Ex-médico-chefe da F1 se diz "totalmente destruído" com "prognóstico sombrio" de Bianchi

Gary Hartstein, médico-chefe da F1 entre 2005 e 2012, explicou que a lesão axonal difusa é sempre ligada a prognósticos cruéis e que tem como principal característica o inchaço generalizado do cérebro sem hematomas específicos

Médico-chefe da F1 entre 2005 e 2012, o Dr. Gary Hartstein escreveu um artigo logo após o boletim médico de Jules Bianchi, divulgado pela Marussia, na manhã desta terça (7). No artigo, Hartstein explicou do que se trata a lesão axonal difusa – DAI -, severa contusão cerebral que Bianchi sofreu durante o GP do Japão.
 
De forma didática, o médico explicou e reforçou em seu blog que as notícias não são animadoras para o piloto de 25 anos. Segundo o especialista, a DAI se caracteriza pelo inchaço generalizado sem aparentes hematomas.
 
"Quando um paciente faz uma tomografia, algumas vezes nos surpreendemos que nossos próprios pacientes em coma têm um resultado incrivelmente "normal". Quando o exame aponta um inchaço generalizado sem lesões neurológicas focais significativas, como hematomas, falamos de lesão axonal difusa, a DAI. Nós odiamos quando isso acontece. É um exame intocado, com um paciente em coma muito sério", explicou.
O atendimento do grupo médico a Bianchi durante o GP do Japão (Foto: AFP)
"Numa separação de termos: Difuso: diferente de hematomas, que por definição ocorrem em um certo local, usando imagem convencional, a DAI não mostra qualquer local específico de dano. Obviamente, isso não é exatamente boa notícia, porque vai contra a sistematização dos sintomas do paciente, também torna a recuperação mais complexa, etc", disse.
 
"Axonal: os axônios são cabos da célula nervosa. Eles são cabos isolados que servem para conduzir os impulsos nervosos mais rápido, então estão cobertos em uma membrana gordurosa, tornando-os esbranquiçados. Quando você agrupa muitos axônios, tem massa branca. Os corpos celulares das células nervosas (neurônios) são cinza. Então, quando você coloca um monte de corpos de células nervosas juntas, você tem massa cinza", prosseguiu.
 
"A DAI parece danificar a massa branca do cérebro. O cabeamento. De novo, isso não é bom, já que são os cabos que permitem o processamento de informações de maior nível alcançando várias áreas cerebrais, como visuais e auditivas. Você vê o que está sendo dito, escuta o que está sendo falado, mas o que permite a compreensão são as áreas associativas do cérebro, que fundem e integram as informações. É esse processo que é facilmente interrompido pela DAI. Isso vai ser muito confundido ao inchaço cerebral, pelo menos no começo", exemplificou.
 
Após a explicação, o médico disse que a lesão é sempre ligada a prognósticos cruéis, mas elogiou os especialistas tratando de Bianchi e dá uma mensagem de incentivo.
 
"Estou totalmente destruído e entristecido. A DAI normalmente é associada a prognósticos sombrios. Jules é jovem, forte e está sendo tratado por uma excelente equipe. Vamos, Jules. Vença", encerrou.

O acidente



Na volta 43 do GP do Japão, Jules Bianchi perdeu o controle do carro na curva 7 devido a aquaplanagem e, depois de escapar do traçado, acabou se chocando contra um trator que fazia a retirada da Sauber de Adrian Sutil, que saíra no mesmo ponto, mas na volta anterior. A pancada foi violenta, com força estimada de 50 G, já que a Marussia #17 vinha a 203 km/h.

O piloto foi atendido ainda na pista, encaminhado imediatamente para o centro médico da pista e, alguns minutos depois, para o hospital, na cidade de Yokkaichi, que fica a 10 km do circuito de Suzuka. Estava inconsciente, mas respirava sem ajuda de aparelhos. Rapidamente, foi submetido a uma cirurgia para minimizar um grave hematoma craniano, em operação que teve quatro horas de duração. Desde então, Jules permanece internado na UTI e seu estado é crítico.

Aos 25 anos de idade, Bianchi está em sua segunda temporada na F1, as duas pela Marussia, e é considerado o principal nome do programa de desenvolvimento de pilotos da Ferrari.

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