F1

Sob aura de mistério, futuro de Alonso tem descanso, volta a corridas icônicas e “alguma surpresa” em 2019

Prestes a encerrar um grande ciclo da carreira como piloto de F1, Fernando Alonso parte para ter uma rotina menos intensa no ano que vem. O futuro? Indy 500 e o desfecho da supertemporada do WEC com as 24 Horas de Le Mans. E nem um retorno à F1 está descartado
Warm Up, de São Paulo / FERNANDO SILVA, de Interlagos
 Fernando Alonso (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)

Depois de terminar em segundo lugar nas 6 Horas de Xangai pelo WEC no último domingo, Fernando Alonso já segue para Abu Dhabi, destino da corrida derradeira do seu ciclo como piloto de F1. Desde que anunciou sua saída do Mundial, em 14 de agosto, boa parte das notícias relacionadas ao bicampeão foram (e são) sobre seu futuro. Indy? Fórmula E? Permanência no WEC? O que se sabe no momento é que o espanhol de 37 anos vai completar a supertemporada do Mundial de Endurance com a Toyota, com mais três corridas previstas (Sebring, Spa e as 24 Horas de Le Mans) e a recém-anunciada volta às 500 Milhas de Indianápolis em 2019. O restante? O próprio Alonso fomenta o mistério sobre seu futuro.
 
Os últimos anos, de fato, foram frustrantes para Alonso no que diz respeito à F1. Desde o fim de 2014, quando anunciou sua saída da Ferrari e o retorno à McLaren — sendo apoiado e bancado pela Honda —, a carreira do bicampeão mudou de vez, e um piloto habituado às vitórias e pódios passou a conviver com as migalhas, ou o que era possível conquistar com um pacote técnico muito abaixo do esperado.
 
Desde então, tudo o que Fernando conquistou com a McLaren foram alguns brilharecos em treinos livres e sessões classificatórias e quatro P5 como seus melhores resultados entre 2015 e 2018. Resultados muito aquém da capacidade de Alonso, reconhecido como um dos melhores e mais completos pilotos do mundo. 
Fernando Alonso está de partida da F1. Mas não descarta voltar em breve (Foto: McLaren)
A insatisfação com a McLaren e o ‘motor de GP2’ da Honda levaram o piloto a buscar novos horizontes e, ciente de que não seria capaz de lutar por títulos na F1, desbravou fronteiras ao definir a Tríplice Coroa como nova grande meta da carreira. Ajudou a tornar a Indy 500 de 2017 a se tornar a mais midiática de todos os tempos e, um ano depois, estava em La Sarthe para vencer as icônicas 24 Horas de Le Mans ao lado de Kazuki Nakajima e Sébastien Buemi, a bordo da Toyota.
 
Com a segunda ‘coroa’ já garantida e sem muito mais o que fazer na F1, Alonso decidiu deixar de vez o Mundial e as decepções para trás ao fim de 2018. Tão logo anunciou sua decisão, o espanhol passou a ser notícia no mundo inteiro a respeito do seu destino. A Indy, que caiu de vez no gosto de Alonso, entrou no radar, bem como a Fórmula E. Convites, aqui e ali, não lhe faltam. Mas o que será da carreira de um dos melhores pilotos dos últimos anos no futuro?
 
O próprio Alonso indica que vai ter um calendário menos intenso em 2019. E também dá a entender que o ano que vem não vai ser restrito apenas ao desfecho da supertemporada do WEC e às 500 Milhas de Indianápolis. “Estou tentando fechar o calendário, mas no ano que vem farei alguns desafios a mais além de Indianápolis. Não posso dizer mais nada ainda”, declarou recentemente o piloto, ampliando a aura de mistério em torno do seu futuro nas pistas.
 
Mas para entender o que pode vir por aí, o GRANDE PRÊMIO conversou com Manuel Franco, jornalista do diário espanhol 'AS' e uma das pessoas que melhor conhece Alonso no paddock da F1.
 
“Acredito que, antes de tudo, ele queira descansar um pouco das viagens, de tanto tempo e de tanta pressão da F1. E esses são seus maiores objetivos hoje: fazer as 500 Milhas de Indianápolis, fazer o WEC, as 24 Horas de Le Mans, e provavelmente, ele vai continuar com a Toyota. Há alguma outra corrida de longa duração que ele quer fazer, de endurance, como as 24 Horas de Daytona, que ele já fez em janeiro passado e provavelmente repita. E alguma surpresa. Creio que vai haver alguma surpresa, algo que não posso revelar, mas uma surpresa. E também quanto a uma possibilidade de voltar à F1, pode haver uma surpresa”, afirmou.
Nas redes sociais, o próprio Fernando Alonso fomenta o mistério sobre seu futuro nas pistas (Foto: Reprodução/Instagram)
Não é segredo que Alonso decidiu deixar a F1 em 2019 por não ter um carro verdadeiramente competitivo para lutar pelo topo. Só que o próprio Fernando jamais fechou as portas para um retorno ao Mundial, deixando uma questão no ar: Alonso volta ao grid em 2020? 
 
