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Guia FE 2018/19: Campeonato pioneiro nos carros elétricos de turismo, eTrophy nasce sob batuta da FE

Desde o nascimento da Fórmula E, cerca de quatro anos e meio atrás, era um plano contar com uma categoria-satélite de carros de turismo. A Jaguar, com a bênção da categoria-mãe, conseguiu fazer nascer uma nova

Warm Up / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro / FERNANDO SILVA, de Interlagos / NATHALIA DE VIVO, de São Paulo
Pela primeira vez na história, a Fórmula E vai contar com uma categoria-satélite. Projetada pela Jaguar em colaboração com a categoria dos monopostos, a eTrophy tem como projeto formar o campeonato original de carros de turismo elétricos do mundo. O começo dessa história também vai ser na Arábia Saudita neste 15 de dezembro.
 
O grid será formado apenas por carros do modelo I-Pace, o automóvel elétrico de produção desenvolvido pelo grupo Jaguar Land Rover. A intenção é tentar dar a partida e sair na frente do desenvolvimento da tecnologia que vai para as ruas antes das marcas concorrentes. Levar um carro de produção para a pista para aplicar nele a tecnologia se torna fundamental, pois.
 
O I-Pace preparado tem potência máxima de 325 kw e alcança a velocidade de 195 km/h - a aceleração faz a máquina chegar a de 0 a 100 km/h em 4s5. O carro é extremamente pesado: tem 1.965 kg divididos por um 2,2 m de comprimento e 3,5 m de largura, bem como 1,5 m de altura. 
 
"Tem muita coisa diferente. Primeiro que o carro é muito bom de dirigir, é 4x4, tem [freio] ABS, vários tipos de controle - o que faz o carro ficar muito dócil -, tem muito mais torque do que um carro a combustão, mas muito menos velocidade final. O que faz com que a potência seja máxima a qualquer giro, qualquer momento. Eu achei estranho que não precisa trocar marcha e uma coisa que eu nem esperava: a [falta de] vibração do carro. O conjunto [do carro a combustão], motor, câmbio, diferencial, produz uma vibração que passa para o piloto. E o carro elétrico é muito macio. A sensação de velocidade não é tão grande exatamente porque não tem barulho e vibração", destacou Cacá Bueno em entrevista exclusiva ao GRANDE PRÊMIO.
Um dos carros do Time Brasil na eTrophy (Foto: Jaguar)
"É só o primeiro ano, e o carro é muito bacana, tem bastante potência e torque, mas ainda é muito pesado, sem velocidades finais incríveis. Para o que ele se propõe, que é correr em pistas de rua em pistas de baixa, acho muito bacana. É a isso que o carro elétrico se propõe, uma solução para a mobilidade, grandes centros urbanos. Não ter que trocar marcha, não consumir muito combustível na arrancada, se locomover muito bem em baixa velocidade, essas são coisas que ele entrega bastante", avaliou.
 
O trem de força é quase idêntico aos encontrados no próprio carro de produção, bem como a bateria: de íon lítio e com capacidade de 90 kw/h - tudo produzido pela própria Jaguar.
 
"Como vão ser corridas curtas, estamos entregando a potência e trabalhando para que essas baterias durem meia hora", apontou Cacá. 
 
"Fizemos alguns testes, todos os carros já fizeram duas corridas completas, então isso está sendo preparado. O carro faz tranquilamente uma corrida de 30 minutos. Poderia entregar mais potência? Poderia, mas a bateria ia durar menos. Poderia durar duas horas? Poderia, mas ia ficar mais lento. A sensação, pelo que os engenheiros falam, é que estão entregando hoje uma potência correspondente a de um carro a combustão, que seria em torno de 360 cv de potência. É pouco para um carro de corrida? Ainda é pouco, passaria de 400 cv. É um carro de duas toneladas, então eu acho que o grande problema dele nem é a potência, mas o peso", analisou.
 
