tenham sido um erro, mas a falta de clareza quanto à longa duração dos contratos lança questões sobre quais são as reais chances na Fórmula 1 para os novatos que aguardam numa fila cada vez mais sem fim

Antes de tudo: de maneira alguma, as renovações tanto de Charles Leclerc com Ferrari quanto de Lando Norris com McLaren foram um equívoco, muito pelo contrário. Trata-se indiscutivelmente de dois dos melhores pilotos da safra atual do grid da Fórmula 1 e já possuem a experiência e a confiança necessária dos seus respectivos times para a caçada à Red Bull, sobretudo com a mudança de regulamento que acontecerá daqui a dois anos. Não haveria, portanto, razão para se desfazer de dois nomes assim.

Há, porém, o outro lado da moeda, e o primeiro sinal foi dado ao final do ano passado, quando, pela primeira vez na história, todas as equipes que ainda possuíam vagas abertas optaram pela manutenção do line-up do jeito que estava. Candidatos aos assentos, em contrapartida, não faltavam, mas por alguma razão achou-se que ainda não era o momento para nomes como Felipe Drugovich e Théo Pourchaire — respectivamente, os campeões da Fórmula 2 em 2022 e 2023.

É claro que esses dois, especificamente, não se encaixam nos cenários nem de Ferrari, nem de McLaren, até por pertencerem a programas diferentes. São apenas um exemplo do engessamento sem sentido do grid de 2024. Mas sobre Leclerc e Norris, o que mais chama a atenção nos anúncios das extensões de vínculo é a falta de clareza quanto à duração dos novos contratos. São “multianuais”, por mais que existam cláusulas de desempenho que liberem lado A ou lado B. Isso, na verdade, pouco importa.

O caso aqui é que esses elos quase vitalícios acendem um alerta sobre duas questões que estão interligadas: o papel das academias e o processo de renovação do grid da principal categoria de monopostos do esporte a motor mundial.

Lando Norris e Charles Leclerc com contratos “multianuais”. E a renovação do grid? (Foto: AFP)

No caso da McLaren, há Oscar Piastri no outro assento, jovem que antes pertencia à Alpine e tratou de fazer seu ‘corre’ ao perceber que havia clara possibilidade de ficar mais um ano parado após conquistar o título da F2 em 2021. A diferença aqui é que o australiano provou ter sido uma aposta certeira para Woking, tanto que a cúpula inglesa tratou de oferecer mais um contrato. Ao menos até 2026, se não houver nenhum problema pelo meio do caminho, Piastri fica na McLaren.

Só que Norris é a grande estrela, a aposta maior e o cara que a própria equipe inglesa deixou claro que faria o possível para segurar. O antigo acordo era até o final de 2025. Agora, pode ser até maior que o de Max Verstappen com a Red Bull, que terminará somente em 2028.

Vamos agora para o lado ferrarista. Já era esperado uma renovação com Leclerc, nas palavras do próprio Frédéric Vasseur, o chefe da escuderia de Maranello. E com Carlos Sainz também, embora ainda não anunciada. Ao menos para 2025, os planos da Ferrari é não mexer nos pilotos, mas enquanto o espanhol precisa mostrar que merece ficar com o time italiano de 2026 em diante, Leclerc está garantido “a longo prazo”. A imprensa italiana fala de acordo até 2029!

Que fique claro mais uma vez que são movimentos compreensíveis quando se têm nas mãos as maiores promessas e um regulamento novo à vista. Mas qual, afinal, é o caminho que deverá ser trilhado pelos jovens que estão na academia da Ferrari e no programa da McLaren? Oliver Bearman foi um dos melhores novatos da F2 2023 e deve ser candidato ao título deste ano. Além disso, impressionou bastante a Haas nos treinos livres em que participou, mas ainda que pule para a F1 ano que vem com a equipe americana (num quadro totalmente hipotético), não seria a primeira opção de Maranello para uma suposta vaga deixada por Sainz. Sem dúvida, a Ferrari procuraria primeiro alguém mais experiente no grid — o que também não seria surpresa, pois já se falou de Alexander Albon na mira dos italianos, por exemplo.

A McLaren, por sua vez, trouxe o campeão vigente da Fórmula 3, Gabriel Bortoleto, para o seu programa. Ótimo para o crescimento de Gabriel, que vai competir na F2 este ano, mas a realidade é que será muito mais uma vitrine do que uma escada que o levará direto para a McLaren na F1 — ao menos a médio prazo.

Gabriel Bortoleto agora é da McLaren e precisa aproveitar vitrine (Foto: Rodrigo Berton/Warm Up)

A resposta, na verdade, talvez esteja justamente em compreender que a ligação com as academias e programas de pilotos funciona muito mais atualmente como grandes vitrines do que como um preparo para que tais jovens sejam os próximos da fila nessas respectivas equipes. É cada vez mais o caso, por exemplo, do Red Bull Junior Team. Ano passado, foram nada menos do que seis integrantes da academia no grid da F2 — entre eles, Enzo Fittipaldi. Para 2024, apenas Isack Hadjar e o novato Josep María Martí vestirão as cores da Red Bull. Só que não é também segredo para ninguém que em Milton Keynes, a preferência caso Sergio Pérez dance ao final do contrato é o veterano Daniel Ricciardo. E considerando que Helmut Marko preferiu Nyck de Vries a qualquer outro para a finada AlphaTauri, não há nenhuma garantia para esses jovens.

É a forma, aliás, como Drugovich parece entender como funciona o atual esquema, por isso não arreda pé do círculo da F1, por mais que as portas na Aston Martin ainda pareçam fechadas, pois Lance Stroll sequer deve assinar papéis por ser o filho do dono, enquanto Fernando Alonso desafia a lógica e parece mais jovem e competitivo à medida que envelhece. Ano passado, o brasileiro tentou buscar vaga onde era possível, mas não deu. E a estratégia deve se repetir esse ano.

Analisando por esse lado, por mais que a verdadeira razão não tenha sido essa, faz sentido quando a Williams defende a contratação de Logan Sargeant por ser “da academia”, afinal, é para isso que o programa existe. E na prática, realmente deveria ser assim em todas por uma questão de justiça.

Fórmula 1 retorna às pistas de 21 a 23 de fevereiro, com os testes coletivos da pré-temporada no Bahrein, no circuito de Sakhir.

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