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GP de Gateway entrega tudo que fã da Indy quer: caos, zebras e campeonato aberto

A corrida em Gateway foi maravilhosa, disparada a melhor em oval em 2019 e possivelmente a grande prova do ano na Indy. O resultado foi divertido, a construção beirou o surreal e o campeonato está aberto. Uma prova praticamente perfeita

Grande Prêmio / GABRIEL CURTY, de São Paulo / GABRIEL CARVALHO, de Campinas
Quais são as primeiras coisas que surgem na mente quando o assunto é uma Indy ideal? Bom, disputas acirradas, equipes menores com chances de vitórias, ovais, pilotos brasileiros, chegadas apertadas, campeonato decidido na última prova. É um bom caminho, né? Pois o GP de Gateway conseguiu reunir todos os elementos numa prova espetacular na noite deste sábado (24), bem diferente do que foi visto no domingo passado em Pocono.
 
É até difícil escolher por onde começar, mas vamos falar primeiro do vencedor. Que história de Takuma Sato, que redenção improvável. Tem uma expressão em inglês que cabe muito bem para descrever o japonês: 'from zero to hero', basicamente, do nada para se tornar herói. E basta lembrar o que foram as 500 Milhas de Pocono para entender o sentido disso. Sato causou um 'big-one' na largada e foi xingado de todos os lados, por mais que tenha se defendido, pouca gente comprou seu lado.
 
Em Gateway, classificou bem, mas fez péssima largada e quase esteve em novo acidente, mais uma vez com Ryan Hunter-Reay. Foi parar na 20ª colocação, tentou remar de volta, mas só foi entrar na corrida de modo brusco, absolutamente do nada, em uma bandeira amarela providencial causada por Sébastien Bourdais.
Takuma Sato e uma belíssima vitória (Foto: Indycar)
"Eram três ou quatro dividindo a curva. Me toquei com o Hinchcliffe acho, não lembro muito bem. Foi difícil, perdemos o momento duas vezes, mas fizemos acontecer, e agradeço muito a este incrível time. Em duas amarelas estávamos indo para os boxes, mas aconteceu ao mesmo tempo, você tem que salvar gasolina. Eu acho que o stint que fizemos antes valeu muito a pena, permanecemos na volta do líder até a amarela aparecer. Foi um momento significante", relatou o vencedor.
 
Takuma tinha, assim como Tony Kanaan e Ed Carpenter, uma parada a menos e a fez em amarela com uma volta de vantagem para os demais, retornando para a última relargada na liderança. Então, precisou administrar a frente e um ataque feroz de Carpenter nos últimos metros para, por meros 0s04, vencer. Uma chegada sensacional, uma vitória redentora e, por tudo que aconteceu, uma tremenda zebra.
 
Aliás, o pódio foi este mesmo da relargada final, só invertendo as posições de Tony e Ed. E todos ali foram zebras por contexto, por carro, por tudo. Um top-3 de veteranos que souberam aproveitar a oportunidade e, sem dúvida, tiveram muitos méritos na agressividade adotada.
Ed Carpenter e Santino Ferrucci brilharam (Foto: Indycar)
Carpenter, que só corre nos ovais pelo carro #20 de sua equipe, fecha um ano muito produtivo em que mostrou novamente que está pronto para vencer a Indy 500 qualquer hora dessas. Merece. Foi cirúrgico para passar Kanaan, por alguns metros não ganhou de Sato.
 
"Mais uma reta e talvez eu teria pego o Takuma. Fomos muito bons nos stints longos hoje. A classificação tão ruim não nos ajudou. No começo, os caras me perguntaram o que eu precisava e deixei claro que precisava de pista livre mais do que tudo. Pensei que a corrida foi boa e fizemos ajustes a isso. Dias como ontem são duros e desgastantes para o time, mas mantivemos nossas cabeças baixas e nunca desistimos, voltamos fortes hoje e conseguimos o resultado. Foi um ótimo jeito de terminar o ano. Seria melhor com a vitória. Definitivamente dei o meu melhor. Foi legal voltar a brigar no topo de novo", explicou Ed.
 
E o que falar de Tony? O que foi aquela defesa do pódio nas curvas finais contra um Santino Ferrucci muito mais rápido? E que tal a combatividade toda para não sair da volta do líder em momento algum da corrida? Enfim, uma prova para calar os críticos, como ele mesmo falou. E mostrar que tem muita lenha para queimar aos quase 45 anos. Saiu o primeiro pódio brasileiro em mais de dois anos na Indy.
 
"Já ouvi de tudo agora. Acho que nos provamos. É claro que a estratégia teve um papel importante, mas quando estávamos na frente, tentei segurar. Queria a vitória, fiz algumas boas relargadas. Estou muito feliz, muito feliz pelo time, feliz por calar alguns dos críticos. É isso. Eu acho que quando passo por tempos difíceis, eu tenho desempenhos melhores. Que eles venham”, desabafou o brasileiro.
Tony Kanaan buscou um baita pódio (Foto: Indycar)
Ferrucci, aliás, fez uma bela bobagem depois de Kanaan o segurar, mas foi um dos nomes da corrida. Voltou a mostrar que realmente entende de ovais e, honestamente, já merecia um pódio em 2019. Foi quase.
 
"Eu me diverti muito liderando esta corrida. Ter pista livre e impor ritmo, correr nos seus traçados e não ter que pensar, só aproveitar. Mas agradeço o time. Tivemos um carro vencedor hoje, foi falta de sorte ser pego pela amarela. No final, eu estava correndo muito rápido para ficar no top-3. Eu realmente tentei trazer uma recompensa para o time. Nem tudo foi do nosso jeito, mas estou feliz que ficamos em quarto e conseguimos pontos na disputa de Novato do Ano, e pulamos para 9º no campeonato", relatou o novato da Dale Coyne.
 