"Tenho certeza que nesse primeiro ano vai ter muito desenvolvimento e que no segundo ano vamos ter mais autonomia e desempenho, porque as baterias vão ficando mais leves. É o futuro, isso vai acontecer", garantiu.
Um dos carros do Time China (Foto: Jaguar)
CORRIDAS e GRID
 
As provas do eTrophy vão acontecer sempre entre os treinos classificatórios e as corridas da FE, seguindo exatamente o mesmo calendário. O fim de semana começa às sextas-feiras, com um treino livre, e depois abre o sábado com a classificação. As provas vão ter 25 minutos e mais uma volta.
 
O grid foi preparado para 20 inscritos (incluindo sempre um piloto convidado), mas a primeira corrida ainda não vai contar com tantos carros na pista. A expectativa do diretor-esportivo da Jaguar, James Barclay, é que o começo da temporada faça o mercado se impressionar. "É incomum ver campeonatos atingirem o grid completo na primeira corrida do ano inaugural, então ter mais da metade preenchida é ótimo. Estamos esperando que o grid fique completo durante a temporada, é esse o foco", falou em novembro durante entrevista ao site inglês 'E-Racing365'.
 
A primeira equipe que confirmou a presença na categoria, ainda em novembro de 2017, foi a Rahal Lannigan Letterman, dos mesmos donos da Indy, mas sob o nome de Time EUA e com a dupla de pilotos formada por Katherine Legge e Bryan Sellers. Neste ano, o Time Brasil foi apresentado e com Cacá Bueno e Sérgio Jimenez como os titulares. O Time Alemanha apontou Célia Martin, enquanto o Time Ásia Nova Zelândia foi de Simon Evans - as duas esquadras contam com apenas um carro. O Time China selecionou Tao Wang e Yaqi Zhang, enquanto o Time Arábia Saudita apareceu de última hora e com Ahmed bin Khanen e Bandar Alesayi.
 
A pilota VIP convidada para guiar um carro fornecido pela categoria na etapa de estreia é Alice Powell, campeã da F-Renault Asiática em 2014. É um grid com 11 nomes para a etapa de estreia.
Sergio Jimenez foi confirmado pela Jaguar (Foto: Divulgação)
SÉRGIO JIMENEZ
 
Um dos membros da equipe, Jimenez vai reeditar a parceria que fez com Cacá na temporada 2015 do Blancpain GT. Ao GRANDE PRÊMIO, o piloto falou sobre a chegada e a importância do eTrophy para o futuro do automobilismo. 
 
“Estou muito contente de receber o convite da Jaguar Brasil, de poder participar desse primeiro campeonato, vamos estar fazendo história. Daqui 20 anos, dez anos, quando falarem do primeiro campeonato mundial de carro elétrico de turismo, estaremos presentes lá. Vim trabalhando durante o ano e consegui trazer um bom parceiro para o time, junto com o Cacá que trouxe outro e a gente conseguiu juntar tudo e criar essa equipe”, afirmou. 
 
O piloto de 34 anos comentou sobre os testes de pré-temporada realizados na Inglaterra e como o carro é diferente do que ele está acostumado, especialmente com relação à Stock Car.
 
“Tivemos o primeiro treino em Silverstone, é algo totalmente diferente, tem que reaprender, não tem barulho, liga o carro e não faz barulho, precisa olhar na tela para conferir se está ligado. Não tem marcha, não tem câmbio, é meio que um kart 125cc grandão, pesado, o carro pesa 2.000 kg. Estou muito contente que faremos história e, claro, a ideia é ser competitivo”, apontou.
 
“Nenhuma semelhança [com a Stock], a não ser o tamanho do carro, que não é tão grande. Mas ele é bem mais pesado, é quase 800 quilos mais pesado que o Stock, não tem nada a ver. O pneu é no radial, óbvio, preparado para pista, nós temos os sulcos dele. Preciso aprender a guiar também, porque o slick [como da Stock], quanto mais velocidade põe, mais grip tem; no eTrophy é um pouco diferente, tem que administrar. Tudo o que você aprende aqui, lá é totalmente diferente, tem que reaprender, mas toda vez que volta tem que mudar tudo, então tem que mudar o chip”, explicou.
 
