Punição no Japão e Mercedes sob suspeita: por que Renault protesta contra Racing Point

Antiga parceira da Renault em disputas políticas, a Racing Point mudou de lado, apresentou um protesto contra os franceses no GP do Japão do ano passado por irregularidades no sistema de freios. Na ocasião, a equipe de Enstone perdeu pontos importantes. Agora, os comandados de Cyril Abiteboul tentam dar o troco ao questionar a legalidade da ‘Mercedes rosa’ que assombra a Fórmula 1 em 2020

A Racing Point chamou muito a atenção da Fórmula 1 desde que o RP20 foi apresentado nos testes de pré-temporada em Barcelona, no já distante mês de fevereiro. Dias antes, a equipe de Silverstone promoveu um evento de lançamento do layout do carro para 2020, mas a pintura foi apresentada em cima de um modelo do ano passado. Quando Sergio Pérez e Lance Stroll deixaram os boxes e foram à pista no dia 19, ficou claro que o RP20 tinha muitos traços do W10, carro da Mercedes usado no ano passado e com o qual Lewis Hamilton conquistou o hexacampeonato. Não à toa, o bólido foi apelidado de ‘Mercedes rosa’.

O que mais espantou a muitos no paddock da Fórmula 1 não foi a semelhança entre os dois carros, mas sim o desempenho da Racing Point na pista catalã. Rápido em simulações de corrida e de classificação, mesmo com tipos distintos de pneus, o modelo do time adquirido pelo consórcio liderado por Lawrence Stroll tinha potencial de ser muito mais do que mera coadjuvante, do meio para o fim do grid, e para pleitear a ponta da chamada ‘Fórmula 1 B’.

Detalhes e semelhanças do RP20 para o Mercedes W10
Detalhes e semelhanças do RP20 para o Mercedes W10 (Arte: Rodrigo Berton; Fotos: Racing Point e Mercedes)

Nas duas primeiras corridas da temporada 2020, adiada para o começo de julho em razão da pandemia do novo coronavírus, e o que era esperado se confirmou. É verdade que os resultados obtidos nos GPs da Áustria e da Estíria, os dois disputados no Red Bull Ring, poderiam ter sido até melhores: um erro de estratégia impediu Pérez até de vencer no primeiro fim de semana do campeonato, e o desempenho ruim tanto do mexicano quanto de Stroll na classificação no molhado no último sábado (11) atrapalharam as pretensões do time rosa. Ainda assim, Pérez ficou perto de terminar o GP da Estíria em quarto se não tivesse acertado a Red Bull de Alexander Albon no fim da corrida. ‘Checo’ cruzou a linha de chegada em sexto, após ter sido superado por Lando Norris, da McLaren, mas terminou logo à frente de Stroll e Daniel Ricciardo, da Renault.

No fim das contas, os 22 pontos e o quarto lugar no Mundial de Construtores após duas corridas são algo muito além do que a Racing Point conseguiria no ano passado, mas o potencial do RP20 sugere que, para a nova realidade da equipe, é aquém do esperado. Em contrapartida, a Renault, que amargou abandonos de Daniel Ricciardo no GP da Áustria e de Esteban Ocon no GP da Estíria, soma 8 pontos: o francês foi oitavo no Red Bull Ring no primeiro domingo do mês e o australiano repetiu o resultado no último domingo.

Horas depois do término da corrida, a Renault acionou os comissários da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) e entrou com protesto contra a Racing Point. A equipe de Enstone contestou a legalidade da ‘Mercedes rosa’ e alegou que a rival desrespeita o regulamento esportivo da F1, nos parágrafos 2.1, 3.2 e o Apêndice 6, que afirmam que todas as equipes precisam deter a propriedade individual das peças originais. Dentre tais peças estão o chassi, dutos de freio, a estrutura de impacto traseira, carroceria, asas e trabalho de CFD – Dinâmica de Fluidos Computacionais —, relacionado à aerodinâmica.

“Confirmamos que a Renault fez um pedido de esclarecimento junto aos comissários sobre a legalidade do RP20. Não temos mais comentários a fazer neste momento até que tenhamos uma decisão”, afirmou a equipe em comunicado.

Detalhes dos dutos de freio da Racing Point e da Mercedes de 2019
Detalhes dos dutos de freio da Racing Point e da Mercedes de 2019 (Foto: Reprodução/Twitter)

Há alguns dias, a McLaren disse que se furtaria de protestar por considerar que não havia nada ilegal no carro rosado.

