Gasly se compromete com devaneios da Alpine e entra em beco sem saída na F1

O talento inquestionável de Pierre Gasly poderia muito bem tê-lo colocado em uma posição de maior competitividade dentro do grid, mas a Fórmula 1 também costuma ser cruel. Agora, sem outras opções no mercado, restou ao francês permanecer na Alpine e rezar para que o conto de fadas de Flavio Briatore se torne realidade nos próximos anos

Ainda que um novo acordo fosse esperado mais cedo ou mais tarde, a Alpine pegou o mundo da Fórmula 1 de supetão ao anunciar a renovação do contrato de Pierre Gasly durante o fim de semana do GP da Itália, 16ª etapa da temporada 2025. O negócio, claro, é extremamente positivo para a equipe, que contou com a falta de outras oportunidades no grid para segurar um piloto dos mais talentosos e mantê-lo como líder do projeto nos próximos anos. Enquanto que o francês, por outro lado, terá pela frente uma missão complicadíssima — digna até mesmo de um dos filmes de Tom Cruise — se acredita, de fato, que pode levar a base de Enstone ao caminho das vitórias.

Isso porque o retorno de Flavio Briatore, concretizado em junho de 2024 e que tinha como objetivo arrumar a casa, ainda não surtiu o efeito esperado. Claro, algumas decisões importantes foram tomadas até aqui, como a questão de abrir mão das unidades de potência da Renault para virar cliente da Mercedes — algo que, dado o histórico recente, faz sentido esportivamente, já que a meta é contar com o melhor motor em um regulamento que tem provado ser bastante complexo para 2026. No entanto, ainda há muitas pontas soltas que nem mesmo o italiano tem sido capaz de dar um nó, embora permaneça fantasiando tempos de prosperidade por aí.

Para o cargo de chefia, o polêmico dirigente parecia ter acertado com a escolha de Oliver Oakes, jovem e que verdadeiramente indicava estar alinhado com a visão de mundo que lhe foi apresentada quando assinou contrato. No entanto, a parceria recebeu um ponto final de maneira bastante inesperada, após acusações de “transferência de propriedade criminosa” contra o irmão de Oakes, William. Como resultado, Steve Nielsen foi apontado como diretor-administrativo para supervisionar a “administração diária da equipe” na fábrica, com Briatore se mantendo como o líder geral.

Mas se engana quem pensa que os problemas estão limitados apenas aos bastidores. Na pista, o desempenho tem sido tão tenebroso quanto os testes de pré-temporada, lá no Bahrein, no fim de fevereiro, já indicavam que seria. Com somente 20 pontos somados no Mundial de Construtores, os carros azuis foram superados até mesmo pela Sauber e precisaram se contentar com a humilhação de se tornar a pior equipe do grid da F1. E nesse trem desgovernado, Gasly tem sido o responsável por manter a locomotiva sobre os trilhos — na medida do possível, pelo menos.

Pierre Gasly tem sido o único isento de qualquer culpa na Alpine (Foto: Alpine)

Mesmo com um equipamento extremamente limitado de uma equipe absurdamente bagunçada, e que trouxe de volta uma figura das mais desonestas para tentar reverter o quadro, o francês do #10 tem arrumado maneiras de coletar as migalhas que, de vez em quando, os rivais deixam cair. Foi assim, por exemplo, no GP do Bahrein, quando conseguiu um impressionante quarto lugar no grid de largada e garantiu um ótimo sétimo posto no dia seguinte, tirando finalmente a Alpine do zero na classificação.

Pierre voltou a visitar o top-10 quase um mês depois, desta vez em Miami, onde apanhou um mísero tento ao concluir a prova sprint na oitava colocação. Foi assim também na Espanha, com um fim de semana extremamente consistente, e na Bélgica, uma pista em que a equipe modificou totalmente o conjunto traseiro da A525 para gerar menos arrasto e minimizar as deficiências do carro — o que até funcionou de certa forma, com o bólido ganhando velocidade de reta, algo extremamente importante no longo trecho entre as curvas 1 e 5.

Mas o ponto alto mesmo foi o GP da Inglaterra, onde tirou proveito de um cenário caótico, de asfalto molhado, que dificultou a vida de boa parte do pelotão, para cruzar a linha de chegada em um impensável sexto lugar. E como dizia Ayrton Senna: “A chuva coloca todos os carros no mesmo patamar, mas não os pilotos”. Pois bem, Gasly deu mais uma prova de que tem desperdiçado o talento em uma escuderia sem futuro, fadado a passar o resto da carreira batendo cabeça na parte intermediária do grid.

Antes que alguém tente desmerecê-lo e diga que o resultado em Silverstone foi puramente uma questão de sorte, é bom lembrar do que aconteceu no GP de São Paulo de 2024, sob condições similares ou até pior. O fato é que não dá para negar que o piloto tem feito das tripas coração para equilibrar uma situação que está muito longe de depender apenas dos próprios esforços, mas que lhe foi imposta depois de uma rápida passagem pela Red Bull, em 2019, quando foi jogado aos leões com 23 anos.

Pierre Gasly tem sofrido com a falta de desempenho da Alpine (Foto: Alpine)

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E o castigo tem sido dos grandes. Não há nem mesmo um companheiro de equipe no qual possa confiar para ajudá-lo a levar o time à frente — até porque os frequentadores da garagem ao lado buscam apenas uma maneira de sobreviver sob as garras de Briatore. Jack Doohan, por exemplo, começou o ano já com os dias contados e teve apenas seis corridas para provar que merecia permanecer como titular. Franco Colapinto era o favorito do conselheiro-executivo da Alpine desde o início, mas já se passaram dez etapas e o argentino não somou sequer um ponto.

Ou seja, Pierre se comprometeu por mais três anos com uma equipe que não possui estabilidade em nenhum setor — ponto vital em um esporte de alto desempenho. Mas é possível enxergar uma luz no fim desse túnel que parece eterno? Bem, seria muito bonito se o conto de fadas se realizasse e as unidades de potência da Mercedes fossem, de fato, a solução para todos os problemas de desempenho, como o time tem acreditado e proclamado aos quatro cantos do mundo — mas o buraco é muito mais embaixo. Sem uma estrutura verdadeiramente coesa, é impossível para qualquer escuderia alçar voos mais altos na F1.

Entretanto, analisando do ponto de vista do piloto, existia alguma outra opção? Infelizmente, não — embora o próprio insista em dizer o contrário. As portas da antiga casa, a Red Bull, fecharam-se para sempre, ao mesmo tempo em que McLaren, Ferrari e Mercedes já possuem um planejamento muito claro do que pretendem fazer em relação aos pilotos nos próximos anos — e isso não inclui contar com o francês.

Sem chances em uma equipe de ponta, restou a Pierre Gasly apertar a mão de Flavio Briatore (Foto: Alpine)

No segundo pelotão do grid, Williams, Aston Martin, Haas e Sauber — que se torna Audi em 2026 — também são apostas, em maior ou menor grau de confiabilidade, e contam com nomes comprometidos para os próximos anos. E a Cadillac, por fim, decidiu fechar com Sergio Pérez e Valtteri Bottas para segurar as pontas na temporada de estreia, enquanto prepara Colton Herta para uma das vagas.

Neste cenário, resta a Gasly apenas acreditar que os devaneios de Briatore realmente vão se concretizar. Para que, desta forma, possa finalmente ter ferramentas dignas o bastante para almejar algo mais em uma carreira que, neste momento, encontra-se em um incontestável beco sem saída.

Fórmula 1 retorna de 19 a 21 de setembro com o GP do Azerbaijão, 17ª etapa da temporada 2025.

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