Hyderabad subverte lógica da Fórmula E e vê errática DS Penske sorrir no final

Na melhor corrida da Fórmula E em 2023, Jean-Èric Vergne se aproveitou de todos os benefícios gerados pelo caos do eP de Hyderabad e fugiu de incidentes para garantir uma vitória completamente inesperada para a DS Penske

No automobilismo, nem tudo precisa fazer exato sentido. E apesar de todo o desejo da Fórmula E em desembarcar na Índia, certamente nem o mais otimista organizador da categoria imaginaria o que estava por vir na estreia da modalidade no país, neste sábado (11). A vitória de Jean-Èric Vergne, com uma DS Penske que não havia mostrado absolutamente nada até aqui na temporada, veio recheada de fatos inusitados e um desfecho épico. Se Diriyah trouxe o primeiro show dos carros Gen3, Hyderabad tomou isso como ofensa pessoal e decidiu que faria melhor. E fez.

O início terrível da DS Penkse na Fórmula E é uma realidade, e os fatos são evidentes até para a dupla da equipe — que não fez questão de esconder a irritação com os míseros sete pontos conquistados nas três primeiras corridas. Atual campeão, Stoffel Vandoorne já falava em “situação crítica”, enquanto Vergne pediu ao time que “encarasse a realidade” após a rodada dupla de Diriyah.

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Pois bem, nada disso fez sentido em Hyderabad. E nem pode-se dizer que a DS Penske mostrou um ritmo alucinante, mas uma série de fatores foi fundamental para colocar Vergne em uma posição privilegiada no pelotão — e para um bicampeão da categoria, profundo conhecedor dos meandros da Fórmula E, foi mais do que suficiente.

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Vergne espantou o começo ruim de 2023 vencendo o primeiro eP de Hyderabad da Fórmula E (Foto: DS Penske)

Tudo começou na classificação: pela primeira vez na temporada, Vergne foi aos mata-matas, igualando o feito de Vandoorne na etapa anterior — quando o belga caiu nas quartas. Em um resultado previsível, o francês acabou eliminado por Sam Bird, da Jaguar, em uma disputa apertada. A questão, entretanto, é que o inglês acabou punido por ultrapassar os limites de pista e a vaga caiu no colo do bicampeão.

No duelo seguinte, justamente aquele que definiria o adversário de Vergne nas semifinais, a história se repetiu — e desta vez, em dobro: tanto Edoardo Mortara quanto René Rast, rivais na disputa final das quartas, foram punidos pelo mesmo motivo e acabaram desclassificados da atividade, assim como Bird.

Como resultado, o piloto da DS Penske passou de eliminado nas quartas diretamente para a primeira fila, sem vencer nenhum duelo pelo caminho. Ainda que tenha sido derrotado por Mitch Evans na final, o lucro já era enorme para alguém que só tinha somado pontos em uma corrida até aqui e não tinha ido ao mata-mata uma vez sequer em 2023.

Na largada, Vergne até que tentou atacar Evans, mas logo percebeu que seria mais prudente segurar a segunda colocação. A questão é que a estreia da Fórmula E na Índia não permitiu que estratégias pensadas antes da corrida fossem implementadas à risca, já que os acidentes se multiplicaram ao longo da disputa e transformaram completamente o cenário.

Cassidy ganhou oito posições em relação ao grid de largada, mas saiu com a sensação de que poderia vencer em Hyderabad (Foto: Fórmula E)

Edoardo Mortara destruiu a dianteira de sua Maserati ao bater em Nick Cassidy; Sam Bird cometeu um erro trágico e acabou com a corrida de Mitch Evans, seu próprio companheiro de equipe, além de derrubar Maximilian Günther e Sacha Fenestraz no pelotão; René Rast se chocou violentamente com a traseira de Jake Dennis; por fim, Jake Hughes rodou sozinho e estatelou sua McLaren no muro.

