Na Garagem: “Destino” quis batalha final entre Schumacher e Barrichello há 10 anos

A história de uma ultrapassagem que foi espremida, mas que desentalou da garganta do brasileiro anos e anos da influência do alemão. Foi naquele GP da Hungria de 2010 onde os dois se encontraram na pista "não por coincidência, mas pelo destino"

No dia 1º de agosto de 2010 aconteceu o GP da Hungria, 12ª prova da temporada. Quando a Fórmula 1 chegou a Hungaroring, transcorridos 2/3 do campeonato, havia uma atípica competitividade: Jenson Button, Lewis Hamilton, Sebastian Vettel, Mark Webber e Fernando Alonso brigavam de forma aberta pelo título, separados por 30 pontos – pouco mais que uma vitória.  O único piloto das três equipes grandes alijado da disputa era Felipe Massa, ainda sofrendo as sequelas do acidente do ano anterior na mesma pista húngara – uma mola da Brawn de Rubens Barrichello atingira a cabeça de Massa deixando o ferrarista fora do restante da temporada de 2009. Apesar da briga renhida no topo da tabela, foi justamente Barrichello o protagonista do lance mais famoso do final de semana.

Após disputar e perder o título de 2009 para Button, Barrichello finalmente foi encontrar a Williams – o brasileiro tinha sido cogitado para substituir Senna após a tragédia de Ímola. Barrichello vinha fazendo um trabalho decente, marcando 29 pontos em 11 provas, brigando pelo nono lugar na tabela com um velho conhecido, Michael Schumacher. Além disso, se impunha com tranquilidade sobre o novato Hülkenberg.

Schumacher, por sua vez, sofria para se adaptar à F1 depois de três anos de aposentadoria. Apesar de dois quartos lugares – Espanha e Turquia –, o alemão tinha apenas 36 pontos até a Hungria, tendo chegado apenas duas vezes à frente de Nico Rosberg. Pior: ainda viu o companheiro de Mercedes chegar ao pódio três vezes, conquistando 92 pontos até então. Resumindo: Schumacher tomava, até ali, um vareio de Rosberg.

Barrichello foi tentar reconstruir a Williams após ele e Button saírem da Brawn. A escuderia do estrategista foi vendida para a Mercedes e para seus lugares chegaram justamente Schumacher e Rosberg. Pode-se dizer que Schumacher, outra vez, roubara o lugar de Barrichello. Mais um capítulo de uma conturbada história vivida desde 2000 e encerrada após a saída do brasileiro da errari no fim de 2005.

Vettel e Webber brigariam pela pole com Alonso, em piso molhado; era o que todos esperavam. No entanto, assim como a chuva, a briga entre Red Bull e Ferrari não aconteceu. Vettel fez a pole com 1min18s773, 0s4 melhor que Webber e sonoros 1s2 segundos à frente de Alonso. Hamilton via no azar de Button uma chance de escapar na tabela. Barrichello partiu em 12º e Schumacher, em 14º.

Segundo os pilotos, “70% das coisas em Hungaroring se resolvem na primeira curva”. Foi na primeira curva onde Alonso passou Webber e pulou para o segundo posto. Vettel achou que teria uma prova tranquila, mas um safety-car causado por Vitantonio Liuzzi levou quase todos os pilotos aos boxes. Webber se manteve na pista e tomou a ponta, com Alonso e Vettel em seu encalço. Vettel caiu para terceiro após uma punição por estar muito longe do safety-car.

Lá na frente, Webber ganhou a corrida, com Alonso em segundo e Vettel em terceiro. Hamilton abandonou e Button foi apenas oitavo com a outra McLaren. Com isso, Webber tomou a ponta da tabela do Mundial de Pilotos com 161 pontos. Alonso, em quinto lugar, estava apenas 20 pontos atrás – o campeonato estava apertado. Entretanto, isso não seria assunto em Hungaroring na coletiva após a prova.

Outro piloto não entrou nos pits quando Liuzzi se acidentou: Barrichello. Com isso, o brasileiro foi galgando posições com as paradas dos demais nos boxes e estava num surpreendente quinto lugar ao entrar nos pits. Mas o brasileiro não manteve o rendimento com os pneus supermacios e caiu para o 11º lugar com a Williams, exatamente atrás de Schumacher. Estava desenhado o enredo para o acontecimento máximo daquele GP.

Na volta 64, Barrichello deu o bote para passar Schumacher e conquistar o 10º lugar e um pontinho. O alemão jogou duro e impediu. Com os pneus gastos, a ultrapassagem parecia improvável. Duas voltas mais tarde, no giro 66, uma das mais belas manobras de Rubens em 19 anos de F1: após pegar o vácuo na entrada da reta, Barrichello foi espremido por Schumacher contra a mureta dos boxes.

O brasileiro achou o espaço exato entre o muro e a Mercedes de Schumacher. Centímetros separaram ambos de uma colisão fatal, Barrichello usou a linha de saída dos pits e ganhou a posição na marra. “Normalmente, com um cara louco desse, eu diminuiria. Mas não hoje. Foi uma das minhas manobras mais bonitas”, disse Barrichello em entrevista à Globo.

A visão de Barrichello quando foi espremido por Schumacher (Foto: Reprodução/TV)

Schumacher inicialmente ironizou Barrichello – segundo o alemão, havia muito espaço, tanto que o brasileiro passara. Mas ao ver o vídeo da ultrapassagem e conversar com os comissários, Schumacher se desculpou. “Não queria deixá-lo passar, mas não estava querendo deixá-lo em perigo. Se essa foi a sensação dele, peço desculpas”, falou Schumacher após a corrida.

Barrichello contou à época que teria escolhido uma linha diferente e teria outra postura se estivesse no lugar de Schumacher. Aproveitou para cutucar o alemão: “Não foi coincidência, o destino quis que eu o encontrasse na pista. Mas, dessa vez, sem as ordens de equipe da Ferrari”, disse o brasileiro.

Foi a última grande disputa entre os dois pilotos. O alemão foi punido pela manobra e perdeu posições no grid para a corrida seguinte, na Bélgica. 

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