“Nós tivemos o treino, andamos bastante, chegamos a dar 200 voltas. Acho que quem andar mais no carro vai estar mais preparado para a primeira etapa, porque o final de semana de corrida vai ser curto, igual ao da FE: são dois treinos, classificação e corrida. Não conhecemos nenhuma pista, tudo de rua, não tem nos simuladores. Então vai ser bem difícil, quem conseguir chegar mais preparado, pelo menos tendo alguma noção de onde faz a curva, como faz, tiver um pouco com a mão do carro e entender como vai pilotar na rua, é aquele que vai sair na frente. Como é uma coisa nova para todo mundo, quem conseguir chegar um pouco mais preparado vai estar um passo à frente”, avaliou.
 
Jimenez lembrou também que serão cinco pilotos brasileiros entre FE e eTrophy, o que avalia como bom para o automobilismo nacional. E espera que uma corrida no Brasil seja confirmada em breve.
 
“Tenho certeza, o Brasil vai ter três representantes na FE, dois nesse campeonato elétrico de turismo, então são cinco pilotos. O Brasil sempre foi muito forte no automobilismo, continuamos formando bons pilotos, bem menos do que antes, mas segue formando bons pilotos. O Brasil vai receber uma etapa em 2019/20, assim espero, muitas pessoas estão batalhando por isso. Acho que o Brasil é uma potência, sempre vai ser, apesar de tudo. Vamos ter muita força com cinco pilotos representando o país nessa nova categoria que é o futuro. Já temos dois campeões elétricos, não tem o que falar. São cinco pilotos que representam eletricamente e só coloca o Brasil para cima”, finalizou.
Um dos carros do Time Brasil na eTrophy (Foto: Jaguar)
CACÁ BUENO
 
Como conciliar a vida de um dos favoritos a vencer corridas e campeonatos na Stock Car e uma nova categoria, completamente diferente e internacional? Para Cacá Bueno, nenhum sacrifício. É, pelo contrário, “muito bacana”.
 
“A Stock Car ainda é meu projeto principal, porque é o que o brasileiro mais assiste - F1 e Stock Car. Sempre dediquei minha carreira muito à América do Sul, Brasil e Argentina. O único grande projeto internacional no qual eu me envolvi foi no Time Brasil, do Antônio Hermann - no Blancpain GT. Agora não é diferente. A entrada [no eTrophy] é muito disso. Quero mostrar tudo isso ao sul-americano, montar um novo Time Brasil. Parece pachecada, mas não é. É para quem gosta de mim e do que a gente faz”, afirmou. 
 
“Só que é um pouco diferente, porque a gente está escrevendo o nome na história. É diferente da Stock e outras categorias internacionais com carro fantásticos. Não é isso que eu quero [carros incríveis]: eu acho que os carros elétricos são o futuro do automobilismo. É escrever o nome na história ao participar desse futuro que está sendo escrito agora”, observou. 
 
“É o primeiro campeonato mundial de carros de turismo elétricos. A gente tem a FE, que são carros de corrida, mas esse é o primeiro de carros mesmo que as pessoas podem comprar, como é a origem da Stock Car, WTCC e daí em diante. Estamos juntos de uma montadora que está formando um time brasileiro, junto de uma Fórmula E que só cresce, em grandes capitais do mundo e quem sabe para no fim do ano ser coroado como o primeiro campeão de carros elétricos de turismo”, declarou. 
 
Mas títulos não são a única possibilidade que movem o experiente piloto brasileiro.
 
