Mercedes, Ferrari, McLaren e Red Bull exibem cartas: o que simulações de corrida dizem

Cada uma das quatro grandes do grid da Fórmula 1 exibiu trunfos, mas também enfrentou percalços. Ainda assim, os dados obtidos nas simulações de corrida corroboram com o visto na primeira semana dos testes do Bahrein, ainda que seja preciso cautela para ordenar Mercedes, Ferrari, McLaren e Red Bull

Certamente o que não faltam são dados a serem checados após extensas 48 horas de testes coletivos da Fórmula 1, considerando as oito horas em cada um dos seis dias de atividades no Bahrein. Sem dúvida, um tempo mais do que necessário frente a um regulamento totalmente novo e que ainda é olhado com muita desconfiança, mas deixando as mudanças de lado, a segunda semana corroborou a impressão que a primeira bateria de testes deixou sobre a ordem de forças, ainda que seja impossível cravar qual das quatro grandes vai chegar à Austrália, digamos, com ligeira vantagem.

Fato é que Ferrari, Red Bull, Mercedes e McLaren tiveram seus problemas, alguns em menor proporção, outros difíceis o bastante a ponto de comprometerem metade de um dia. É por essa razão que os números obtidos nos stints realizados ajudam a entender um pouco mais esse desenho que começou a se formar, uma vez que as novidades de um regulamento tão diferente foram postas à prova, mas também devem ser analisados com cautela.

A Mercedes, por exemplo, enfrentou contratempo maior no dia 6, o último da pré-temporada, quando uma nova falha no motor obrigou de novo a troca da unidade de potência. O mesmo já havia acontecido na primeira semana, algo que inevitavelmente deixa a esquadra de Brackley ressabiada, por mais que as clientes (McLaren, Williams e Alpine) tenham acumulado ótima quilometragem.

Só que os alemães, por exemplo, não realizaram uma simulação de corrida completa, como as principais rivais alcançaram com ao menos um piloto ao longo dos três dias. Apesar disso, é possível entender por que a Mercedes parece um passo à frente, problemas de confiabilidade à parte, quando se olha para os stints feitos por Andrea Kimi Antonelli e George Russell no primeiro dia. Mais uma vez, impressiona a consistência de ambos ao conseguirem dar voltas em sequência sem perder ritmo — algumas, inclusive, no mesmo centésimo.

Testes da F1 2026, Bahrein, comparação entre stints McLaren, Mercedes e Ferrari, dia 4:

NORRIS (MANHÃ)*ANTONELLI (MANHÃ)+LECLERC (MANHÃ)¨
Protótipo*Duros*Médios+Médios+Médios+Médios¨Médios¨
38.78339.39737.42137.58537.53238.71638.092
39.30139.45937.78237.75837.73538.61638.598
39.54439.61037.49737.61237.69938.75538.209
40.13639.70837.63737.65737.59538.36338.403
40.64540.70737.51437.88337.70538.64038.448
40.37539.76337.69437.76337.41438.52539.052
40.79039.91737.81837.85737.74939.22739.183
41.55240.68437.83838.13537.69139.24939.894
40.14142.66638.12037.77837.73139.66540.049
 41.31337.70237.78137.65039.43439.965
 40.322   39.65940.752
     39.63739.150
     39.041 
RUSSELL (TARDE)°PIASTRI (TARDE)
Duros°Médios°Médios°Médios°DurosMédiosMédios
38.29136.73636.50035.98738.37738.66538.546
37.33337.39436.53336.30836.98740.51738.605
38.15736.97936.65736.48137.13439.23838.445
37.23137.08836.60636.26937.02139.32438.492
37.09436.90936.41636.48737.08838.82538.807
37.31136.86936.07736.93638.26838.86639.019
37.60737.18436.51937.66937.47939.00638.927
37.90136.97236.73536.88037.25939.21639.055
37.61036.99336.70036.64236.94538.77039.326
37.61337.01436.52736.62937.39539.00239.608
37.537    39.14338.883
37.608      
*stints Norris/ +stints Antonelli/ ¨stints Leclerc/ °stints Russell/ ‘stints Piastri

Nota-se aqui que as médias dos stints dos pilotos da Mercedes também são melhores, porém esta acaba sendo uma observação muito simples pela falta de desconhecimento da potência do motor e da quantidade de combustível. Quanto aos pneus, Antonelli usou C3 (médios) em todos os stints citados, enquanto Norris calçou o C2 (duros), além de um jogo de protótipos da Pirelli. Russell, por sua vez, usou o C1 (duros) e o C3 (médios) nas idas à pista, mas é importante pontuar que o teste do #63 foi à tarde, ou seja, em condições mais semelhantes a que os pilotos costumam encontrar nas atividades do fim de semana em Sakhir, além, claro, da pista mais aderente.