Um regresso parece ser um tanto improvável, uma vez que os jovens talentos estão pedindo passagem e vêm obtendo protagonismo, como Max Verstappen, Charles Leclerc e Pierre Gasly, por exemplo. Contudo, quase uma década atrás, o mundo da F1 foi surpreendido com o retorno de Michael Schumacher da aposentadoria para correr pela Mercedes. De modo que uma eventual volta do espanhol ao grid não seria algo tão absurdo assim para 2020. 
 
Alonso entende que é chegada a hora de tirar um pouco o pé do acelerador e curtir mais a vida em 2019. “Sinto que preciso recarregar as baterias”. Para o ano seguinte, tudo é possível, inclusive disputar uma temporada completa da Indy ou mesmo voltar ao grid. “É uma possibilidade para 2020: fazer uma temporada completa na Indy, ou na F1”.
 
Alonso leva Espanha a novos horizontes
 
O interesse que as 500 Milhas de Indianápolis atraíram com a participação de Alonso em 2017 fez com que a Espanha dedicasse uma atenção jamais vista antes à Indy, mesmo com a presença de Oriol Servià no grid. O mesmo se aplica, por exemplo, às corridas de Endurance, que têm no país um grande nome no GT, Antonio García.
 
Franco vê o fenômeno de abertura da Espanha a novos horizontes um pouco parecido com a Alonsomania, onda azul — cor da bandeira das Astúrias — que invadiu o país na década passada, durante o auge de Fernando na F1.
Fernando Alonso ajudou a tornar a Indy mais conhecida na Espanha (Foto: IndyCar)
“Alonso foi o único piloto espanhol a vencer. É verdade que Pedro de la Rosa conquistou um pódio. Mas [com Alonso] foi quando a F1 conseguiu emparelhar com o futebol em algum momento na Espanha. Porque, quando Fernando conquistou seu título, 12 milhões de pessoas assistiram. É uma coisa incrível. A Alonsomania, todo mundo vestido de azul, GP da Espanha com 125 mil pessoas, algo que jamais aconteceu antes em nenhum outro evento esportivo”, lembrou.
 
“Na Espanha, se vê uma espécie de abertura a outras categorias desconhecidas. A F1 é uma categoria conhecida na Espanha, isso está claro, mas muita gente descobriu a F1 depois que Fernando começou a ganhar. Passou a ser um esporte que paralisou o país. Quando havia um GP em 2005, 2006 [anos em que Alonso foi campeão], 2010, em 2012, quando ele ficou perto de ganhar, havia um grande apelo na televisão e nos jornais, de modo que foi o auge da F1 na Espanha. E agora, com as 24 Horas de Le Mans e as 500 Milhas de Indianápolis, está havendo alguma similaridade”, explicou o jornalista.
 
A hora e vez de Carlos Saniz Jr.
 
A saída de Alonso da F1 ao fim da temporada vai deixar a Espanha com apenas um representante. Carlos Sainz Jr, filho do lendário Carlos ‘El Matador’ Sainz, bicampeão do WRC e duas vezes vencedor do Rali Dakar, é o herdeiro esportivo de Fernando e vai assumir o cockpit da McLaren em 2019
 
Hoje com 24 anos, Carlos surgiu bem na Toro Rosso e dividiu as atenções da equipe com Max Verstappen. Mas o holandês foi o escolhido para ser promovido para a Red Bull, na esteira do rebaixamento de Daniil Kvyat em 2016, e Sainz esperou pela sua vez. Que não veio por meio da equipe de Milton Keynes. Por meio de um acordo envolvendo a Renault, Honda e a Toro Rosso, Carlos foi parar na equipe francesa no fim da temporada passada. 
 
