Racing Point vira Mercedes na Hungria. Verstappen, Ferrari e McLaren, que lutem

Os treinos livres de sexta-feira já tinham indicado, mas a classificação confirmou, até com certa crueldade, o abismo técnico entre a Mercedes e o resto do grid. Portanto, os carros pretos são favoritos. Mas a Hungria também mostra que a Fórmula 1 vem dividida em seis camadas

Se o GP da Estíria ajudou a clarear um pouco a ordem de forças da F1 2020, o particular circuito de Hungaroring escancarou essa hierarquia de forma indelével e corroborou com aquilo que já se sabe desde 2014: o especial talento que a Mercedes desenvolveu ao longo do tempo para se colocar mais competitiva a cada temporada. Pelo sétimo ano seguindo, a marca alemã parece imbatível. Agora, talvez ainda mais, devido ao auge técnico que vive sua maior estrela. Lewis Hamilton é a representação máxima deste grid e quem melhor traduz a excelência desta equipe. Até podem copiar ou tentar questionar, mas a esquadra tão bem chefiada por Toto Wolff sabe exatamente o que quer e como chegar lá.

Tão soberano como há uma semana, Hamilton sequer precisou da chuva para se impor. Foi o mais veloz nas duas tentativas em que saiu à pista na fase derradeira da classificação, para assinalar a impressionante marca de 90 poles na F1. Ninguém saiu mais na frente do que ele na história. O companheiro fiel Valtteri Bottas até tentou desafiar o hexacampeão, mas ficou mesmo com a segunda posição, 0s1 atrás. O que apenas confirma o que o próprio Lewis disse outro dia, para desespero da concorrência.

“Acho que alguns carros que tivemos eram mais ‘Divas’, que foi algo que o Toto [Wolff] disse, talvez eu não chamasse assim, mas que eram mais complicados de lidar. Agora este, no entanto, é o melhor carro que já tivemos”. É…

Lewis Hamilton e Valtteri Bottas formam a primeira fila do grid do GP da Hungria (Foto: Mercedes)

De fato, a Mercedes se despediu de carros ‘Divas’ de outrora e agora é capaz de entender por completo um conceito, andando forte em qualquer tipo de pista e em qualquer condição. E isso também ajudou no fato de que apenas Hamilton e Bottas foram capazes de andar em 1min13s neste sábado. Além disso, a eficiência do W11 em um circuito em que o motor importa pouco diz muito. Tanto que a esquadra se deu ao luxo de escolher sem grandes problemas o pneu médio amarelo para largar neste domingo. Quer dizer, mesmo com um composto em tese mais lento, a dupla ainda será mais rápida que os adversários.

Portanto, não há o que dizer: a Mercedes segue em uma liga diferente e assim será no GP da Hungria. Só que a F1 tem mais a mostrar. A sessão que definiu as posições de largada também exibiu as seis divisões do grid. A hexacampeã lidera, claro. Depois dela é que a coisa fica realmente interessante. A Racing Point não só se inspirou com maestria na parceira técnica, como agora parece ocupar seu lugar na comparação com as rivais. O carro róseo é excelente, tal qual era seu espelho em 2019. Ou seja, rende bem nas partes mais sinuosas, tem tração e estabilidade. É tão eficiente que Lance Stroll, antes um errático em classificação, basta lembrar que ele caiu no Q1 13 vezes no ano passado, foi capaz de cravar a terceira melhor marca – ainda que quase 1s de Hamilton. Sergio Pérez ainda vai completar a segunda fila. E tem mais: o RP20 ainda se mostrou em torno de 0s2 a 0s6 mais rápido que a Mercedes de 2019 no Hungaroring.

Então, dá para dizer que a Racing Point tem, sim, o segundo melhor carro do grid. E como a colega, também vai partir para uma estratégia de largar com os pneus médios, tamanha confiança.

Lance Stroll vai largar da terceira colocação do grid (Foto: AFP)

A próxima camada é bem mais justa. Nela estão Ferrari, McLaren e Max Verstappen. Com a intrigante queda de rendimento da Red Bull, a equipe italiana, que viveu uma semana daquelas depois do acidente e do duplo abandono na Estíria, surgiu mais forte, dentro de sua capacidade técnica. O pacote de atualizações surtiu algum efeito, especialmente o assoalho, e Sebastian Vettel e Charles Leclerc foram capazes de garantir a Maranello a terceira fila. O tetracampeão foi apenas pouco mais de 0s2 mais lento que Pérez, o que representa muito. O ritmo de corrida será interessante, uma vez que os carros vermelhos vão largar de compostos macios, contra os médios dos rosáceos. É a chance de redenção dos italianos em uma pista em que a força da unidade de potência é minimizada. Mas há também uma preocupação logo atrás: a McLaren.

