Stroll dá resposta madura e tem começo ‘de herói’ em temporada mais importante na F1
Lance Stroll superou as dúvidas sobre se correria ou não no Bahrein, participou e foi muito bem, obrigado. É a maneira ideal de começar a temporada que tem condições de mudar tudo para ele
No meio de tantas dúvidas sobre a participação de Lance Stroll na abertura da temporada 2023 do Mundial de Fórmula 1, as discussões ficaram todas do lado de fora da Aston Martin. Dentro, havia certa clareza quanto a uma coisa: se fosse aprovado nos testes médicos da FIA, correria. Passou, correu e saiu de Sakhir maior do que chegou. Foi um começo de epopeia para dar partida ao que é, de longe, a temporada mais importante de Stroll na F1.
O cenário de fundo é bem conhecido, porque foi o grande assunto das duas semanas anteriores ao começo do campeonato: Stroll se acidentou durante um treinamento de bicicleta na Espanha no dia 18 de fevereiro, 15 dias antes da temporada começar. Lesionou os dois punhos e o dedão do pé, tudo com fratura, além de outras escoriações pelo corpo. De cara, o martelo foi batido: estava fora dos testes de pré-temporada.
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O tratamento para as lesões foi cirurgia no punho o mais rápido possível, dois dias depois. As previsões médicas apontavam que o punho sararia o bastante para retomar o espaço dele dentro do cockpit do carro somente em 2 de abril, na terceira corrida da temporada. Mas Lance insistiu. Foi para a fisioterapia imediata. Também valeu para ele o fato de encontrar uma equipe disposta a esperar.

A Aston Martin deu o carro para Felipe Drugovich em dois dos seis turnos de testes, mas avisou que esperaria até ser possível. Assim, dois dias antes do começo dos trabalhos do fim de semana de corrida, Stroll viajou. No dia seguinte, fez os testes médicos da FIA — e foi aprovado.
Mas tinhas mesmo condições? O silêncio ao longo dos dias era respondido apenas com “trata-se de questão particular”, mas foi ganhando respostas enquanto o fim de semana avançava.
“Era um assunto particular, eu já estava lidando com muito. Muita coisa estava acontecendo, eu ia para cirurgia, eu lidava com recuperação. Não tinha uma resposta clara de quanto tempo demoraria para recuperar, e eu estava focado e motivado em chegar no Bahrein, que era onde minha cabeça estava”, falou inicialmente.
“Foi apenas uma pequena cirurgia no meu pulso direito, e machuquei o esquerdo [também]”, reforçou após acelerar o carro. “Foi um doloroso acidente: eu simplesmente voei da bicicleta e caí muito forte. É isso, e eu basicamente fiz de tudo para voltar à forma, para voltar ao grid. O médico e meu fisioterapeuta foram incríveis e graças a eles estou aqui no Bahrein”, contou mais tarde.
“Tem sido muito louco. São exatas duas semanas desde meu acidente, 12 dias desde a cirurgia e uma semana desde que eu saí do hospital. Não dava para mexer minhas mãos, andar, quebrei o dedão do pé… Estar na abertura da temporada era uma luz bem distante no fim do túnel”, comentou.
E, uma vez aprovado, tomou a pista. Logo nos primeiros metros de pista, um problema de ignição fez o carro parar. A sexta-feira de treinos livres terminaria dramaticamente, com Stroll dizendo no rádio que não tinha condições de fazer certo movimento com o carro que a equipe pedia e, no fim, precisando de ajuda para sair do cockpit.

Mas o carro era bom, e o rendimento acompanhava, embora não fosse o mesmo de Fernando Alonso. Na classificação, o oitavo lugar para fechar o ciclo de quatro equipes acima das outras: Red Bull, Ferrari, Mercedes e justamente a Aston Martin. Faltava a corrida. No domingo, Lance provou que estava apto: andou bem, ultrapassou e tomou a posição de George Russell no caminho e terminou no sexto lugar, contando ainda com o abandono de Charles Leclerc. Isso após se tocar com Alonso na largada, mas a quase lambança fica em nota de rodapé porque acabou não dando em nada.
“Lance foi meu herói hoje. Desempenho incrível dele!”, exaltou Alonso, no rádio, logo após o fim da corrida.
“Meus pulsos estavam pegando fogo e eu meio que derramei algumas lágrimas”, admitiu assim que a corrida terminou.
Stroll ganhou mais duas semanas para recuperar antes do GP da Arábia Saudita. Mais que os oito pontos do sexto lugar, ganhou respeito geral no paddock por ter resistido e voltado. Não é segredo como a cultura do suportar dor é reverberada entre os pilotos. Terminar como o “herói” de Alonso é uma forma de enxergar que certamente não foi apenas do bicampeão.
Foi a maneira de perfeita de começar aquela temporada que tem tudo para ser a mais importante da carreira: o canadense está na sétima jornada no grid da Fórmula 1 e ainda é lembrado como piloto pagante mesmo após ser pole e ir ao pódio em momentos diferentes da carreira. Agora, finalmente, tem um carro espetacular em mãos, como esperado há alguns anos.
Andar lado a lado com Alonso é um desafio, claro, porque se trata de um dos pilotos mais talentosos que a F1 já viu. Mas aproveitar o ótimo carro e se colocar de vez nas brigas com os principais nomes do grid fará milagres pela maneira como é enxergado. Resta saber se quando a epopeia acabar e a história de superação virar memória, o Lance Stroll puro, simples e inteira será capaz de embarcar no momento e mudar de patamar.
A Fórmula 1 continua a temporada com o GP da Arábia Saudita, no circuito de rua de Jedá, entre os dias 17 e 19 de março.
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