Ao longo de 2018, o madrilenho teve em Nico Hülkenberg um bom parâmetro, mas ficou abaixo do seu companheiro de equipe. Enquanto o alemão é o sétimo colocado e luta para ser o ‘melhor do resto’ ou campeão da ‘F1 B’ neste campeonato, Sainz está apenas em 12º no Mundial de Pilotos e soma 24 pontos a menos que Nico.
Carlos Sainz vai ser o único representante da Espanha na F1 em 2019 (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
Para 2019, Sainz vai ter pressão em dobro: além de ser o único representante na F1 de um país que torce muito, mas também que cobra dos seus nativos, o piloto vai chegar a uma McLaren há tempos carente de bons resultados. E, mesmo sendo ainda bastante jovem, terá a missão de liderar a mais nova dupla de pilotos do grid, tendo ao seu lado o prodígio britânico Lando Norris, de apenas 19 anos.
 
O GP falou com o Carlos ‘El Matador’ Sainz em Interlagos. O piloto é um habitué do paddock para acompanhar a carreira do filho e só não está presente quando tem alguma prova de rali para fazer. O veterano confia que Sainz Jr. tem totais condições de fazer um bom trabalho em 2019, mas lembra: é preciso que a McLaren construa um carro bom o bastante para Carlos poder corresponder.
 
“Pressão, não. Protagonismo, sim. Logicamente, com a saída de Fernando, Carlos vai ser o único piloto espanhol, mas entendo que ele está preparado para assumir esse papel. Claro, Fernando Alonso só há um. Mas o mais importante é que a McLaren esteja à altura do que dela se espera, da equipe da categoria que é a McLaren”, afirmou.
 
Na visão de Franco, Sainz vai obviamente ser bastante pressionado, até por ter um DNA vencedor e ser o ‘herdeiro’ de Alonso na F1. Por outro lado, o jornalista do 'AS' entende que Carlos tem uma capacidade inerente aos campeões e consegue crescer sob pressão.
 
“É costume dizer que a Espanha tem dois esportes: um deles é o futebol, principalmente, e o outro é vencer. Sendo filho de Carlos Sainz, é a obrigação dele; sendo ‘sucessor’ de Fernando Alonso, é voltar a vencer. Vai ser complicado, mas acho que Carlos cresce sob pressão. Com Alonso fora, todo mundo vai focar nele, e isso vai fazer com que ele se sinta melhor, crescendo assim como piloto”, explica.
 
O herói injustiçado
 
“Na minha mente, sei que ele poderia ter conquistado mais títulos”. Quem diz isso é Lewis Hamilton, que teve em Alonso seu primeiro companheiro de equipe e também primeiro grande rival na F1. De certa forma, aquela temporada de 2007 na McLaren representou um divisor de águas para ambos. Com a ajuda de Ron Dennis, Hamilton, com ainda 22 anos, venceu uma intensa guerra nos bastidores, seguiu na equipe britânica e partiu em busca do Olimpo do esporte. Desde então, o agora pentacampeão do mundo vem quebrando recordes e se aproxima cada vez mais das marcas de vitórias e títulos de Schumacher.
 
Alonso, por sua vez, voltou à Renault para dois anos um tanto complicados e, depois, teve a grande chance de ser novamente campeão na F1. Assinou um contrato milionário com a Ferrari, que o via como o piloto capaz de dar sequência ao legado vencedor deixado por Michael Schumacher. Os títulos quase vieram em 2010 e 2012. 
 
Só que Sebastian Vettel e a Red Bull viviam em estado de graça e protagonizaram a primeira dinastia da década. Insatisfeito com a Ferrari, Fernando deixou Maranello para voltar à McLaren. Daí em diante, o resto é história. Em contrapartida, o ex-rival Hamilton coleciona títulos pela Mercedes, que desde 2014 domina a F1.
Fernando Alonso sai de cena da F1 neste domingo em Abu Dhabi (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
Manuel Franco partilha da opinião de Hamilton e de quase todo o paddock: Alonso poderia ter sido muito mais do que é para a F1. “Desgraçadamente, me dá a sensação de que Fernando é provavelmente o único piloto da história que tenha vivido uma situação como essa na F1, sendo considerado o melhor ou um dos melhores e sem ter um carro para poder conquistar vitórias, para conquistar pódios, que é onde ele merecia estar”, disse o jornalista. 
 
“Ele não merece tudo o que passou nos últimos anos. É uma pena. E apesar de tudo, muitas pessoas seguem considerando-o um dos melhores ou o melhor piloto”, acrescentou. Franco, contudo, ainda acredita que os deuses do esporte possam dar chance de Alonso se despedir da F1 de uma maneira bem menos melancólica como a que deve ser no próximo domingo em Abu Dhabi.
 
“Espero que ele possa voltar com um carro competitivo e se aposentar de outra maneira, no mínimo com pódio, com vitória, com título”, torce o jornalista espanhol que, por fim, garante: Alonso não sai de cena amargurado, pelo contrário. “Ele está tranquilo. Está feliz”.