Desde que assumiu o cargo de presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) no final de 2021, Mohammed Ben Sulayem se tornou protagonista por colocar a entidade em situações de conflito com a Fórmula 1
A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) e a Fórmula 1 já tiveram inúmeros atritos ao longo da história da categoria, mas poucas vezes eles se tornaram tão intensos e frequentes quanto tem acontecido na gestão de Mohammed Ben Sulayem, atual presidente do órgão que regula o esporte.
Desde que assumiu o cargo no final de 2021, Sulayem tem sido figura presente no noticiário, mas pelos motivos errados. Na grande maioria das vezes que o dirigente foi destaque nas manchetes, foi por alguma fala ou decisão polêmica envolvendo os pilotos e os rumos da Fórmula 1.
Por isso, o GRANDE PREMIUM listou dez ocasiões em que a gestão de Mohammed Ben Sulayem causou um atrito entre a FIA e a Fórmula 1. Confira:
Punição a Hamilton por não ir na cerimônia da FIA em 2021
A primeira polêmica da gestão de Mohammed Ben Sulayem aconteceu ainda em 2021, poucos dias após assumir o cargo de presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). Na ocasião, tanto a Mercedes quanto Lewis Hamilton foram prejudicados por uma controversa decisão tomada pelo diretor de provas Michael Masi, na etapa derradeira de 2021, em Abu Dhabi, e que mudou os rumos do campeonato.

Na época, a Mercedes apresentou dois protestos, ambos rejeitados pela FIA. Por conta disso, Hamilton optou por não comparecer na premiação da entidade, em Paris. A atitude irritou Ben Sulayem, que ameaçou punir o heptacampeão com uma multa ou sanções esportivas. No fim, nada fez.
Contribuição financeira por aumento das corridas sprints
As corridas de formato sprint foram introduzidas na Fórmula 1 em 2021, mas inicialmente eram realizadas em apenas três fins de semana. No ano seguinte, o número foi mantido, mas a categoria tinha o desejo de dobrar a quantidade de provas curtas para 2023.
Na reunião da Comissão da F1, o Liberty Media notou baixa resistência das equipes com a proposta, mas se viu frustrado pela negativa do órgão que comanda o esporte. Em nota, a FIA afirmou que apesar de apoiar o aumento no número de eventos, analisou o impacto da proposta nas operações de pista e em seu staff, rejeitando assim a ideia da categoria.

Porém, segundo a revista inglesa Autosport, o presidente Mohammed Ben Sulayem avisou que só levaria a ideia adiante se o órgão recebesse contribuição financeira por isso, deixando a votação sem a maioria dos votos necessários para levar para a aprovação do Conselho Mundial do Esporte a Motor. No fim, a temporada 2023 contou com seis rodadas sprint.
Uso de joias
A FIA também tentou regular o uso dos acessórios dos pilotos durante os fins de semana de corrida. Em 2022, a entidade introduziu uma seção nos formulários de verificação técnica obrigatória – que as equipes devem assinar no registro da etapa. Tais formulários passaram a ter duas passagens extras, delineando as regras estipuladas no Código Desportivo Internacional.
Em um deles, as equipes deveriam declarar que seus pilotos não usavam joias e que suas roupas íntimas de corrida também estavam de acordo com os padrões de segurança da entidade.

Críticas a políticas sociais e ativismo
Um pouco mais tarde naquele ano, Sulayem voltou a entrar em conflito com os principais pilotos da categoria. Na época, o presidente da FIA citou exemplos de Lewis Hamilton, Sebastian Vettel e Lando Norris ao falar que o esporte a motor não deveria se envolver com temas políticos.
Ao ser questionado sobre o que o esporte não deveria se tornar, Mohammed citou os três como referência e disse que a categoria não deveria ter atletas que advogam por temas como direitos humanos, meio ambiente e saúde mental.
“Sou de uma cultura árabe: sou internacional e muçulmano. Não imponho minhas crenças nos outros, de jeito nenhum, nunca”, disse o dirigente na época.
Interferência nas negociações e nos valores da F1

