Guia 2020: Kanaan faz temporada de despedida atrás de pódios e “menos estresse”

Em entrevista exclusiva ao GRANDE PRÊMIO, Tony Kanaan falou dos objetivos para 2020, garantiu que a Indy 500 segue como objetivo para os próximos anos e avaliou as diferenças na forma de encarar uma temporada em que só vai correr nos ovais

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Tony Kanaan vai ter um 2020 diferente. Titular na Indy desde 1998, campeão em 2004 e vencedor da Indy 500 de 2013, o brasileiro de 45 anos vai disputar apenas as provas em ovais, em um acordo feito com a Foyt, que distribuiu as 17 corridas entre três pilotos no carro #14: Tony, Sébastien Bourdais e o estreante Dalton Kellett.
 
O Guia 2020 abre o último dia com uma entrevista exclusiva que Tony concedeu ao GRANDE PRÊMIO, fazendo um balanço da preparação, falando das diferenças em seu ano de despedida da categoria, contando planos para o futuro e explicando como se deu a negociação com a Foyt.
 
"Está sendo bem diferente. Para mim, ainda é muito novo. São 22 anos seguidos em que eu estaria indo para St. Pete para correr, agora vou para assistir. É um sentimento ainda muito estranho. O que eu espero, em termos de resultado, é difícil de falar. Ainda não andei no carro, mas deu para ver pelos tempos do Bourdais [nos testes] que a equipe melhorou. Não sei o quanto isso é 100% real, o teste foi bem conturbado por chuva, Sebring não dá para ter bem uma noção, mas o que eu espero é curtir muito essas corridas com meus fãs, curtir as experiências. É uma despedida, quero tentar aliviar um estresse que tive nesses últimos três anos e curtir um pouco uma carreira que todo mundo fala que foi muito legal, e eu acho legal também. Sou um cara de sorte por ter ficado tanto tempo na categoria", explicou Kanaan sobre o início do último ano como titular em parte do campeonato.
Tony Kanaan vai ter de dividir o #14 em 2020 (Foto: Indycar)
E o que esperar em termos de desempenho? A Foyt, afinal, foi a pior ou uma das piores equipes de 2019, mas ao menos foi um pouco mais competitiva nos ovais. Tony fez bom papel na Indy 500 e teve uma atuação memorável em Gateway, beliscando um pódio bastante merecido. 
 
"Acho que temos uma chance boa de brigar por uma vitória na Indy 500. Não tem campeonato, porque são só cinco corridas, então se eu conseguir andar entre os dez primeiros em todos os ovais, brigar por uns dois ou três pódios e concentrar para ficar na briga em Indianápolis, creio que seja uma meta viável. Meu histórico em Indianápolis, mesmo com a Foyt, é bom, há dois anos fomos muito competitivos. É viável", avaliou.
 
Mas tal meta só vai poder ser alcançada se a Foyt crescer de nível alguns patamares. Pode acontecer? Para Tony, ainda não dá para saber, mas o importante é que o desempenho nos ovais já existia de alguma forma em 2019.
 
"Acredito que sim [que a Foyt pode ser mais competitiva] pelo que os testes indicam e as mudanças que fizeram. Para falar a verdade, nos ovais nós fomos bem competitivos no ano passado – não muito, mas bem mais que nas outras pistas. Como estou fazendo só os ovais, acho que seremos bem melhor nas corridas em que eu vou guiar", comentou.
Tony Kanaan vai assistir algumas provas em 2020 (Foto: Indycar)
É inevitável que a preparação de Tony não seja exatamente a mesma, afinal, a maior parte do calendário é disputada nos mistos e nas pistas de rua. Agora, foco todo nos ovais, mas também em coisas novas como, por exemplo, assumir o cargo de comentarista da Indy Lights.
 
"Na verdade, estou me preparando para outras coisas além de correr. Por exemplo: vou comentar as corridas da Indy Lights para a televisão, fazer algumas coisas da Indy para a NBC [emissora americana], estou fazendo um monte de coisas legais nos fins de semana com a Indy para promover a categoria. Mudou um pouco o foco e a dinâmica de algumas corridas em que eu não vou correr, mas em termos de preparação e cabeça eu estou muito motivado e empolgado. Acho que a repercussão, tanto aqui quanto no Brasil, foi muito legal. Vendo as matérias, comentários, sempre muito positivos. Estou curtindo bastante esse momento, a vida não mudou muito. Continuo me preparando fisicamente. Mas vai ser esquisita, a primeira corrida. Ver os caras largando e eu não estou no carro", explicou.

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O anúncio de que Tony faria apenas os ovais foi, até certo ponto, surpreendente, mas o veterano não tem mágoas com a Foyt. Pelo contrário, Kanaan entende que a equipe estava mesmo precisando de verba para fazer a temporada toda e que a saída encontrada foi dividir o carro com Bourdais e Kellett. Por mais que a negociação pudesse ter sido conduzida de outra forma, no fim, era o que o time poderia oferecer.

