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Guia FE 2018/19: Com grid de peso e maior calendário da história, FE infla, mas se curva ao 'money talks'

22 carros, 11 equipes e 13 corridas. A quinta temporada da Fórmula E encara uma série de mudanças estruturais e trabalha para crescer também no nome dos pilotos escolhidos. Apesar disso, ignora histórico da Arábia Saudita e se vende aos petrodólares de uma monarquia no olho do furacão

Warm Up / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
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Não só de um novo carro vive a temporada de revolução da Fórmula E, que começa no próximo sábado, 15 de dezembro, na Arábia Saudita. Parte das grandes mudanças propostas estão também fora do panorama técnico, mas distribuídas entre um grid recheado de diferenças e nomes importantes, bem como um calendário mudado e com uma polêmica gigantesca a encarar logo de cara.
 
O eP de Ad Diriyah que abre a temporada é por si só uma novidade da Fórmula E. E não somente uma novidade em termos de nova praça para a categoria, como aconteceu outras tantas vezes nestes cinco anos. Não. A cidade saudita, ex-capital do país, recebe uma corrida polêmica, que foi contratada por longo período e com intenção política fortíssima. 
 
A Arábia Saudita é conhecida mundialmente por alguns traços sociais e econômicos. Um deles, no que diz respeito ao financeiro, é a forte produção do petróleo, o que naturalmente põe o país na rabeira da sustentabilidade mundial em tempos de discussão sobre meio ambiente. Na vida cotidiana, não é segredo que o país tem amarras fortíssimas de uma sociedade tocada por uma visão religiosa extremada, o wahabismo. 
 
O príncipe Mohammad bin Salman, herdeiro do trono saudita, coordena então um projeto chamado Vision 2030. O projeto tem em vista colocar a Arábia como exemplo de sustentabilidade e afastar a imagem de país explorador de petróleo até 2030, mas vai mais longe: o país tem a intenção de passar a imagem de socialmente evoluído também. Progressivo, até.
Calderón com o carro da DS Techeetah: ela será uma das participantes no teste em Ad Diriyah (Foto: DS Techeetah)
Uma das medidas tomadas no ano passado, pasmem, foi a liberação para que mulheres possam tirar carteira de motorista. Contudo, como as mulheres só podem acessar quaisquer serviços públicos sob a tutela de homens - marido ou familiar mais próximo -, apenas aquelas que recebem consentimento é que podem dar o passo de buscar a licença de motorista.
 
Mas isso tudo foi usado como algo positivo pela FE. Pudera, era a oportunidade de levar um monte de pilotas para lá e mostrar como a inclusão é importante: fica bem para a categoria, que em tese impõe suas vontades e dá uma lição de humanidade, e bem para o país, que agora passa a mostrar o quanto é a favor das mulheres em igualdade de condições aos homens. 
 
Para sustentar o serviço de fachada, a Arábia Saudita não pagou apenas por dez anos de corrida - num contrato que garante os cinco primeiros anos e tem cláusula automática de renovação por mais cinco - e para abrir as temporadas: negociou também uma data para sediar um dia de testes coletivos. Únicos testes de meio de temporada, aliás, mesmo sendo no dia seguinte da corrida de estreia. Não faz sentido esportivo, mas é um arranjo financeiro potente.
 
A situação foi costurada no meio de uma guerra que a Arábia mantém com o Iêmen - na verdade a situação está mais para uma aniquilação. A 'guerra' causa o que a Organização das Nações Unidas considera a maior crise humanitária do mundo, superior até a da Síria. Desde o começo do conflito, em 2015, cerca de 85 mil crianças morreram de fome, segundo números da Save the Children, organização não-governamental norte-americana que trabalha pela saúde e contra a fome infantil no mundo.
 
No geral, mais de 14 milhões de iemenitas correm o risco de fome. E essa é apenas uma parte dessa tragédia.
 