“Estamos falando muito além do fato ser melhor ou não. É só o primeiro ano da categoria, ainda tem espaço de melhora para o carro, mas o automobilismo é para isso, desenvolvimento de produto. A ideia e o conceito são geniais, o futuro eu não tenho a menor dúvida que é elétrico, então eu estou caminhando junto com o futuro do automobilismo”, assegurou.
 
A experiência de ajudar a desenvolver um novo carro também não é novidade para Cacá. Pelo contrário, é algo que ele aprendeu muito bem como fazer ao longo da carreira.
 
“Eu fiz muito isso na minha carreira. Pouca gente vai lembrar, mas fui o cara que testou o primeiro Stock Car tubular. Quando o chassi tubular mudou, em 2000, eu não corria na categoria, estava na Argentina. Andei com o carro em Buenos Aires, depois Curitiba... Só fui para a categoria dois anos depois. Desenvolvi um carro de TC 2000 para a Peugeot, em 1999, o carro era totalmente novo. Trabalhei junto com o pessoal da fábrica. Enfim, eu fiz bastante isso nos meus primeiros anos de carreira. Voltar a fazer isso é muito bacana, falar com vários engenheiros, dar feedback... Os carros da FE na quinta temporada são completamente diferentes aos da primeira, e eu acho que vai acontecer o mesmo com os carros de turismo elétrico”, falou.
 
Cacá reafirma: assumir esse papel à frente da tecnologia elétrica é sobretudo uma questão de legado.
 
“A Jaguar não quis esperar as outras montadoras, viu que tinha tecnologia para isso e entende que a melhor maneira de acelerar o desenvolvimento de uma tecnologia é colocar carros de corrida na pista, com a ajuda de engenheiros e grandes pilotos, que possam dar boas respostas. Há a preocupação com a confiabilidade, claro, mas muito mais com o desempenho. Fazer parte disso, então, é fazer parte da história. É virar referência. Eu não sou um cara tão novo, mas ainda tenho lenha para queimar”, explicou o piloto de 42 anos de idade. 
 
“Ser pentacampeão da Stock Car é uma referência, mas eu nunca fui uma referência internacional. Sei que tem outros grandes pilotos nacionais, mas talvez daqui a três ou quatro anos, quando os carros elétricos forem uma realidade, quem vai ser a referência? Eu quero ser uma delas. Quero participar, ajudar a desenvolver o produto, talvez ganhar o campeonato. Quando, daqui a alguns anos, existirem outros campeonatos, vão se perguntar quem ganhou o primeiro. É continuar um trabalho de ser referência no automobilismo”, comentou. 
 
“Não quero dizer que sou melhor que ninguém. Poxa, estou tendo um trabalho danado para seguir a molecada na Stock Car e tem muito talento pelo mundo, mas ser referência não é só ganhar corrida: também é fazer as coisas bem feitas. E quero continuar fazendo isso no mundo do automobilismo”, afirmou.
 
Numa avaliação dos testes de pré-temporada, mostrou um pouco mais da compreensão do I-Pace e da impressão da competitividade do campeonato.
 
“Fizemos dois testes e meu carro não teve qualquer problema de temperatura ou desgaste. Diferente dos outros carros, você vai gastando a bateria e o carro não fica mais rápido ou mais leve. O carro entrega a mesma potência na primeira volta com 100% de bateria e na última volta com 25%. Não perde a performance até cair de 20%. São várias coisas a aprender, controlar e utilizar. Como o carro não é tão rápido, o piloto excelente, o muito bom e o bom, acabam se equivalendo e andando meio igual. Então não vejo uma diferença de pilotagem tão grande, e o campeonato fica disputado”, falou.
 
Mas a agenda apertada, como viagens pelo Brasil e para fora, não atrapalham? “Só para minha mulher e meu filho”, ele brinca. “[Daniel] Serra e [Felipe] Fraga são os dois pilotos provavelmente com o calendário mais apertado atualmente na Stock Car e são os que estão andando melhor. Às vezes a gente precisa de um desafio, e quanto mais anda, melhor fica”, finalizou.