No lugar errado e na hora errada: De Vries já entra em processo de fritura na F1

Nyck de Vries parece ter chegado à F1 da pior forma possível. Bem mais velho que a média dos novatos, em uma equipe de fundo de grid e em crise, o holandês não tem margem para se adaptar. E está sentindo

Nyck de Vries está experimentando o completo oposto da expressão famosa “no lugar e na hora certos”. Em seu primeiro ano de F1, o holandês está zerado após quatro corridas, já recebe forte pressão de dentro e fora da AlphaTauri e, a menos que consiga uma mudança radical nas próximas semanas, parece que não vai ter muito futuro na categoria.

É que tudo com o piloto parece ter acontecido na hora errada. Para começo de conversa, Nyck chegou à F1 de forma nada convencional: aos 28 anos de idade e com passagem e título até pela Fórmula E. Ou seja: além de longa carreira na base, De Vries ainda tem um currículo profissional considerável. Nada contra, bom para ele, mas bastante anormal para a F1 contemporânea.

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Para efeito de comparação, a mesma AlphaTauri, quando se chamava Toro Rosso, entrou em momento complicado de renovação de seus pilotos, perdeu Max Verstappen, Carlos Sainz, tirou Daniil Kvyat. Às pressas, para tapar buraco, chamou Brendon Hartley, na reta final de 2017. E o neozelandês, por já ter 27 anos e nunca ter ficado próximo do radar da F1, mesmo com boa carreira e até título de WEC, foi motivo de chacota para alguns.

Nyck De Vries vai sofrendo no início na F1 (Foto: Martin Keep / AFP)

A experiência Hartley foi um fiasco completo. Amassado por Pierre Gasly, o neozelandês foi mandado embora após 25 corridas e apenas três top-10. Fora da F1, sem maiores surpresas, Brendon se reencontrou, venceu mais título de WEC, levou as 24 Horas de Le Mans outras vezes, enfim, seguiu o rumo. É bem possível que De Vries tenha destino parecido.

Mais velho ainda que Hartley, Nyck passa hoje por situação parecida, na mesma equipe, sem tempo de se adaptar e com um carro bastante limitado. Só que há aí uma diferença enorme entre os dois: por algum motivo, De Vries chegou à F1 repleto de expectativas. Completamente irreais, diga-se.

Veja, não é culpa do rapaz que as pessoas tenham se empolgado tanto com ele, botado uma fé absurda em cima de seu potencial, mas é fato que isso rolou. Com título de F2 e Fórmula E no currículo e um nono lugar na Itália em seu primeiro GP, pela Williams, substituindo Alex Albon, De Vries foi alçado a um patamar do qual nunca fez parte. Muita gente nunca parou para refletir as reais circunstâncias daquilo tudo. E aí a barra ficou mais pesada do que ele poderia aguentar.

Campeão da F-Renault no terceiro ano, campeão da F2 também na terceira temporada, campeão da Fórmula E na segunda: tempo, paciência, adaptação. E aí temos coisas que De Vries simplesmente não aparenta ter à disposição na F1. Prova disso é como Helmut Marko, consultor da Red Bull e responsável por escalar a AlphaTauri, já vai botando pressão.

Nyck De Vries abandonou depois de poucas voltas no GP do Azerbaijão (Foto: Red Bull Content Pool)

“Para ser um candidato à Red Bull, você precisa de uma performance extraordinária”, disse Marko ao portal alemão Formel1. “Se quiserem [De Vries e Tsunoda] permanecer na Fórmula 1, eles precisam se provar”, garantiu.

Ainda que os demais membros da cúpula de Red Bull e AlphaTauri não ataquem Nyck, tampouco andam saindo em sua defesa. Aquela proteção natural em cima de um novato, de pedir tempo, de pedir calma, de dizer que tudo vai se ajeitar em breve. Não está rolando, não.

Tratado por muitos como ‘novo Verstappen’, ‘melhor que Gasly’, ‘novo grande talento da F1’ e coisas do tipo, De Vries vive um começo de trajetória na F1 de pesadelo. É o pior piloto da temporada até aqui e não parece ter espaço para se adaptar com a calma necessária. Ele mesmo está sentindo.

“O acidente de hoje foi totalmente erro meu. Foi muito bobo e desnecessário, e essa responsabilidade é minha. Estou decepcionado comigo mesmo, mas é assim que as coisas são”, falou o holandês após uma série de incidentes protagonizados em Baku.

Em meio a um time em crise que tem tudo, menos harmonia, Nyck já entrou em processo de fritura. Bom piloto, mas nada muito além disso, o holandês virou vítima das expecativas de outras pessoas e agora tem sido tratado como fracasso completo.

A F1 é dinâmica, o programa de jovens da Red Bull tem bons nomes e Yuki Tsunoda está mandando na AlphaTauri. De Vries agora só pode virar urgentemente o quadro ou procurar outra categoria em 2024. O esporte é cruel.

Fórmula 1 faz longa viagem e já retorna no fim de semana, entre os dias 5 e 7 de maio, com o GP de Miami, primeira de três etapas do ano nos Estados Unidos.

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