No início de 2023, um fundo de investimentos da Arábia Saudita sondou o Liberty Media para comprar a F1 por US$ 20 bilhões [R$ 111,8 bilhões na cotação do dia]. Porém, Ben Sulayem se meteu no assunto e disse que a categoria não valia tudo isso. A declaração, é claro, repercutiu de forma negativa.
O grupo detentor dos direitos da categoria enviou uma carta à FIA, contestando a posição do presidente. Sacha Woodward Hill, advogada de longa data da Fórmula 1 e membra do conselho de administração da categoria, e Renee Wilm, diretor jurídico e administrativo do Liberty Media e um dos acionistas da Fórmula 1, não pouparam críticas à postagem de Ben Sulayem nas redes sociais.
Por conta disso, o presidente da FIA deixou de exercer um papel mais direto nas operações da F1 e entregou o dia a dia das conversas com os chefes da maior categoria do esporte nas mãos de Nikolas Tombazis, diretor de monopostos da entidade que rege o esporte.
FIA e a investigação contra família Wolff
Em dezembro de 2023 a FIA abriu uma investigação sobre o casal Toto e Susie Wolff. O processo foi iniciado após supostas reclamações de outros chefes de equipe da Fórmula 1 sobre as atividades da dupla.

Na época, houve a preocupação de que o casal tivesse acesso a informações que normalmente não estariam disponíveis, o que poderia ser visto como conflito de interesses. Toto é chefe de equipe da Mercedes, enquanto Susie é diretora da F1 Academy, categoria de propriedade da Formula One Management [FOM].
A suspeita era de que Toto teve acesso a informações confidenciais de atividades da FOM, algo que outros chefes de equipe não têm, enquanto Susie teria sido informada das principais discussões entre os chefes, o que pode ser de uso da categoria.
Porém, após o casal se pronunciar, todas as outras equipes do grid da Fórmula 1 se uniram em defesa a Susie, em um movimento inédito e lançaram um comunicado em conjunto, negando qualquer participação na investigação e garantindo total confiança na categoria e nos Wolff. O texto ainda serviu para desmentir a informação sobre a reclamação contra o casal.
Dois dias após o início da investigação, a entidade que rege o esporte divulgou um comunicado afirmando que, após uma análise, não havia provas sobre falta de ética e disciplina por parte do casal.
FIA Divulga calendário de 2023 sem permissão da F1
Em 2022, a FIA se adiantou à F1 e, sem aviso prévio, divulgou o calendário da temporada 2023 de maneira unilateral. Mas mais do que apenas um conjunto de datas, o anúncio mostrava a expectativa do campeonato mais longo da história e com novidades como o retorno do GP da China, as rodadas triplas e o GP de Las Vegas num sábado.

A oficialização da FIA bateu como surpresa nos escritórios da Fórmula 1 em Londres. A equipe de Stefano Domenicali, diretor-executivo da F1, soube das intenções da entidade de adiantar a divulgação apenas quando o comunicado foi disparado.
A oficialização conjunta é parte de um acordo dos dois lados, uma vez que a aprovação das datas precisa da validação e consolidação da FIA, mas todo o trabalho de formatação, escolhas das sedes, negociações com promotores e ajustes gerais é feito pelo Liberty Media, dono da F1. Portanto, há um esforço conjunto. A situação criou mais uma dor de cabeça institucional, porque a categoria teve de se manifestar horas mais tarde.
Tentativa manipulação GP da Arábia Saudita 2023
O presidente da Federação Internacional de Automobilismo foi investigado pela própria entidade por tentativa de manipulação em resultado de uma corrida da Fórmula 1. O incidente em questão foi no GP da Arábia Saudita de 2023, quando “tentou reverter uma punição de 5s” dada a Fernando Alonso, da Aston Martin.
O piloto foi punido em 5s por alinhar o carro fora do colchete na largada. Ao pagar a punição durante um pit-stop, recebeu uma nova sanção, agora de 10 segundos, pelo entendimento de que a equipe tocou no carro para reparos antes do tempo total da punição anterior ser cumprido.