Quanto ao campeonato, é fato que Josef Newgarden sai de Gateway com 3 pontos a mais de vantagem, mas o cenário era desesperador para seus rivais e ficou apenas ruim. 38 pontos é algo bem tirável em duas provas, especialmente contando que Laguna Seca seja uma prova de pontuação dobrada.
 
Para quem dominou classificação, parecia ter os treinos livres sob controle e teve um ritmo de prova forte, Newgarden tem muito a lamentar. É bom que se diga também: teria chances reais de vitória não fosse a sorte do top-3 e, principalmente, perdeu duas posições na última curva por culpa de um movimento aloprado de Ferrucci.
Josef Newgarden ficou em sétimo (Foto: Indycar)
Como Josef disse na entrevista pós-corrida: havia uma vibração em seus pneus e não fazia sentido duelar firme com Ferrucci. Sendo assim, não fez esforço para segurar o rival em duas oportunidades. Só que Santino estava completamente torto nos metros finais e voltou para a linha rápida da pista sem ritmo. Newgarden tirou para não bater, foi espremido, rodou e não bateu porque conseguiu aquela que foi, talvez, a salvada do ano. Poderia ter sido muito pior que o sétimo lugar.
 
"Veja, é importante saber que ele é um novato. O que ele fez, na minha opinião, foi perigoso. Ele veio falar comigo e disse que estava solto, por isso estava na parte de baixo do traçado. Eu estive na mesma posição, sei o que é passar na sujeira várias vezes. Ele veio direto para a parte de baixo para me fechar, o que não vejo necessidade. Deixei ele passar duas vezes porque senti problemas de vibração a corrida inteira, meu carro estava difícil de pilotar, então deixei ele passar, mas ele precisa aprender que se você faz isso em um oval, você vai causar uma batida grave. E ele precisa aprender isso. Você não pode voltar desse jeito para o traçado. Foi o instinto dele, voltar para o traçado. Você é um piloto, tem instintos assim, mas não pode fazer isso. É absolutamente errado. É uma lição, espero que ele aprenda e coloque isso na cabeça", se queixou Josef.
 
De todo modo, campeonato aberto com duas provas pela frente e agora o principal perseguidor, acreditem ou não, virou Simon Pagenaud. Contestado, apagado em diversos momentos - inclusive em Gateway -, mas firme na disputa. Deixou Rossi para trás ao chegar em quinto.
 
"Que noite. É uma corrida que estou animado para rever. Honestamente, eu não sei muito do que aconteceu, porque como um piloto, você é quase um cavalo, tem apenas que continuar. Tínhamos um bom carro e depois de cinco voltas, era muito, muito forte. Eu tinha bastante ritmo e conseguimos acompanhar o ritmo no stint. Tive problemas nas relargadas, sem aderência alguma. Um pouco de culpa minha, não sei o que aconteceu. Certamente tenho trabalho a fazer. Foi uma corrida movimentada, cheia de ultrapassagens e disputas com as estratégias. Parece que foi divertido. Os fãs tiveram um grande show hoje", vibrou Simon.
Simon Pagenaud é o novo vice (Foto: Indycar)
Alexander Rossi foi o segundo grande perdedor da noite, tendo a segunda prova seguida de bastante insucesso. Teve ritmo em alguns momentos, mas uma parada no meio do stint final o fez virar retardatário e o 13º lugar foi o teto. 46 pontos, contudo, também não é uma desvantagem absurda de tirar.
 
"Acho que tínhamos carro e nos colocamos em terceiro no ritmo de corrida. É o jeito que a categoria funciona e as amarelas aparecem. Pode ser frustrante. O Josef roda e não sai prejudicado, bate em Toronto e não sai prejudicado. É assim que as coisas acontecem. Acho que o time fez um grande trabalho, colocando um grande carro. Conseguimos sair de 11º para 3º e estávamos na briga, andando no mesmo ritmo e até mais rápido que o Josef. É falta de sorte acontecer isso, a Indy é difícil, mas temos duas pela frente. Vamos baixar a cabeça e tentar vencer estas corridas", comentou em tom de decepção Alex.
 
Quem se deu - muito - pior foi Scott Dixon, que vinha em grande fase, empilhando top-2, mas quebrou logo no comecinho da corrida. Não teve jeito, a prova foi para o espaço e as chances de título praticamente foram junto. 
Matheus Leist foi 17º (Foto: Indycar)
"É triste pelo time. O carro estava superaquecendo por algum motivo. Acho que começou na primeira volta e foi ficando pior. Ficamos na pista até o ponto que o motor estouraria, aí trouxemos de volta para diagnosticar o problema. Eles levaram para a garagem e trocaram o radiador. Ótimo trabalho do time em colocar de volta na pista. Fizemos o máximo de voltas que poderíamos pelos pontos e abandonamos depois disso. Não foi nosso dia", falou Scott.
 
Nem tudo foi alegria e sorte para a Foyt. Matheus Leist não se deu bem nas amarelas e também não teve um ritmo como o de Tony. No entanto, sai bem contente ao ver o mestre de volta ao pódio.
 
"Corrida difícil para nós. Pegamos as amarelas nos momentos errados. Nada deu certo hoje, mas a boa notícia é que o Tony fez um grande trabalho. Ele provavelmente é um dos melhores pilotos de oval de todos os tempos e estou muito feliz por ele chegar em terceiro. É um grande feito pára o time. Foi o lado bom da nossa e corrida e vamos celebrar, depois focar no próximo fim de semana em Portland", disse Matheus.
 
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