Mercedes como referência e Aston Martin na lanterninha: a ordem de forças da F1 2026

Ainda há muita história a ser contada na temporada 2026 da Fórmula 1, mas os últimos testes coletivos no Bahrein ajudaram a criar um cenário mais próximo da realidade em relação à ordem de forças da Fórmula 1. Vale lembrar, no entanto, que a corrida de desenvolvimento está apenas começando e deve ganhar ainda mais impulso com o início da temporada

Ainda que algumas equipes tenham chamado mais atenção do que outras durante os testes de pré-temporada no Bahrein, é impossível determinar a ordem exata de forças do grid da Fórmula 1 simplesmente tomando os tempos de volta como base. De qualquer forma, a análise de elementos diversos, como ritmo de corrida, confiabilidade e design aerodinâmico, por exemplo, ajudam a criar um cenário mais parecido com o que deve ser visto no GP da Austrália, etapa que abre o campeonato, em março.

Em uma atividade de oitos horas diárias, as equipes obviamente buscaram caminhos diferentes para avaliar o desempenho dos respectivos carros no circuito de Sakhir, optando por diferentes níveis de combustível, mapa de motor e até mesmo o tipo de pneu que foi utilizado — além, claro, de fatores externos, como temperatura da pista, que influenciam na performance de cada piloto. Ou seja, embora os dados disponíveis sejam abundantes e realmente ajudem na criação de uma imagem próxima da realidade, há uma série de ressalvas que devem ser levadas em consideração.

Com tudo isso em mente, um ranking que busque organizar os times neste momento deve invariavelmente contar com a Aston Martin na 11ª posição. Provavelmente os esmeraldinos não vão terminar a temporada 2026 como os piores do Mundial de Construtores — é possível até mesmo, na verdade, que a má impressão deixada pela performance nos testes fique para trás logo nas primeiras corridas. As últimas décadas mostraram que um carro projetado por Adrian Newey nunca deve ser menosprezado, ainda mais quando os problemas estão principalmente relacionados — mas não sóà unidade de potência da Honda.

Fernando Alonso e Lance Stroll foram os que menos tiveram condições de completar um programa minimamente adequado de simulação de corrida, o que deixou a vida dos engenheiros bastante complicada, pois não puderam realmente identificar muitas áreas que precisam de ajustes. A situação é tão delicada que a dupla verdinha acumulou menos voltas do que a Cadillac, estreante na F1 e décima colocada na ordem de forças, mas que pelo menos tem certeza que o monoposto consegue chegar ao fim de uma prova inteiro.

A situação da Aston Martin realmente não é nada boa (Foto: Aston Martin)

Por outro lado, embora tenha encontrado problemas aqui e ali, o time de Valtteri Bottas e Sergio Pérez pode ficar satisfeito com o que conquistou no Bahrein. O modelo norte-americano ainda carece de carga aerodinâmica, o que fica ainda mais claro nas simulações de corrida, na medida em que os pneus começam a desgastar rapidamente. No último dia de testes, o stint longo do mexicano foi 2s mais lento do que o de Esteban Ocon, por exemplo, com o mesmo número de voltas, pneu e horário do dia.

Mas é inegável que o carro provou que não é tão desequilibrado assim, o que ajudou a construir uma base mais sólida para os próximos passos que serão dados. Em ritmo puro, é importante destacar que a Cadillac provavelmente se encontre atrás da Aston Martin, mas escapou da lanterninha pelo simples fato de ter pelo menos conseguido manter a boa reputação nessas primeiras semanas, tirando proveito também do fato de que o motor Ferrari tem evitado muita dor de cabeça para as clientes.

A Williams apareceu na sequência. Após a ausência nos testes privados em Barcelona devido a um atraso no projeto, o FW48 realmente deu a impressão de que está bem mais pesado do que deveria. O excesso, no entanto, independentemente de quanto seja, não explica completamente as limitações aerodinâmicas que prejudicaram Alexander Albon e Carlos Sainz no Sakhir, mesmo que a dupla tenha percorrido impressionantes 4.275 km, atrás somente de McLaren (4.421 km) e da Haas (4.297 km) nesse quesito.

Ainda que seja um carro que tenha sido capaz de coletar tempo de pista, faltou muito desempenho. Por exemplo, em ritmo de corrida: o espanhol do #55 anotou 1min41s375 como média no programa de sexta-feira (20), com o pneu C2 da Pirelli, e acabou sendo 1s5 mais lento que Arvid Lindblad e 2s3 em relação a Oliver Bearman, que utilizaram os mesmos compostos. Desta forma, a parte de trás do pelotão intermediário parece o lugar mais apropriado para os comandados de James Vowles neste momento.

A Williams teve atrasos no projeto e ficou atrás de muitas rivais no Bahrein (Foto: AFP)

Se há alguma equipe que evoluiu bastante no decorrer da pré-temporada, sem dúvida foi a Audi. Depois de aparecer na segunda semana no Bahrein com um sidepod completamente remodelado, o R26 provou estar respondendo de maneira muito mais suave às reduções de marcha, tão importante nesse regulamento em que os pilotos precisam recuperar o máximo de energia possível no decorrer da volta, ainda que, é verdade, tenha apresentado instabilidade no eixo traseiro em momentos de frenagem e curvas de baixa velocidade. Mesmo assim, o programa concluído por Gabriel Bortoleto nas horas finais chamou atenção pela consistência em longa distância em todos os compostos.

A Racing Bulls se encontra no meio do pelotão intermediário. Melhor do que as equipes citadas anteriormente, a escuderia de Faenza ainda terminou atrás de rivais diretas como Alpine e Haas, pois mesmo que a VCARB 03 tenha manifestado sinais promissores entre uma semana e outra no Bahrein, ainda precisa encontrar mais equilíbrio nas frenagens e curvas de baixa velocidade — assim como na entrega de potência nas zonas de tração, que ficaram bem aquém quando comparada com a irmã Red Bull, que se destacou nesse aspecto.