A situação se agravou ainda mais quando vieram à tona as informações sobre o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, que havia se tornado crítico da monarquia saudita e estava exilado nos Estados Unidos e trabalhando para o jornal 'The Washington Post'. Khashoggi nunca mais foi visto após entrar no consulado saudita em Istambul, na Turquia, enquanto pegava documentos para se casar. Primeiro a inteligência turca e depois a CIA, serviço de inteligência dos EUA, chegaram à mesma conclusão: Khashoggi foi assassinado dentro do consulado e a mando do príncipe herdeiro. O governo saudita mudou a versão oficial algumas vezes até admitir que era o mandante do assassinato. 
 
A FE chegou a titubear nas confirmações de que haveria corrida, mas não pisou atrás. Vai abrir sua nova fase na Arábia Saudita. Money talks, não tem jeito.
Jamal Khashoggi foi brutalmente assassinado (Foto: Reprodução/Twitter)
CALENDÁRIO
 
Como a Arábia Saudita está bem comentada, os outros pontos do calendário precisam ser destacados. As novas cidades são Sanya, na China, e Berna, na Suíça. Mônaco volta ao campeonato no já consagrado esquema bianual, enquanto a etapa de Santiago terá uma nova pista. Vão ser 13 corridas em 12 etapas, visto que o eP de Nova York encerra a temporada em rodada dupla. 
 
Hong Kong deixa de ter rodada dupla e não mais abre o campeonato. Em vez da etapa inicial, como na temporada 2017/18, passa para março de 2019 e vira a quinta etapa da competição. Como o dinheiro saudita gritou, a FE resolveu parear Hong Kong com a prova de Sanya. As duas vão acontecer separadas por duas semanas.
 
Marrakech segue como segunda etapa, bem como a corrida de Santiago é a terceira e mantém a América do Sul no mapa. A pista, entretanto, sai do centro da capital chilena e agora é concentrada no Parque O'Higgins - que, por ser reservado, também sedia outros grandes eventos na cidade, como o festival de música Lollapalooza. A Cidade do México aparece depois, ainda como quarta etapa; 
 
Quando a F1 começar a temporada dela, no último fim de semana de março, a Fórmula E já vai ter passado por seis etapas. A temporada europeia vai ter Roma, Paris, Mônaco e Berlim entre os dias 13 de abril e 25 de maio. 
 
Antes de partir para os Estados Unidos, a Suíça volta ao mapa. Apesar de perder Zurique, que em 2018 sediou a primeira corrida de automóveis no país em 63 anos, por conta de um calendário cheio de outros eventos no mesmo período, a FE correu atrás de outras alternativas para não perder a Suíça. Conseguiu descolar um espaço já tardio para Berna. O traçado ainda não foi divulgado, mas há tempo de acertar ponteiros até 22 de junho.
 
A temporada se encerra nos dias 13 e 14 de julho, novamente em Nova York.
Sanya, cidade paradisíaca da China (Foto: Reprodução)
EQUIPES E PARCEIRAS
 
A primeira coisa destacável com relação aos times é que há um a mais. A HWA, que a partir da temporada que vem vai se tornar a equipe de fábrica da Mercedes, molha o dedo da montadora alemã na FE. Ao preparar o terreno, pela primeira vez aumenta o grid de 20 para 22 carros. 
 
A outra nova marca na jogada é a Nissan. Montadora irmã da Renault, a companhia japonesa assume o espaço deixado pelo time francês - agora focado apenas na F1. Apesar da mudança de cores e nome, a esquadra segue operada pela e.dams de Jean-Paul Driot e fica com a tecnologia que a Renault desenvolveu. 
 
A Nissan, diferente da Renault, não vai contar com uma equipe cliente. Dito isso, a Techeetah precisou procurar uma saída: e ficou na França, mas com outro tipo de parceria. Agora, o time chinês serve de equipe oficial da DS Citroën - que, por sua vez, desfez o acordo de anos com a Virgin.
 
Após ter mais da metade das ações compradas pela companhia chinesa Envision na temporada passada, a Virgin promoveu uma série de mudanças e deixou de ser equipe oficial da DS. Na temporada vindoura, vai utilizar os motores da Audi na capacidade de equipe cliente.
 
