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Vergne trata rádio como terra de ninguém. Como FIA e Fórmula E dão punição tão branda?

Jean-Éric Vergne tentou manipular a decisão da Fórmula E, na qual chegou líder por 32 pontos. Nem sequer disfarçou. Na primeira oportunidade que teve, pediu para que a equipe forçasse o companheiro a causar deliberadamente um safety-car. Em resposta a isso, FIA e Fórmula E vieram com um dia de serviços comunitários e o recado de que a tentativa de crime compensa

Grande Prêmio / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
A primeira lembrança que vem à mente é a de Sebastian Vettel, talvez dois ou três anos atrás, reclamando da patrulha da imprensa e dos fãs ao rádio das equipes, único canal de comunicação por áudio entre pilotos e seus times durante as corridas. Na ocasião, Vettel afirmou que se jogadores de futebol tivessem um microfone durante as provas também seriam flagrados dizendo coisas que não iriam soar corretas ou esportivas. E o mesmo vale para os pilotos, de sangue quente e no auge da adrenalina, durante as corridas. Vettel não estava errado nessa avaliação. A falta de limites na revelação para o público sobre o que é dito na redoma dos carros tende a ser mais prejudicial que benéfica para os pilotos, embora aproxime-os do público e torne figuras mais humanas.
 
Mas tem limite. Até o rádio precisa ter limite. 
 
Jean-Éric Vergne atropelou esses limites durante as voltas iniciais da corrida 1 do eP de Nova York que definiu a temporada 2018/19 da Fórmula E, no último sábado. Atropelou porque efetivamente tentou manipular a corrida ao pedir por duas vezes que a DS Techeetah ordenasse ao companheiro André Lotterer que parasse o carro na pista a fim de causar um safety-car que beneficiaria o infrator - ou, no caso, o mandante da infração. 
Jean-Éric Vergne (Foto: DS Techeetah)
Recapitulando: Vergne largava no meio do pelotão, embora à frente dos rivais Lucas Di Grassi e Mitch Evans. A confusão chegou a ele quando Tom Dillmann tocou o carro do líder do campeonato e causou um furo de pneu, que obrigou o francês a parar nos boxes e cair para a última posição entre aqueles que seguiam na corrida. Foi nesse cenário que tentou fazer o jogo de equipe, porque Lotterer havia acertado e sido acertado por José María López e tinha danos na asa dianteira - tanto que abandonou a prova, embora tenha ido para os boxes e não causado uma celeuma na corrida.

Lotterer foi quem acertou López, sem culpa. E se, por coincidência, sem saber de fato que o companheiro tinha pedido, ele parasse? Aliás, ele chegou a parar, inclusive. E depois acelerou e caminhou pros boxes.
 
Como ficaria efetivamente provado que não era uma determinação prévia se fosse consumado o pedido, ainda que por vias tortas? Só assim que seria dado o real valor deste descalabro?
 
Desta forma, Vergne não manipulou a corrida efetivamente, até porque o engenheiro da DS Techeetah se recusou sequer a responder as sugestões de seu piloto-estrela. Mas tentou, teve a intenção de fazer exatamente isso, e o dolo de manchar a decisão conta. Deveria contar, pelo menos. 
 
A patrulha contra o rádio é equivocada muitas vezes, especialmente em momentos de reclamação e desabafo. Mas isso? Sai do âmbito esportivo. É trapaça, e é tão descarada que sequer aconteceu via código ou qualquer coisa do tipo. Vergne pediu no rádio, que é disponível para o público pelo aplicativo da categoria e sempre monitorado pela direção de prova. "Diga a André para parar... Trazer o safety-car à pista", falou, claramente indicando a intenção. 
 
Vergne reafirmou o que havia feito quando em entrevista ao site norte-americano 'Motorsport.com'. Falou que todo mundo faz isso na F1 e na FE, algo normal dos pilotos no mais alto nível internacional. É difícil medir a veracidade da afirmação, até porque não é todo mundo que abre os braços e admite tentativa de manipulação de resultados de forma tão clara. Mas há que se partir do princípio que não é assim tão comum, uma vez que os comissários escutaram e puniram. 
Jean-Éric Vergne e André Lotterer (Foto: DS Techeetah)
A punição? Um dia de serviços comunitários por ter dado mau exemplo. É muito pouco, uma esculhambação por parte de FIA e Fórmula E. Das duas uma: ou é necessário admitir que esse tipo de coisa é lugar comum e acontece sempre, com todo mundo, que é do jogo e não deveria ser passível de punição - embora essa opção fosse uma vergonha por seus próprios méritos - ou é uma tentativa de manipulação e é clara. Um dia de serviços comunitários não muda atitudes, não inibe mau-caratismos futuros e apenas sublinha que algo de muito errado aconteceu e não está sendo tratado com a devida seriedade. 
 
Um dia de serviços comunitários, seja servindo de comissário especial numa corrida ou picando papel na sede da FIA em Paris, é uma moleza. Não vai impedir que ninguém tente mudar de forma escusa os rumos de um campeonato. Pelo contrário, abre as portas para que façam exatamente o contrário, uma vez que não é encarado com a seriedade necessária. 
 
Vergne não deveria receber serviços comunitários apenas. É brando demais. A opinião particular de quem escreve este artigo? Desclassificação do eP de Nova York e banimento das três primeiras corridas da nova temporada, que estão marcadas para novembro e dezembro. Que Vergne esfrie a cabeça e pense no que fez até 2020 e com o perigo de ser excluído de uma temporada inteira caso reincida. Em cima disso, se quiserem colocar um dos pilotos mais famosos do mundo para picar papel, que façam. A punição terá sido dada.


Como a Toro Rosso demonstrou no tuite em que parabenizou e tirou sarro do bicampeão da Fórmula E, Vergne é um falastrão inveterado no rádio. Que aprenda ao menos a fronteira entre conversa, reclamação e conluio.
 
A FIA e a Fórmula E deveriam se levar a sério e impedir que tentem ludibriá-las sem ao menos disfarçar. Assinaram, porém, uma carta em branco com o recado de que o crime compensa.


Paddockast #24
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