Além de todas as batidas, a direção de prova também contribuiu para o caos na pista indiana: em um traçado que obriga os pilotos a se preocuparem constantemente com os limites de pista, o fim da corrida virou um festival de punições: Stoffel Vandoorne, Lucas Di Grassi e Jake Dennis foram punidos em 5s cada, enquanto Sébastien Buemi levou outros 17s por estourar o limite permitido de energia.

Em resumo, uma baita confusão. E foi justamente aí que o bicampeão da Fórmula E cresceu, aproveitando a instabilidade dos concorrentes para enfileirar um por um rumo à vitória. Enquanto cada um deles sofreu com o caos, Vergne adotou uma estratégia absurdamente ousada e recebeu os lucros no fim.

Enquanto Cassidy parecia o favorito para a vitória, com 4% a mais de energia na última volta, Vergne mostrou que seus 0,8% de bateria eram exatamente o necessário para cruzar a linha de chegada. E assim foi, com a energia da DS Penske atingindo sua capacidade máxima no momento exato da bandeirada.

O acidente entre as duas Jaguar — no fundo da imagem — causou um abandono duplo em Hyderabad (Foto: Fórmula E)

No fim, o neozelandês da Envision ficou com 2% de bateria sobrando e percebeu que poderia ter despejado potência antes. Apesar de o gerenciamento de energia ser vital na Fórmula E, o objetivo é cruzar a linha com a bateria zerada, aproveitando toda a potência disponibilizada pelo Gen3. Vergne teve a capacidade de fazer exatamente isso, enquanto Nick guardou demais e não teve tempo para atacar no fim.

Em relação à disputa pelo campeonato, o show de punições e batidas não favoreceu à caça ao líder Pascal Wehrlein. Discreto e longe de incidentes, o alemão superou uma punição que o jogou para o 12º lugar do grid e subiu até a quarta posição, abrindo 18 pontos para Jake Dennis e incríveis 49 tentos para o terceiro colocado no Mundial de Pilotos, o vencedor Vergne. Em termos de competitividade, é preocupante.

Independentemente das circunstâncias da disputa, a impressão que fica, mais uma vez, é de que a Porsche tem um ritmo de corrida superior a todas as outras equipes do grid no momento — ainda que essa velocidade não apareça na classificação. Com isso, caso se mantenha longe de problemas, é difícil imaginar um conjunto mais consistente do que os alemães no momento.

A Jaguar também demonstrou força impressionante, com a pole de Evans e a presença das duas Envision — que usa o trem de força inglês — no pódio, mas foi acertada em cheio pelos imprevistos: Mitch e Bird abandonaram, e Buemi caiu de terceiro para 15º ao ser punido no fim. Cassidy, único que passou ileso pelas confusões — não exatamente ileso, já que chegou a ser acertado por Mortara — conseguiu um ótimo segundo lugar.

A McLaren teve seu primeiro fim de semana para esquecer em Hyderabad (Foto: Fórmula E)

Por fim, a McLaren conheceu seu primeiro fim de semana ruim na Fórmula E. Após ver Jake Hughes pontuar em todas as corridas e conquistar até uma pole em sua terceira etapa na categoria, o time britânico sofreu com o primeiro erro grave do novato e ainda viu Rast despedaçar o carro ao errar em disputa com Dennis. Sem motivos para desespero, mas é curioso que o abandono duplo venha um dia depois de Jake pedir paciência em momentos ruins.

A vitória de Vergne certamente não coloca a DS Penske como uma das favoritas na Fórmula E, e o domínio da Porsche segue inabalável na Era Gen3. No entanto, etapas como a de Hyderabad mostram que a ordem de forças não é tudo no automobilismo, principalmente em uma categoria exigente como a FE.

Se os imprevistos não foram suficientes para apimentar a briga no topo do Mundial, ao menos intensificaram ainda mais a briga no meio da tabela. Como dito no início deste texto, nem tudo precisa fazer sentido neste esporte. E tudo bem.

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