Vejamos o que os números dizem sobre as simulações de corrida feitas por Max Verstappen e Oscar Piastri na quinta-feira (19), e Charles Leclerc na sexta-feira (20). Antes, é importante frisar que o trabalho da Ferrari com o monegasco pela manhã foi atrapalhado pela bandeira vermelha causada pela quebra de Antonelli pela manhã. Charles vinha em um stint com o pneu C3 em voltas bem regulares, em 1min37s4. Quando retornou, manteve a média, porém o tempo subiu para 1min37s8.

Leclerc andou também à tarde, mas o foco da Ferrari foi em outro tipo de preparação. Ele encerrou a pré-temporada com o melhor tempo dentre todas as sessões ao virar 1min31s992.

Agora vamos a Verstappen e Piastri, com o adendo de que o australiano assumiu o cockpit da McLaren somente à tarde, enquanto Max conduziu o RB22 o dia inteiro. Do lado da Red Bull, Verstappen andou com o C3 (médios) e o C2 (duros) em long runs, ao passo que Piastri fez um stint de C3 (médios), um de C2 e o último de C1 (ambos duros).

Testes da F1 2026, Bahrein, simulações de corrida Red Bull, McLaren e Ferrari:

VERSTAPPEN (DIA 5)*PIASTRI (DIA 5)+LECLERC (DIA 6**)¨
Médios*Duros*Duros*Médios+Duros+Duros+Médios¨Duros¨Médios¨Médios¨Duros¨
39.06238.41837.54039.24238.39336.88938.68038.43537.82737.55237.196
39.39138.57637.60639.61938.06636.64738.42738.95737.44937.28336.705
39.27638.51137.37239.09937.79636.57639.66038.37037.40138.54738.689
39.59738.75037.43839.53637.86636.89538.49238.56237.48337.52136.403
39.54538.59337.57939.68138.02836.93138.94038.71838.13137.60336.416
39.36238.67237.52539.93138.09137.06538.88238.82437.65838.46736.856
39.37538.70737.47239.97938.51137.10638.91438.650 37.82236.954
40.25638.69037.58140.19638.11037.43339.14138.581 37.82837.005
39.44338.58837.57940.00238.44037.31039.80838.663  37.161
39.65438.66537.61640.83438.36237.99939.44538.896  37.140
39.77638.74137.49340.15538.58537.94639.03938.560  37.262
39.81038.72037.52240.15538.60838.399 38.415  37.486
40.07638.94537.71440.21238.55838.215 39.241  37.537
40.17438.90437.92539.89538.84938.224 38.682  37.139
39.62838.92837.840 38.71738.057     
 39.01437.945 39.09638.209     
 39.25038.232 38.93538.175     
 38.74539.081 39.01038.593     
  39.022 38.44638.370     
  39.488  38.891     
  37.879  37.697     
**Leclerc foi atrapalhado pela bandeira vermelha causada por Antonelli pela manhã/ *stints Verstappen/ +stints Piastri/ ¨stints Leclerc

Verstappen conseguiu um stint 0s3 mais veloz que o de Oscar quando ambos usaram o C3, porém a comparação com os duros inverte o jogo e coloca a McLaren à frente por aproximadamente a mesma diferença. E como os dois estavam em simulação de corrida, a quantidade de voltas foi bastante semelhante, o que também deixa a comparação, ainda que simplista, mais precisa — e os papaias à frente dos taurinos.

Quando os tempos de Leclerc são colocados lado a lado com Verstappen e Piastri, o que se tem é um stint que atinge 1min39s0 de média com o composto C3 — mais rápido, porém menor que os dos colegas em quantidade de giros. Com o C2, Charles foi mais veloz que Max, mas ficou atrás de Piastri, que deu seis voltas a mais no stint. Ainda assim, a performance em volta lançada ajuda a colocar a Ferrari ligeiramente em vantagem. As primeiras análises de especialistas que frequentam o paddock e acompanham a F1 há tempos também concordam com Mercedes, Ferrari, McLaren e Red Bull nessa ordem ao final da pré-temporada 2026.

