Maior condescendência da Red Bull com Albon tem motivo: Mercedes

Em outros tempos, o desempenho irregular de Alex Albon já estaria entre as principais queixas públicas de Helmut Marko, o intolerante consultor da Red Bull. Só que, em 2020, a equipe austríaca parece ter adotado uma paciência incomum com o jovem, mas isso tem uma razão e prazo de validade

Tolerância e paciência não são exatamente qualidades de Helmut Marko, o temido consultor e responsável pela formação das duplas de pilotos tanto de Red Bull quanto de AlphaTauri na Fórmula 1. Conhecido pelo rigor com que trata seus escolhidos e pela pressão que impõe por resultados, o austríaco já deixou muita gente pelo caminho ao longo dos anos. Há quem diga que a extrema severidade de Marko o fez cometer alguns erros irreparáveis de avaliação – talvez o mais famoso deles tenha sido com Sébastien Buemi. Dispensado ainda na Toro Rosso, o suíço se mostrou um competidor exuberante em outras categorias, conquistando títulos no Mundial de Endurance e na Fórmula E. O fato é que Helmut tem habilidade única para descobrir novos talentos, mas também cobra na mesma medida. Daniil Kvyat e Pierre Gasly que o digam. Não por acaso o programa de jovens chefiado pelo ex-piloto ganhou o singelo apelido de moedor de carne. Só que, em 2020, há uma postura incomum nos boxes da Red Bull: Alex Albon parece viver sob uma interessante capa de proteção que em nada lembra o intransigente homem forte da marca de Dietrich Mateschitz. E isso tem muito a ver com a Mercedes.

Como dito, Marko não gosta muito de esperar por adaptação ou acúmulo de experiência. O austríaco segue a linha do vai ou racha. Daí não é surpresa alguma notar que Max Verstappen tomou para si a equipe das latinhas. Rápido, mentalmente forte e consistente, o holandês conquistou a garagem e massacra seus companheiros de equipe. Daniel Ricciardo, que dividiu a Red Bull com Max entre 2016 e 2018, não pode com o rapaz e preferiu trilhar seu próprio caminho. Aí a esquadra resolveu alçar a titular o jovem Gasly, que havia demonstrado desempenho sólido no time B. A aposta foi como a feita em Casas de Apostas Legais em Portugal: válida. Acontece que o francês encontrou enormes dificuldades com o carro taurino e, com uma performance aquém, acabou rebaixado, mas sem antes sofrer com críticas públicas e cobranças de Marko.

Pierre Gasly e Daniil Kvyat dividem a AlphaTauri em 2020 (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

Helmut foi implacável com Pierre. As queixas falavam sobre o desempenho, erros e até reclamações do piloto sobre o carro, com o qual não se adaptava. Gasly perdeu o cockpit da Red Bull logo após o fim da primeira parte do campeonato passado. Naquele momento, com 12 etapas disputadas, o jovem gaulês sustentava uma desvantagem de 118 pontos para Verstappen. Era muita coisa na frieza dos números, mas também era o primeiro ano como titular na equipe A dos energéticos. Marko não quis dar tempo e decidiu trocar Pierre por Albon. E o anglo-tailandês se apresentou muito bem, na verdade. Fez uma metade de temporada sólida e surpreendente, conquistou pontos e exibiu a todos uma de suas melhores qualidades: a ousadia nas ultrapassagens. Quase foi pódio no Brasil, acabou impedido pelo incidente com Lewis Hamilton. De toda a forma, Alex pareceu não sentir a pressão de compartilhar o time com Max.

