Williams rompe com patrocinador, anuncia nova estratégia e abre porta para venda da companhia

Ao apresentar os resultados financeiros do ano de 2019, a Williams lançou um novo pacote estratégico que permite um comprador a se tornar acionista majoritário no futuro. A empresa também anunciou, com efeito imediato, a ruptura com seu patrocinador principal, a ROKiT

A divulgação dos resultados anuais do Grupo Williams, na manhã desta sexta-feira (29), abriu caminho para algo impensável apenas alguns anos atrás: a venda do grupo. Fundado há 43 anos por Frank Williams, a companhia inglesa já acenava com complicada situação financeira em tempos recentes e, agora, lançou um nova estratégia de mercado que abre a porta para a venda da equipe de Fórmula 1 no futuro. Uma das medidas anunciadas foi o rompimento, com efeito imediato, do contrato de patrocínio com sua então apoiadora principal, a empresa chinesa ROKiT, que atua tanto no setor de tecnologia — smartphones e telemedicina — como também no ramo de bebidas, por meio da ROK Drinks.
 
Além da F1, o Grupo Williams detém também parcela minoritária da Williams Advanced Engineering. Desde dezembro de 2019, a divisão de tecnologia conta com a empresa EMK Capital como acionista majoritária. 

O anúncio sobre a revisão estratégica vem na esteira de números bastante desfavoráveis para o grupo. A Williams registrou queda de receita considerável, caindo de £ 176,5 milhões (R$ 1,17 bilhão) registrados em 2018 para £ 160,2 milhões (R$ 1,06 bilhão) no ano passado. Na operação da F1, a Williams caiu de £ 130,7 milhões (R$ 870,1 milhões) em 2018 para £ 95,4 milhões (R$ 635,1 milhões) no ano passado, com prejuízo total de £ 10,1 milhões (R$ 67,2 milhões), na comparação com o lucro acumulado de £ 16 milhões (R$ 106 milhões) em 2018.

O novo plano estratégico conta com a anuência do diretor-executivo Mike O'Driscoll, do diretor financeiro Doug Lafferty, do conselheiro-geral Mark Biddle e da chefe-adjunta da equipe, Claire Williams. 

 
Em comunicado, a Williams Grand Prix Holding (WGPH) confirmou a revisão estratégica que pode culminar com a venda da empresa como um todo. “O conselho da WGPH está realizando uma revisão de todas as várias opções estratégicas disponíveis para a companhia. As opções que estão sendo consideradas incluem, entre outras, a captação de novo capital para os negócios, a alienação de uma participação minoritária no WGPH ou a alienação de uma participação majoritária no WGPH, incluindo uma venda potencial de toda a empresa”.
Frank Williams pode ver seu sobrenome desaparecer da F1 em um futuro próximo (Foto: AP)
“Embora ainda não tenham sido tomadas decisões sobre o resultado ideal, para facilitar as discussões com as partes interessadas, a companhia anuncia o início de um processo formal de venda. A companhia não recebeu nenhuma abordagem no momento deste anúncio e confirma que está em discussões preliminares com um pequeno número de partes em relação a um possível investimento na companhia”, acrescentou.
 
“Não há certeza de que uma oferta vai ser feita, nem quanto aos termos em que qualquer oferta seja feita. O conselho do WGPH se reserva ao direito de alterar ou encerrar o processo a qualquer momento. E, se o fizer, fará o anúncio apropriado. O conselho do WGPH também se reserva ao direito de rejeitar qualquer abordagem ou encerrar discussões com qualquer parte interessada a qualquer momento”, frisou a empresa.
 
Mike O’Driscoll atribuiu a queda brutal na renda da equipe como reflexo natural da falta de competitividade mostrada nas pistas nos últimos anos.
 
“Os resultados financeiros de 2019 refletem o recente declínio na competitividade da operação na F1 e redução consequente na receita de direitos comerciais. Claro que a temporada da F1 em 2020 foi interrompida em razão da pandemia da Covid-19, e isso vai ter um impacto na nossa receita de direitos comerciais neste ano. A equipe também enviou uma notificação para encerrar a relação com seu parceiro, a ROKiT, e seu patrocinador-máster, a ROK Drinks”, disse.
 
“Em comum com muitos outros negócios, tomamos medidas extensivas para abrandar [a crise], incluindo um período prolongado de férias para grande parte da nossa equipe. À medida em que esta terrível crise global recua, todos na Williams Racing estamos ansiosos pelo começo da nova temporada”, completou o executivo.

Filha de Frank Williams, Claire lembrou que um dos mais tradicionais sobrenomes do esporte a motor pode desaparecer da F1, mas ressaltou que a decisão busca manter a competitividade do grupo e, mais além, garantir os empregos dos funcionários. “Ainda é muito cedo para traçar hipóteses sobre do que pode ou não ser chamada a equipe. Acho que a família Williams certamente vai querer ver o nome Williams na F1. Isso não significa que essa equipe não vai seguir competindo nos próximos anos. Isso, para nós, é garantir o futuro da nossa equipe e garantir um futuro de sucesso para a geração de investimentos internos”.

 
A dirigente salientou que a decisão não foi diretamente motivada pelos efeitos causados pela pandemia. “Não há um fator chave que conduza essa questão. Obviamente, tomamos medidas nos últimos meses para garantir que colocamos a Williams na melhor posição possível financeiramente. E, portanto, competitivamente. E isso é mais uma etapa deste processo. Nenhum fator-chave pode ser atribuído a isso. Há vários fatores que nos levaram a tomar essa decisão”.
 
“O que Frank sempre fez é garantir que ele coloque a equipe, os negócios e nossos funcionários em primeiro lugar. E é isso o que estamos fazendo agora. Da mesma forma, Frank sempre quer ser o mais competitivo possível. E uma das principais razões pelas quais estamos fazendo isso é atrair investimentos internos para a equipe para que possamos capitalizar primeiro as novas regras, que vão entrar em vigor a partir de 2021, e colocar essa equipe na melhor posição possível para ser bem-sucedida. E, no fim das contas, isso é tudo o que importa para nós”, complementou.
 
A companhia, fundada como equipe de corrida, nasceu em 1977 pelas mãos de Frank Williams e Patrick Head. Desde então, faturou nove título mundiais de Construtores e sete de Pilotos, os primeiros já em 1980, no grande ano de Alan Jones. Ao todo, a lendária equipe britânica acumula 114 vitórias, sendo a terceira maior vencedora da história da F1 (atrás da Ferrari, com 238 triunfos; e da McLaren, com 182).
 
Após anos de recuperação entre 2014 e 2016, a Williams voltou a se ver em situação financeira dramática nos últimos tempos, passando a ficar dependente do dinheiro de pilotos pagantes, como Lance Stroll e Sergey Sirotkin. Perdeu o patrocínio da empresa de bebidas Martini ao fim de 2018. Para o ano seguinte, fechou contrato com a chinesa ROKiT. A equipe marcou somente 1 ponto no campeonato de 2019 por conta do décimo lugar de Robert Kubica no GP da Alemanha.

Em 2020, ano terrivelmente afetado pela pandemia da Covid-19, a Williams manteve George Russell, com a bênção da Mercedes, e recorreu novamente a um piloto pagante ao trazer o canadense Nicholas Latifi, filho do bilionário Michael Latifi, para o lugar de Kubica. 

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