É preciso, contudo, enfatizar que cada uma demonstrou determinado ponto forte. No caso do time chefiado por Toto Wolff, realmente o motor merece todos os elogios, porém a Mercedes precisa solucionar o mais rápido possível as falhas encontradas para não se comprometer.

“Tivemos desenvolvimentos positivos, mas toda vez que surge um problema perdemos muito tempo. Hoje de manhã tivemos uma falha na pista e isso custou algumas horas importantes. Também tivemos vários problemas no primeiro teste no Bahrein. Há lições positivas: o carro é competitivo, a unidade de potência é rápida e estamos melhorando a cada dia. Mas precisamos continuar trabalhando na confiabilidade”, afirmou Russell na sexta-feira.

George Russell com a Mercedes: mesmo com problemas, alemães impressionaram no Bahrein (Foto: Mercedes)

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A Ferrari, por sua vez, deixou o Bahrein ostentando o título de equipe mais inovadora, e pena que não foi possível ter números mais precisos sobre o desempenho da SF-26 com a asa traseira ‘macarena’ usada por Hamilton na manhã de quinta-feira — um problema no eixo traseiro obrigou a desmontagem da peça junto com o câmbio, tirando Lewis de boa parte da atividade matutina. Só que o carro também é rápido, foi o mais rápido em ritmo de classificação, e Leclerc (de asa mais convencional) se destacou também pelos stints muito consistentes.

Outro ponto é o motor, que passou ileso a problemas e ainda atingiu boa quilometragem com as clientes Haas e Cadillac. Em suma, um início de anos que os apaixonados tifosi não viam há algum tempo. “O objetivo da temporada será desenvolver rapidamente. Precisamos manter essa capacidade de inovação e, acima de tudo, a capacidade de produzir rapidamente e entrar na pista com as atualizações, porque o campeonato será decidido com base nisso”, disse o chefe, Frédéric Vasseur, ao final dos testes.

No papel de defensora do caneco, a McLaren optou pela discrição ao não inventar muita coisa no carro — exceto pela curiosa entrada de ar no bico do MCL40 —, mas ser eficiente naquilo que se propôs. Tanto Norris quanto Piastri acumularam 817 voltas, um total de 4.421 km.

“Estamos animados com a confiabilidade do carro e com o aprendizado adquirido. Concluímos com sucesso a pré-temporada, permitindo longas sessões e familiarização sistemática da configuração, aerodinâmica e pneus, além da boa performance da unidade de potência”, celebrou Andrea Stella. “A cada dia, conseguimos adicionar mais desempenho e agora temos uma compreensão clara do potencial do carro ao entrarmos nesta nova era da Fórmula 1“, completou.

Max Verstappen completou boa quilometragem com a Red Bull. Confiabilidade surpreendeu (Foto: Red Bull Content Pool)

Por fim, a Red Bull chamou atenção pela confiabilidade do motor, o primeiro de fabricação própria em parceria com a Ford, e os taurinos também têm como referência os dados da irmã Racing Bulls. Os problemas enfrentados foram decorrentes de falhas no chassi, que também inspiram cuidados, porém o maior desafio da nova era da Red Bull na Fórmula 1 foi muito bem cumprido.

“Acho que, até chegarmos a Melbourne, o interesse na F1 vai disparar. De nossa parte, aquelas primeiras sessões em Barcelona foram uma fonte de alívio e orgulho, especialmente em termos do que já conseguimos com a primeira unidade de potência da Red Bull Ford. Após duas semanas de testes no Bahrein, devemos ficar orgulhosos do que conseguimos contra as montadoras já estabelecidas. A quilometragem que completamos ao longo de nove dias de testes é respeitável”, assumiu o chefe, Laurent Mekies.

Há muito o que se respeitar nos dados obtidos pelas quatro, e é por essa razão também que a pré-temporada aponta, de certa forma, para o caminho do equilíbrio, pois ainda há espaço para muito crescimento. E já deu para perceber que o novo ciclo de regras realmente permite alguma liberdade.

Fórmula 1 retorna de 5 a 8 de março em Melbourne, palco do GP da Austrália, abertura da temporada 2026.

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