Por isso, ganhou novo voto de confiança e seguiu na esquadra em 2020. Só que essa temporada tem sido singular, não só pelo atraso no início, por causa da pandemia, mas também pela forma como a Red Bull se apresenta, além do domínio inconteste da Mercedes. O RB16 é um carro arisco, de alto rake (diferença de altura entre a parte dianteira e traseira do carro) e que não sofre demasiadamente com o desgaste de pneus. Mas ele é feito para o estilo de pilotagem de Verstappen, que possui características muito particulares. E Albon vem tendo dificuldade de acompanhar o colega de equipe, embora tenha cometido lá seus errinhos, como na Áustria, com o mesmo Hamilton. Além disso, seguidamente, se viu em provas de recuperação, algumas forçadas por estratégias da Red Bull, é verdade. No entanto, neste momento, a diferença para Max está em 55 pontos, sendo que o holandês ocupa a vice-liderança em uma temporada altamente comandada pelos carros pretos. A distância para o companheiro e a falta de um pódio já seriam razões suficientes para flambar o jovem publicamente – em situação muito semelhante a de Gasly, inclusive.

Só que, ao contrário do que aconteceria em outros tempos, a irregularidade de Alex não vem sendo questionada e nem sequer é alvo de críticas dos homens da Red Bull. Albon desfruta de uma rara fase ‘paz e amor’ de seus superiores. O chefe Christian Horner entende que o piloto está em uma das posições mais difíceis da F1, uma vez que divide a equipe com Verstappen. “Nós vemos nos domingos que a pilotagem dele [Albon] é muito forte”, disse Horner, entrevistado pelo podcast F1 Nation. “Acho que é questão de tempo até que tudo se encaixe para ele, mas acho também que essas são as duas vagas mais difíceis na F1, sendo companheiro do Max [Verstappen] ou do Lewis [Hamilton]”, seguiu.

Christian Horner e Alex Albon (Foto: Red Bull Content Pool)
A Red Bull protege Albon de críticas como poucas vezes protegeu seus pilotos (Foto: Red Bull Content Pool)

“Ir contra Max, que pode ser considerado o piloto mais forte da Fórmula 1 no momento, seria difícil para qualquer piloto. E o Alex ainda é muito jovem e inexperiente, está apenas na quinta corrida de sua segunda temporada. Nós vemos o potencial nele”, comentou o inglês.

A defesa ganha reforço aqui: “Alguma coisa não está fazendo sentido para ele, precisamos ajudá-lo a passar por isso. O carro é difícil de pilotar neste momento, mas com melhorias do nosso lado, vamos dar o apoio necessário a ele”, afirmou o mesmo Horner.

É interessante e até saudável que a Red Bull dê mais tempo aos seus novatos, especialmente por conta do alto investimento que faz neles, só que talvez a explicação para essa tolerância maior esteja não no fato de o time eventualmente ter percebido que seria importante ouvir mais os jovens, mas, sim, na situação especial que a equipe atravessa. Enquanto se dá ao luxo de esperar por uma adaptação de Albon, os taurinos concentram todas as suas fichas em Verstappen, que já provou que pode entregar os melhores resultados em quaisquer circunstâncias. É até natural. Porém, isso só é possível porque os austríacos têm apenas a Mercedes como preocupação, a ponto de Max dizer, na Inglaterra, que não se importava em ver uma Ferrari ao seu lado no grid, porque “eles não são rápidos o bastante”. E ele realmente não se importa com qualquer outro carro que não seja o W11 guiado pelo hexacampeão.

Portanto, parece muito claro que, na visão dos energéticos, o vice-campeonato está praticamente garantido, diante da fraca concorrência vinda da escuderia italiana, outrora grande rival no top-3, e até mesmo da emergente Racing Point, que, neste momento, se preocupa mais com a McLaren do que propriamente em alcançar a Red Bull. Então, se houvesse mais alguém no páreo, a história seria certamente bem diferente.

Ainda, em 2019, a falta de desempenho de Gasly acabou sendo decisiva na disputa do segundo lugar entre os Construtores. Agora, com a Mercedes à frente e o resto tão atrás, Albon não tem esse peso nas costas. Seria bom roubar pontinhos aqui e ali, mas não chega a comprometer. A esquadra, de fato, foca no certo e esquece o duvidoso. Alex deu sorte e tem de usar bem esse tempo, porque não deve durar para sempre. Essa tolerância toda tem prazo de validade. E é tão verdade que Marko já anda elogiando Nico Hülkenberg.

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