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F1

Heroica, Force India supera falência sob nova direção, sobrevive e vai para cima de Renault e Haas

A Force India foi competitiva. Chegou ao pódio após um começo lento, marcou bons pontos e se colocou em condições de ameaçar Renault e Haas - e ficar à frente da McLaren - na disputa pelo quarto posto do Mundial de Construtores. Tudo isso aconteceu em grave crise financeira que culminou na declaração em falência. Agora comprada por um consórcio liderado por Lawrence Stroll, a Force India pode buscar resultados e deixar o heroísmo de lado

Warm Up / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
A temporada 2018 da Force India é cheia de elementos que, como água e óleo, não deveriam se cruzar. Mesmo assim, se cruzam e terminam numa resolução tremendamente incomum. A equipe viveu crise tamanha até chegar à falência, mas ainda está mais perto do topo das equipes meras mortais do que fim da fila. A guerreira Force India sobrevive, muda e agora projeta um futuro diferente.
 
O princípio da temporada 2018 não foi tão diferente dos últimos dois anos em termos de expectativa para a equipe anglo-indiana: a crise financeira tem sido uma constante, mas a equipe de trabalho tem uma continuidade invejável. A pré-temporada mostrou uma equipe em marcha lenta - um pouco pior que nos anos passados, mas nada drástico.
 
Conforme a notícia de que a Justiça inglesa passava enfim a contemplar acatar o pedido de extradição de Vijay Mallya de volta para a Índia, a situação passou a ser mais e mais dramática. Pista à parte, o caos financeira foi se tornando mais e mais inconfortável até que, antes do GP da Hungria que encerrou a primeira parte da temporada, houve a decisão: a equipe estava entrando em situação de insolvência e cortando de vez os laços com Mallya. 
 
Ainda que - como o GRANDE PRÊMIO revelara pouco antes - o magnata indiano já não atuasse de verdade como dono nos dois meses anteriores, a decisão de fato fez com que Mallya não pudesse mais agir como tal.
Sergio Pérez (Foto: Force India)
Situação financeira causada pelo dono à parte, a equipe diretiva, esportiva e de pilotos foram mantidas. Embora o começo do campeonato tenha sido difícil, com apenas um ponto nas três primeiras corridas, logo veio um pódio com Sergio Pérez no GP do Azerbaijão. Tudo parecia consideravelmente de volta ao lugar. 
 
Enquanto isso, a Williams agonizava; a Toro Rosso, com seus altos e baixos de uma parceria até que razoavelmente bem-sucedida com a Honda até agora, ficava bem atrás; a Sauber, embora em melhores condições, nem se aproximava. E a McLaren, que deu indicações de que poderia ser forte, despencou.
 
Alguma corridas depois, a Force India tinha seu navio sob controle. Não mais como a quarta força do Mundial que foi nos dois anos anteriores - um feito sempre digno de nota -, mas mostrava condições claras de brigar com Renault e Haas. Hoje quarta força com certa vantagem, a Renault tem 23 pontos a mais que a Force India. Uma diferença construída no início ainda claudicante dos rosas. Nas quatro corridas mais recentes - Áustria, Inglaterra, Alemanha e Hungria -, a Renault fez 20 pontos contra 31 da Force India. É uma briga viva entre as duas e a Haas pelo quarto posto.
 
A parada para as férias com este cenário. Uma corrida até problemática na Hungria, mas uma sequência positiva de resultados enquanto a equipe estava falida. A falência, aliás, foi decretada após a companhia de Pérez entrar com uma ação legal na Inglaterra. A equipe devia Pérez, que passou, com apoio de Mercedes e BWT, a tentar tomar o controle legal da equipe. O futuro da Force India passou a ser uma dúvida ainda maior a partir da pergunta 'quem vai comprar?'.
 
“O último mês foi extremamente difícil para mim com a situação que estávamos vivendo na equipe e, no fim das contas, acabei no meio disso. Nós chegamos ao ponto em que uma ação era necessária para proteger as 400 pessoas que trabalham lá. Realmente, não gostaria de me envolver nisso porque, em última análise, eu sou apenas um piloto e estou aqui para guiar o carro. Mas o que aconteceu foi demais”, afirmou o piloto mexicano.
Sergio Pérez (Foto: Force India)
“Alguns membros da equipe me pediram para seguir em frente com isso [o pedido de falência], para salvar a equipe e proteger os 400 funcionários que estão lá. Para mim, foi algo extremamente difícil, emocionalmente e mentalmente. Foi realmente complicado. Havia 400 pessoas com os empregos em risco, pessoas que têm famílias. Vocês não conseguem imaginar”, falou. 
 
No fim das contas, em meio às férias, a resposta foi buscada com o próprio auxílio do conselho diretivo da equipe. Foram bater na porta de Lawrence Stroll e alguns parceiros milionários do canadense. Deu certo. Um consórcio formado por sete pessoas e encabeçado por Stroll conseguiu dar as garantias cobradas pelos administradores judiciais e compraram a Force India.
 
"Esse investimento garante o futuro da Force India na F1 e também permite que nossos pilotos consigam competir e mostrar todo seu potencial. Estou muito satisfeito que tivemos o apoio de um consórcio de investidores que acreditou na gente e que viu no nosso time potencial comercial para hoje e também para o futuro na F1", afirmou Otmar Szafnauer, diretor de operações.
 
"Nós da Force India sempre mostramos conhecimento e comprometimento e sempre conseguimos ir além do nosso tamanho. Agora, esse novo investimento nos faz crer que temos um futuro brilhante pela frente. Também queria agradecer ao Vijay, ao grupo Sahara e à família Mol por todo suporte e por terem trazido a equipe até aqui mesmo com todas as dificuldades", seguiu.
Lance com Lawrence Stroll (Foto: Reprodução)
As dívidas já estão sendo pagas, de modo que a equipe pensa em atualizações para o GP da Bélgica - se não der tempo para atualizar em Spa, será então no GP da Itália.
 
Agora a Force India pode seguir o campeonato pensando em brigar com Renault, Haas e McLaren pelo posto de quarta força. A única dúvida que resta está na escalação dos pilotos. A permanência de Pérez parece muito provável, enquanto Lance Stroll, filho do novo dono, é uma aposta quase certa. Caso esse novo desenho se confirme - e o indício é que aconteça -, sobra Ocon. Resta saber se a mudança aconteça no meio desta temporada ou apenas para o ano que vem.
 
Seja como for, o desempenho da Force India até agora, segurando as pontas de uma crise sem precedentes enquanto disputa a ponta da 'F1 B' é absolutamente heroica. Resta saber como será a segunda metade agora que a situação financeira já não é tão dramática.