Série de replays faz sentido, mas F1 flerta com sensacionalismo em acidente de Grosjean

A Fórmula 1 precisava mostrar os replays, mesmo que em excesso, do acidente de Romain Grosjean. São imagens icônicas, que não serão esquecidas tão cedo. Só que há uma zona cinzenta em que isso passa a tender ao sensacionalismo

Quem seguiu na frente da televisão após o acidente de Romain Grosjean viu uma série de replays de um dos acidentes mais tenebrosos da Fórmula 1 em anos. Tão logo surgiu a notícia de que o francês tinha sobrevivido e estava relativamente bem, o diretor de TV mostrou imagens das labaredas e do carro partido ao meio à exaustão. É o momento de se perguntar: será que a F1 não passou do ponto ao mostrar cada detalhe dos acontecimentos ao público?

Esse debate começou tão logo a prova se encerrou, e os pilotos puderam se manifestar. Daniel Ricciardo foi quem pegou mais pesado, dizendo estar decepcionado com a postura de uma F1 que foi “nojenta” ao “brincar com as emoções dos pilotos”. Max Verstappen, por sua vez, teve atitude bem diferente e disse que “chutaria” um piloto que se recusasse a correr por achar as imagens fortes demais.

É compreensível que as imagens tenham sido pesadas demais para alguns. Como Ricciardo também apontou, a angústia deve ter sido gigantesca para a família de Grosjean. Posto isso, é importante lembrar que a F1 foi, de certa forma, respeitosa: os replays só começaram após confirmação de que Romain estava vivo e já sentado dentro do carro médico. A abordagem é padrão – nenhum replay do acidente fatal de Anthoine Hubert foi mostrado, por exemplo – e mostra que a categoria tem alguma consideração.

As labaredas de fogo imediatamente após o acidente (Foto: AFP)

Dito isso, a direção de imagens da prova tinha um problema em mãos: a bandeira vermelha durou 70 minutos e não havia muito o que transmitir. Afinal, a corrida recém tinha começado e o acidente de Grosjean era basicamente tudo que havia acontecido até então. É aí que começamos a entrar em uma zona cinzenta: os replays de Grosjean quase em looping. A imagem do helicóptero, as das câmeras na beira da pista, as onboards… Foi isso que causou a maior parte das críticas dos pilotos.

Apesar de que os replays de Grosjean sejam exaustivos em certa medida, é necessário ponderar que estamos falando de um momento que, dentro de anos, será considerado um dos mais icônicos da história da F1. Quem viu ao vivo não esquecerá tão cedo As imagens de Romain pulando de um carro em chamas, são coisa de cinema. O contraste da noite barenita com as labaredas intensas criou cenário que não se repetirá tão cedo, ainda mais em um era de incêndios tão raros na F1. Faz sentido que isso vire o ponto central da transmissão de televisão.

Só que a F1 precisa tomar cuidado para não fazer algo que seria bem feio: agir de forma sensacionalista com as imagens do acidente. Um momento de temor seguido por alívio não pode, por exemplo, ser usado em vídeos promocionais e afins. Seria errado passar semanas e meses batendo na mesma tecla, tirando certa vantagem de uma situação possivelmente traumática para a família Grosjean.

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Romain Grosjean renasceu depois da terrível batida no começo do GP do Bahrein (Foto: Reprodução)

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A transformação de acidentes em produtos comerciais não é tão comum na F1, mas existe. Isso é muito visto na Nascar, onde os ‘big-ones’ são frequentemente exaltados em comerciais e programas de televisão. O mesmo acontece com acidentes propositais, assim como com brigas entre pilotos. Seria um erro se a gestão mais americana da categoria europeia optasse por uma abordagem semelhante.

Sim, Romain sobreviveu, mas isso não muda o fato de que as imagens são pesadas demais para serem simplesmente comercializadas. Acidentes são muitas vezes os pontos altos de corridas, mas não podem ser glorificados. Que isso esteja bem claro para todo mundo na principal categoria do automobilismo.

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