Outra equipe cliente do grid é a própria HWA. Se a Mercedes vai introduzir um trem de força no ano que vem, por enquanto o time alemão terá de se contentar e acompanhar de perto a tecnologia da Venturi. 
 
Por fim, mais uma grande novidade é que a BMW passa a operar a Andretti como equipe de fábrica. Uma enorme passo para uma das marcas que desdenhou da FE lá nas origens da categoria por conta das baterias que não duravam sequer uma corrida inteira.
Sébastien Buemi (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio
GRID
 
Apenas três equipes mantém a dupla de pilotos colocada na pista na temporada 2017/18: Audi [Lucas Di Grassi e Daniel Abt], DS Techeetah [Jean-Éric Vergne e André Lotterer] e Jaguar [Mitch Evans e Nelsinho Piquet].
 
Uma gleba de pilotos novatos na categoria também foram escolhidos, mas estão longe de nomes duvidosos. Um deles é Felipe Massa, que será companheiro do agora veterano Edoardo Mortara na Venturi. É verdade que a FE contou por alguns meses com Jacques Villeneuve, o campeão mundial da F1 em 1997. Mas o canadense estava aposentado há quase dez anos quando ingressou na FE. Massa, ao contrário, acabou de sair da F1 e andou se preparando por quase um ano para os bólidos elétricos. É o piloto em forma com carreira mais bonita na F1 a chegar na FE.
 
Não é pachequice afirmar que a entrada de Massa na categoria é um marco: o próprio piloto acha que sim, como os leitores vão ver em entrevista exclusiva na próxima sexta-feira. 
 
Além de Felipe, Stoffel Vandoorne também entra na categoria - exatamente pela HWA - menos de um mês depois de fazer a última corrida dele na F1, transição mais rápida entre as categorias desde Vergne em 2014. Pascal Wehrlein, pupilo da Mercedes e que passou duas temporadas penando na F1 por equipes pequenas após ser o campeão mais jovem da história do DTM, está na Mahindra. Gary Paffett chega como o atual campeão do DTM para ser o companheiro de Vandoorne, enquanto Jérôme D'Ambrosio troca a Dragon pela Mahindra para ser parceiro de Wehrlein. Na primeira corrida do ano, entretanto, o antigo titular Felix Rosenqvist [que deixou a FE com destino à Indy] aparece na vaga de Wehrlein, impedido de correr por ainda ter contrato com a Mercedes até 31 de dezembro.
 
A Virgin mantém Sam Bird, um dos dois pilotos a vencer corridas nas quatro primeiras temporadas da FE, e substitui Alex Lynn com Robin Frijns. O holandês guiou pela Andretti dois anos atrás e estava fora da categoria. Já na Dragon, que sacou D'Ambrosio de seus quadros, chega Maximilian Günther para fazer dupla ao remanescente José María López.
Pascal Wehrlein (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio)
Assim como Virgin e Dragon, BMW e NIO mudam apenas um de seus dois pilotos. António Félix da Costa continua na marca alemã, mas Alexander Sims entra na vaga que terminou a temporada com Stéphane Sarrazin. E Tom Dillmann rende Luca Filippi ao lado de Oliver Turvey no time da start-up chinesa.
 
O caso mais confuso é o da Nissan. Sébastien Buemi teve o contrato garantido, mas Nicolas Prost acabou demitido. Alexander Albon, promessa da F2, foi contratado em seu lugar. Mas a dança das cadeiras da F1 apontou em direções inesperadas e transformou Albon em alvo da Toro Rosso. A Nissan precisou abrir mão do piloto que havia escolhido e se voltou para Oliver Rowland. 
 
Mesmo fora dos chassis, baterias e pneus, a Fórmula E muda bastante e tenta se manter sólida para que os ventos da mudanças, segundo cantados em poesia pela banda alemã Scorpions quase 30 anos atrás, não sejam fortes demais para abalar as estruturas que ainda têm cheiro de Mucilon.