Opinião GP: Ótimo, Gasly só precisava de tempo. Mas agora Red Bull tem de esperar

Se Helmut Marko e a Red Bull ainda guardavam qualquer dúvida sobre Pierre Gasly, o GP da Itália respondeu bem e foi categórico. O jovem rebaixado no ano passado só necessitava de atenção e paciência. A vitória em Monza não é uma redenção, mas uma afirmação do talento e da garra do francês

HÁ ALGO DE MUITO ESPECIAL entre Monza e o grupo que hoje corre sob o nome de AlphaTauri, mas que é, em essência e coração, a Toro Rosso, herdeira legítima da Minardi. Nada disso é por acaso. 12 anos depois de apresentar ao mundo o talento de Sebastian Vettel, a simpática equipe de Faenza deu a chance de uma vida a Pierre Gasly. E o francês agarrou essa oportunidade com unhas e dentes, exatamente como fez há pouco mais de um ano. O que se viu no mítico circuito italiano foi o prêmio máximo de uma história que poderia ter dado muito errado, não fosse a perseverança de Pierre e dessa escuderia que tem não só a vocação de revelar, mas também de cuidar bem de futuras estrelas.  

A cena de Gasly sentado, sozinho, em um pódio estranho sem a gritaria dos enlouquecidos fãs italianos é emblemática por muitos aspectos. O principal deles talvez seja o fato de estar ali alguém que sabe exatamente os degraus que precisou subir e que agora as coisas serão bem diferentes. Foi um grande dia para a Fórmula 1. E uma lição.

Pierre Gasly conquistou sua primeira vitória na F1 no GP da Itália, depois de ter sido rebaixado pela Red Bull e ter de começar quase do zero na equipe B dos energéticos (Foto: AFP)

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Como muitos meninos do programa da Red Bull, o jovem francês impressionou pela velocidade e consistência. Campeão da então GP2 em 2016, o passo óbvio seria a F1 no ano seguinte. Mas o piloto precisou esperar um pouco mais, uma vez que a formação das equipes dos energéticos estava completa e parecia muito sólida até, mas aí Daniil Kvyat foi afastado na parte final do campeonato em 2017, o que abriu uma interessante vaga para Pierre. Helmut Marko, o poderoso conselheiro da marca austríaca e responsável pela escolha dos pilotos, decidiu colocar rapaz para andar no time B. Gasly cumpriu o seu papel e garantiu a permanência na esquadra para a temporada seguinte, obtendo um forte quarto lugar logo na segunda corrida de 2018, no Bahrein. Apesar de um ano difícil, o gaulês foi o responsável por 87% dos pontos conquistados pela Toro Rosso, o que o colocou em posição de disputar um lugar na equipe A. E foi o que aconteceu: com a saída de Daniel Ricciardo, Gasly foi promovido a companheiro de Max Verstappen em 2019.

Só que o fato de dividir a garagem com o holandês se mostrou uma tarefa inglória. Pierre chegou em uma estrutura naturalmente construída ao redor de Max, então a adaptação foi dura. E o início com as novas cores também não foi dos melhores: o jovem sofreu dois acidentes ainda durante a pré-temporada e que atrasaram o trabalho do time, gerando queixas de todas as partes. Ainda assim, Gasly foi capaz de marcar pontos aqui e ali. Com a Red Bull, o melhor resultado foi um quarto lugar na Inglaterra. Mas o problema era que Verstappen disputava pódios e vencia corridas. Assim, a paciência de Marko foi se esgotando rapidamente. Na mesma medida, surgiram as críticas e cobranças públicas. O consultor não perdoou os erros e rebaixou o rapaz, tal como fizera com Kvyat anos antes.

Gasly foi trocado por Alex Albon na metade da temporada passada. Naquele momento, ele sustentava uma desvantagem de 118 pontos. Só que aí alguma coisa mudou. Pierre aceitou a decisão com resiliência. Há de se destacar que foi recebido com a atenção devida pela antiga equipe. É verdade que os resultados não surgiram do nada e até demoraram, mas talvez houvesse uma razão: tinha de ser em uma condição especial. Esse cenário se fez no GP do Brasil, uma das melhores corridas de 2019. Com uma pilotagem segura e tirando proveito de todas as chances, Gasly levou a Toro Rosso ao pódio, com o segundo lugar. Era o que faltava para recuperar a confiança.

Max Verstappen venceu o GP do Brasil e dividiu o pódio com o ex-colega Pierre Gasly (Foto: Red Bull Content Pool)

Embora tenha mostrado maturidade ao encarar o rebaixamento como quase uma chance derradeira, Pierre seguiu na equipe B para 2020. De novo, é o francês quem vem carregando o time nas costas, pontuando e apresentando desempenhos mais sólidos. O GP da Bélgica talvez tenha sido o mais simbólico neste sentido: mesmo largando de pneus duros e sem parar no safety-car, Pierre impôs um ritmo forte, com um carro que não é feito para pistas de alta velocidade. Foi o oitavo, depois de largar em 12º. Parece pouco, mas a escolha por ficar na pista mais tempo teve seu preço. Ainda assim, impressionou. Terminou aquele domingo como Piloto do Dia, merecidamente.

Então, chegamos ao momento máximo. Em um ano em que a Mercedes assombra mais do que o normal, a vitória de alguém que não pilote os carros pretos depende de circunstâncias muito, mais muito especiais. E há de se estar pronto para elas. Foi um pouco o que aconteceu com Verstappen no GP dos 70 Anos. Agora de novo. A bandeira vermelha que mudou a história da corrida também vai mudar a vida de Gasly. Desta vez, o pit-wall da AlphaTauri acertou a estratégia e colocou o rapaz em posição de brigar. O jovem não desperdiçou a chance. Quando se viu na ponta de uma corrida totalmente insana, acelerou.

A festa de Pierre Gasly com o troféu de vencedor do GP da Itália (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

Mais importante, Pierre estava com a cabeça no lugar e soube controlar os nervos. Não errou nenhuma tomada de curva, cuidou dos pneus e gerenciou a corrida como um veterano. E se defendeu bem da pressão que Carlos Sainz, mais rápido atrás, tentava colocar. Gasly perdia tempo no primeiro setor para a McLaren do espanhol, mas recuperava no segundo e aí conseguia se proteger bem no trecho final. Para vencer, afinal, também é preciso ser inteligente.

A bandeirada, enfim, pareceu uma redenção, mas foi mais que isso. Foi a afirmação do talento que só precisava de tempo.

Se a Red Bull usar a mesma tática, tem de fazer a troca, considerando também que a temporada de Albon vem sendo sofrível. Só que isso não é bom para ninguém. O rebaixamento do ano passado deixou claro como os energéticos estão matando seu próprio projeto. Pierre é muito bom piloto, mas a pressa por resultados o queimou e poderia ter arruinado completamente sua carreira. Uma nova mudança agora também pode dar fim a trajetória de outro jovem que tenta se encontrar em uma equipe de um piloto só.

Portanto, parece nítido que as peças devem permanecer onde estão, ao menos até o fim da temporada. E é justo que a AlphaTauri desfrute desse momento com Gasly, a quem bem acolheu e proporcionou um melhor desenvolvimento na F1. Quanto à Red Bull, se promover o francês em 2021, que dê uma chance de verdade a ele. Por ora, porém, que espere.

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