A revista alemã Auto Motor und Sport lembra que Renault e, num menor grau, a McLaren, estão preocupadas com a possibilidade de cópias de carros vencedores possam ser melhores que os seus projetos originais.

O contra-ataque de Abiteboul

Mas a ‘cisma’ da Renault com a Racing Point não é de hoje. A equipe inglesa era uma parceira dos franceses em votações políticas na Fórmula 1, sobretudo para defender os interesses dos times do meio do grid. Entretanto, no GP do Japão do ano passado, a Racing Point protestou contra a Renault após o quinto lugar obtido por Daniel Ricciardo e o décimo de Nico Hülkenberg. A escuderia alegou irregularidades no sistema de freios do R.S.19. A FIA acatou o protesto, desclassificou os dois pilotos e promoveu Stroll ao nono lugar da corrida, com Daniil Kvyat fechando o top-10.

Em razão dos 11 pontos perdidos em Suzuka, a Renault passou sufoco no fim do campeonato e por muito pouco, ou 6 tentos, não ficou atrás da Toro Rosso (atual AlphaTauri) no Mundial de Construtores.

Lance Stroll e Daniel Ricciardo
A Renault está atrás da Racing Point neste começo de temporada (Foto: Reprodução)

Nove meses depois, é a Renault que questiona a Racing Point. Novamente segundo a Auto Motor und Sport, a equipe anglo-francesa acredita que a rival britânica possa ter recebido informações da Mercedes sobre peças que não podem ser copiadas ou fornecidas de uma equipe para outra, como o duto dos freios. As imagens de tais peças do RP20 e do Mercedes W10 revelam que os elementos são praticamente idênticos. Uma vez que engenheiros especialistas alegam que é praticamente impossível copiar uma peça somente com base nas fotografias, a Renault entende que a Racing Point foi beneficiada pela Mercedes.

Após visita-surpresa, FIA confirmou legalidade da ‘Mercedes rosa’

Em maio deste ano, ainda durante o período de paralisação da F1 em razão da pandemia, a Racing Point recebeu uma visita-surpresa da FIA, revelada pelo diretor-técnico Andy Green. A entidade fez uma ampla vistoria no RP20 e, segundo o engenheiro britânico, não encontrou irregularidades.

“Quando apresentamos [o carro], falamos com a FIA a respeito, vieram até a fábrica, olharam o que havíamos feito e os desenhos do carro. Inclusive pegaram os dados dos desenhos da Mercedes do carro do ano passado e compararam com os nossos”, continuou.

Sergio Pérez saiu do 17º lugar no grid para terminar GP da Estíria em sexto (Foto: Racing Point)

“Fizeram uma revisão cansativa. Ficaram completamente convencidos de que o carro que colocamos na pista foi desenhado por nós mesmos. Pode haver algumas similaridades com a Mercedes, mas é semelhante. Não é o mesmo. E por isso não há protesto”, emendou.

Podem gritar o quanto quiserem, mas acredito que estão gritando, na verdade, porque não há truque. E por isso estão chateados”, completou.

A FIA, posteriormente, confirmou as palavras de Green e reforçou que o carro é legal.

Olho na Mercedes

A equipe vencedora dos GPs da Áustria e da Estíria foi acionada pelos comissários da FIA após o protesto impetrado pela Renault. A entidade pediu à Mercedes o projeto dos dutos de freio  do carro de 2019 para análise. A Auto Motor und Sport informa que não houve julgamento da questão no domingo porque não havia tempo hábil para analisar com profundidade o caso e comparar os dados dos dois projetos, dos dutos do W10 e do RP20, antes de encontrar as supostas irregularidades.

Caso tais irregularidades sejam de fato comprovadas, Mercedes e Racing Point vão precisar se explicar. Uma equipe, via de regra, não pode permitir o acesso de membros de outra escuderia nas suas bases. O compartilhamento de projetos e dados obtidos no túnel de vento também é ilegal. Caberá, neste caso, à Racing Point provar que o projeto do duto de freios, por exemplo, é legal.

Mercedes e Racing Point têm uma relação cada vez mais estreita. A hexacampeã fornece seus motores para o time de Silverstone desde os tempos em que a Racing Point se chamava Force India. Lawrence Stroll e Toto Wolff são amigos, e o chefe da Mercedes recentemente adquiriu 4,77% ações da Aston Martin, o que levantou rumores sobre uma mudança para a equipe de propriedade de Stroll no ano que vem, algo que o austríaco, um dos grandes pilares do sucesso da marca da estrela de três pontas desde 2014 na F1, refutou de forma veemente.

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