A equipe laranja, de fato, vem em uma linha ascendente em 2020. Já foi ao pódio e vem tentando se firmar como líder deste curioso pelotão intermediário. Lando Norris e Carlos Sainz partem amanhã do oitavo e do nono posto, respectivamente. Ambos concordaram que a esquadra inglesa está onde é seu lugar neste momento: ou seja, ali junto com a Ferrari e a Red Bull. De fato, Max Verstappen larga imediatamente à frente de Lando.  

Max Verstappen enfrentou problemas de acerto no carro da Red Bull (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)

E que misteriosa essa Red Bull. Se nas duas primeiras corridas, os taurinos deixaram a impressão de que tinham nas mãos o segundo melhor carro do grid, agora o cenário parece confuso. Interessante perceber a queda acentuada de performance na Hungria, em um traçado que privilegia o downforce, grande arma dos carros energéticos nos últimos anos. Em 2019, Verstappen saltou da pole e travou uma batalha com a Mercedes de Hamilton. Agora, não foi nem sombra. Claramente, há algo errado. O RB16 perde desempenho nos setores 2 e 3, e isso cerca de meio segundo, o que é muito. Max reclamou do motor, que, aliás, também foi uma dor de cabeça para a irmã caçula, a AlphaTauri.

A coisa está tão estranha pelos lados dos austríacos neste fim de semana que ninguém conseguiu explicar a dificuldade de acerto do carro e a falta de performance. O consultor Helmut Marko deu a deixa: “Reconstruímos completamente o carro da noite para o dia e ainda há coisas aerodinâmicas que não entendemos e que tornam impossível a vida dos pilotos. Antes de chegarmos a Silverstone, precisamos entender esse problema, que parece ser fundamental”.

Verstappen também elevou o nível das queixas. “Não sei o motivo, mas alguma coisa claramente não está funcionando na comparação, digamos, com o ano passado, quando tínhamos ótimo equilíbrio aqui. O fim de semana todo está sendo complicado, é difícil de entender”, disse. Tão difícil que Alexander Albon não conseguiu sequer passar do Q2. Aqui merece a menção honrosa a Pierre Gasly. Mesmo sem motor, o francês deu uma volta espetacular nos instantes finais da segunda parte da classificação para se colocar entre os dez melhores.

George Russell foi a sensação da classificação na Hungria (Foto: Williams)

O grupo seguinte é liderado pela Renault. A equipe francesa apostou nas características do Hungaroring para tentar jogar com a estratégia. Daniel Ricciardo e Esteban Ocon foram à pista no Q2 com os pneus médios, mas imediatamente ficou claro que seria impossível passar para frente com os compostos amarelos. No fim, foi preciso buscar os macios para a tentativa final. Nenhum dos dois avançou, porém, o que coloca um grande ponto de interrogação no desempenho do carro amarelo e preto. Albon está neste bloco do grid, à frente dessa surpreendente Williams, que, pela primeira vez de 2018, colocou seus dois carros no Q2.

A volta rápida de George Russell no fim do Q1 tem de ser emoldurada. Amanhã será a prova de fogo: entender o real ritmo de corrida. O passo à frente em termos de uma única volta rápida foi ratificado pelo bom giro feito pelo novato Nicholas Latifi. Logo abaixo dos ingleses, está a AlphaTauri, que vem um fim de semana muito ruim, marcado por problemas na unidade de potência da Honda. Embora Gasly tenha conseguido chegar ao Q3, a realidade da equipe parece outra.

A rabeira do grid tem a Haas e a Alfa Romeo. As duas parceiras da Ferrari seguem enfrentando déficit de performance do motor, mas os carros também carecem de enorme desenvolvimento. Kimi Räikkönen será o último, uma triste colocação para um campeão do mundo.

Bem, o domingo tende a ver um passeio tranquilo da Mercedes se não chover. Se a água desabar em Budapeste as coisas mudam sensivelmente, ainda que do segundo lugar para trás. E que lutem.

Neste domingo, o Briefing entra ao vivo às 9h (Brasília, GMT -3) o pré-corrida do GP da Hungria de F1 com análise da classificação e as últimas informações antes da largada da terceira etapa do Mundial 2020. Inscreva-se no canal do GRANDE PRÊMIO no YouTube e ative as notificações.

GOSTA DO CONTEÚDO DO GRANDE PRÊMIO?

Você que acompanha nosso trabalho sabe que temos uma equipe grande que produz conteúdo diário e pensa em inovações constantemente. Mesmo durante os tempos de pandemia, nossa preocupação era levar a você atrações novas. Foi assim que criamos uma série de programas em vídeo, ao vivo e inéditos, para se juntar a notícias em primeira-mão, reportagens especiais, seções exclusivas, análises e comentários de especialistas.

Nosso jornalismo sempre foi independente. E precisamos do seu apoio para seguirmos em frente e oferecer o que temos de melhor: nossa credibilidade e qualidade. Seja qual o valor, tenha certeza: é muito importante. Nós retribuímos com benefícios e experiências exclusivas.

Assim, faça parte do GP: você pode apoiar sendo assinante ou tornar-se membro da GPTV, nosso canal no YouTube