Mais adiante, depois de interromper o desenvolvimento do carro de 2025 logo nos primeiros meses para focar na A526, o time de Flavio Briatore pode ficar satisfeito por construir um carro pelo menos decente neste início de ano. É verdade que a performance dos franceses foi bem estável nos seis dias de atividades, mas a equipe também não fez muita questão de realizar atualizações como algumas das concorrentes, já que o objetivo principal era completar um número decente de voltas (677) para aprender mais sobre o modelo — e isso foi feito sem maiores problemas.

O ritmo tanto de classificação quanto de corrida apresentados por Pierre Gasly e Franco Colapinto foram bastante sólidos, sendo as saídas de frente o único grande fator prejudicial até aqui. De qualquer forma, o suficiene para deixar a Alpine como o segundo grande destaque do pelotão intermediário, perdendo somente para a Haas, que incontestavelmente está entre as surpresas dos testes da F1.

A Haas foi um dos grandes destaques da pré-temporada da F1 no Bahrein (Foto: Pirelli)

Com a escuderia de Ayao Komatsu conseguindo amenizar em grande porcentagem as principais queixas de Bearman e Ocon, os pilotos saíram confiantes de que podem começar a temporada 2026 com o pé direito. Apesar de ainda lutar, em certa medida, com a instabilidade nas entradas de curva, o desequilíbrio no meio delas e insegurança na tração traseira, o VF-26 provou ser uma boa base para receber as atualizações que serão implementadas nos próximos meses.

No top-4, a Red Bull aparenta estar ligeiramente atrás das principais rivais. Claro, é preciso levar em consideração que nenhuma delas mostrou 100% do potencial, como o próprio James Vowles apontou, mas também é inegável que os taurinos foram perdendo terreno à medida que os testes avançavam. Depois de serem os grandes destaques da primeira semana, chamando atenção de George Russell e de Toto Wolff, por exemplo, nem mesmo Max Verstappen conseguiu terminar no topo da tabela de tempos quando Mercedes e Ferrari se acertaram. De qualquer forma, a entrega de energia do motor Red Bull Ford merece um adendo especial aqui, e será uma arma fundamental nesse complexo regulamento.

Atual bicampeã do Mundial de Construtores, a McLaren ocupou o lugar no degrau mais baixo do pódio. É engraçado como o fato de a equipe papaia ter trabalhado de maneira mais discreta dá a impressão de que não há muita coisa de interessante no MCL40, o que está longe de ser verdade. Apesar de existir um déficit na gestão de energia, o carro de Norris e Oscar Piastri definitivamente melhorou ao longo das atividades e apresentou bons números na simulação de corrida. Um novo salto de desempenho deve ser visto no GP da Austrália.

Mas isso também é verdade para as adversárias, entre elas a Ferrari, que começou 2026 de maneira muito mais positiva do que como encerrou o ano passado. Além de ter ficado no centro das atenções por causa das inovações aerodinâmicas, como o pequeno elemento posicionado logo atrás do exaustor e a asa traseira que fica de cabeça para baixo quando acionada nas retas, o time de Maranello também se destacou pelo progresso no equilíbrio. A SF-26 começou os testes no Bahrein bastante inconsistente e com pouca aderência traseira — aspectos que nitidamente foram minimizados, principalmente com Charles Leclerc apresentando bom ritmo para liderar o dia final.

A Mercedes terminou a pré-temporada da F1 como principal referência (Foto: Mercedes)

A equipe foi líder nas largadas, já que se preparou muito melhor do que qualquer outra para suprir a falta que o MGU-H faria na hora da partida e desenvolveu um turbo menor. Frédéric Vasseur até tentou alertar, lá no início de 2025, mas nem as rivais e nem a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) se importaram muito naquele momento. Mas o desempenho foi bastante promissor também em ritmo de corrida, embora não exatamente no mesmo nível da Mercedes, que termina a pré-temporada como principal referência da F1.

É verdade que as Flechas de Prata não navegaram por águas tranquilas o tempo inteiro, muito pelo contrário. A escuderia perdeu um tempo considerável na primeira semana por causa de problemas com o W17, o que limitou bastante o número de dados obtidos, além de ter precisado trocar a unidade de potência no último dia de atividades, quando viu Andrea Kimi Antonelli estacionar no trecho entre as curvas 10 e 11. No entanto, nada que parece ter deixado o pessoal por lá de cabeça quente.

A única grande preocupação mesmo parece estar relacionada à gestão de energia, que, como mencionado, tem a Red Bull como destaque neste momento. Contudo, Russell afirmou que essa diferença “diminuiu drasticamente” após a segunda semana no Bahrein, pois a Mercedes efetuou melhorias importantes na unidade de potência, o que deixa os pilotos um pouco mais otimistas para o desafio que todos terão em Melbourne, uma pista que vai apresentar menos pontos favoráveis para recarga.

A verdade é que ainda é bastante cedo para definiri qualquer coisa. A maior parte das equipes deve desembarcar na Austrália com algumas atualizações, em maior ou menor nível, aproveitando um circuito completamente diferente do que foi experimentado até aqui para mergulhar um pouco mais nas nuances dos novos carros. De qualquer maneira, os testes deixaram claro que, com a complexidade do regulamento, a corrida de desenvolvimento promete embaralhar ainda mais o grid até o fim de 2026

Fórmula 1 retorna de 5 a 8 de março em Melbourne, palco do GP da Austrália, abertura da temporada 2026.

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