Na penúltima volta, Alonso ainda foi avisado de que teria de abrir mais de 5s para George Russell para garantir o pódio, porém a nova punição renderia 10s a mais no tempo final. E foi o que aconteceu. Fernando caiu para quarto, enquanto Russell herdou o terceiro lugar.
O piloto e a equipe não ficaram satisfeitos com o ocorrido e entrou com um pedido de revisão do caso. 3h após o final da corrida, o órgão regulador emitiu documento definitivo revogando a segunda punição dada a Alonso.
Segundo a BBC, o caso foi para o comitê de ética e no departamento de compliance da FIA. Segundo a acusação, Sulayem ligou para o xeique Abdullah bin Hamad bin Isa Al Khalifa, atual vice-presidente esportivo da FIA na região do Oriente Médio e Norte da África, deixando claro que a punição de Alonso deveria ser revogada.
Apesar do desgaste causado com a categoria, Sulayem foi considerado inocente após as investigações.
Tentativa de impedir Circuito de rua Las Vegas
A acusação de tentar barrar o GP de Las Vegas foi mais uma que gerou mais atritos com a Fórmula 1. Porém, assim como no caso do GP da Arábia Saudita, Mohammed foi considerado inocente.

Na ocasião, Sulayem foi acusado de tentar barrar a aprovação do circuito de rua de Las Vegas, que recebeu a Fórmula 1 pela primeira vez no ano passado. O dirigente estaria tentado encontrar uma maneira de a pista de rua de Las Vegas não passar pela inspeção de segurança.
Segundo o relatório, o denunciante foi contatado por um empresário que, “a pedido do presidente da FIA, o instruiu a encontrar algumas preocupações para impedir a FIA de certificar o circuito antes do fim de semana da corrida” realizada em 19 de novembro.
As investigações, no entanto, mostraram que Sulayem não tinha nenhuma relação com o caso.
Punição por palavrão
A patacoada mais recente da Federação Internacional de Automobilismo envolveu Max Verstappen e o uso do linguajar “inapropriado”, que acabou acarretando em uma punição de serviços comunitários para o tricampeão.

Os problemas começaram depois que Ben Sulayem comentou que gostaria de diminuir a quantidade de palavrões ditos no rádio, uma vez que os pilotos “não são rappers”. Além da fala não ter agradado a Lewis Hamilton, Verstappen também se posicionou sobre o caso questionando se os competidores eram “crianças de seis anos”.
O neerlandês ainda teceu críticas ao presidente e utilizou “palavras rudes” durante a coletiva de imprensa em Singapura. A sanção, no entanto, não foi bem vista pelo público, equipes e demais pilotos do grid, que se incomodaram com a postura da entidade.
Após um intervalo de quatro semanas, a Fórmula 1 retorna neste fim de semana, entre os dias 18 e 20 de outubro, para o GP dos Estados Unidos, no Circuito das Américas, em Austin, no Texas.
Inscreva-se nos dois canais do GRANDE PRÊMIO no YouTube: GP | GP2
Acesse as versões em espanhol e português-PT do GRANDE PRÊMIO, além dos parceiros Nosso Palestra e Escanteio SP.
GOSTA DO CONTEÚDO DO GRANDE PRÊMIO?
Você que acompanha nosso trabalho sabe que temos uma equipe grande que produz conteúdo diário e pensa em inovações constantemente. Mesmo durante os tempos de pandemia, nossa preocupação era levar a você atrações novas. Foi assim que criamos uma série de programas em vídeo, ao vivo e inéditos, para se juntar a notícias em primeira-mão, reportagens especiais, seções exclusivas, análises e comentários de especialistas.
Nosso jornalismo sempre foi independente. E precisamos do seu apoio para seguirmos em frente e oferecer o que temos de melhor: nossa credibilidade e qualidade. Seja qual o valor, tenha certeza: é muito importante. Nós retribuímos com benefícios e experiências exclusivas.
Assim, faça parte do GP: você pode apoiar sendo assinante ou tornar-se membro da GPTV, nosso canal no YouTube