 
"É uma situação que a equipe não tinha controle, nós perdemos o patrocínio, é aquela coisa que vira terra de ninguém. Alguém chega com patrocínio para fazer cinco corridas, outro chega com patrocínio para fazer oito corridas, mas eles foram bem leais comigo e avisaram que não ia dar para eu fazer a temporada inteira. Desde setembro, o Larry [Foyt] falou que eu ia voltar com eles, que a Foyt teria dois carros, mas não dava para explicar como. Então, como os meus melhores resultados nesses três anos com a Foyt foram no oval, concluímos que era melhor focar nisso. Quando nós assinamos, o Bourdais ainda não estava na jogada, só o Dalton. Assinamos, e eles falaram que iam buscar a grana para fazer as quatro corridas que o Bourdais vai fazer. Não arrumamos, e o Bourdais arrumou. Não teve maldade, foi uma situação que eles poderiam, na minha opinião, ter me preparado um pouco melhor para esses acontecimentos, porque tem coisa na vida que é muio óbvia – isso eu faria diferente. Mas eles foram leais. Fiquei decepcionado, sim, porque eu gostaria de fazer o campeonato inteiro, mas ao mesmo tempo, na vida a gente nem sempre faz tudo o que queremos. Não posso chegar e falar que eu tinha direito de ficar. Se a ABC [patrocinadora] continuasse e eles me dessem só os ovais, ficaria bravo. Mas não foi o caso", disse.
Tony Kanaan entende a decisão de Larry Foyt para o #14 (Foto: IndyCar)
Tony também deu uma ótima notícia ao GP. Para quem pensa que 2020 é o fim da linha para o brasileiro nas pistas, está muito enganado: Kanaan quer seguir fazendo a Indy 500 por mais e mais anos e não descarta nem presença em outras provas eventuais, por exemplo, como é o esquema da Carlin no carro que Max Chilton cede nos ovais.
 
"Na verdade, ficou meio confuso o anúncio. Quando dissemos que seria minha última temporada completa na Indy, o que eu quis dizer é que eu não vou mais correr um ano inteiro, mas não quis dizer que não vou fazer algumas provas. A Indy 500 sempre vai ser a prioridade, e acho que vou ter chance de fazer pelos patrocinadores que eu tenho e me apoiam sempre. E, por exemplo, o Max Chilton quer pegar alguém para guiar um oval, porque ele não quer guiar no oval, então o que eu quis dizer não é que acabou e eu nunca mais vou entrar num carro da Indy. Então tem muita chance, sim, de seguir fazendo a Indy 500", declarou.
 
O baiano falou também de outros tópicos, inclusive alguns em que, de certa forma, está relacionado. A saída de Matheus Leist, ex-companheiro de Foyt, deixou o piloto receoso de que, de fato, o Brasil pare por um bom tempo de ter representantes na Indy.
 
"A saída do Matheus preocupa muito! Primeiro que estava na hora de ter uma renovação na safra. Os velhos continuavam mandando bem: era eu, o Helio, vamos falar dos brasileiros. Quando chegou o Matheus, ótimo, vai ser nosso futuro. Aí os caras vão lá e cortam o moleque. Agora, se Deus quiser, vão dar a chance para o Felipe [Nasr] ou para o [Sérgio] Sette Câmara, de repente, não sei, mas não é garantido o campeonato inteiro. Temos um déficit muito grande que me preocupa, porque sem brasileiros, sem televisão – que já não estava aquelas coisas, né? Não acho que a categoria seja popular o suficiente no Brasil para o grid ficar sem brasileiros e as pessoas continuarem assitindo, como aconteceu com a F1. E não temos mais transmissão oficial, o que me preocupa muito mesmo", avaliou.
Tony Kanaan teve um grande pódio em Gateway em 2019 (Foto: Indycar)
E a Indy como um todo, hein? Para Kanaan, está em ótimas mãos sob o comando de Roger Penske, independentemente do americano também ser chefe da atual principal equipe do grid.
 
"A família ia vender de qualquer jeito. A maior preocupação era o que ia fazer quem comprasse. Um grupo poderia comprar, destruir tudo e construir 60 prédios que vai dar muito mais grana que corrida de carro. O Roger é um cara extremamente apaixonado por automobilismo, as 500 Milhas de Indianápolis são a vida do cara, sabemos disso pelas tantas vezes que ele já ganhou e como ele prepara a equipe para isso. Já mudou um monte de coisa. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido com a Indy, para falar a verdade", disse. 
 
Presidente da Associação de Pilotos, Tony acompanha bem de perto todo o procedimento para fazer o aeroscreen ser implementado de vez. Para o brasileiro, os problemas que surgiram são fáceis de serem contornados e nada vai abalar o uso da proteção de cockpit nas corridas de 2020.
Tony Kanaan acredita no aeroscreen (Foto: IndyCar)
"Acho que está pronto, sim. É uma coisa muito inovadora, como sempre a Indy está na frente nesse tipo de quesito. Sempre tem os haters que vão falar mal, sempre que você faz algo de muito inovador num carro que não estava preparado para isso, algumas coisas podem acontecer. Mas eu trabalho muito perto do Jay Frye, sou presidente da Associação de Pilotos, e todos esses problemas que foram citados já estão solucionados. Não vemos metade das coisas que acontecem nos carros que a gente compra na concessionária, porque os caras testam aquele carro um ano antes de soltar o modelo e não ver esses problemas. Nós, como categoria, não temos esse luxo de testar tanto. Temos de lançar o negócio e ir resolvendo os problemas. O problema do superaquecimento não tem mais, mas é pouco mais quente, com certeza. O problema das sobreviseiras, vai ter um mecânico extra para tirar aquela parte de cima quando sujar, já está resolvido. A única coisa que precisa ver mesmo é o sistema de aquecimento para não embaçar, mas com o sistema lá de Austin, não aconteceu nos testes. A única dúvida é essa. Nós achamos que não tem problema, mas estamos abertos a conversar. Se olhar algumas entrevistas do Frye, ele fala que se realmente der um problema é só tirar o aeroscreen e ficar com o halo igual ao da F1. Mas não acredito que vá precisar", comentou.
 
Ainda, Tony foi perguntado a respeito da disputa pelo título. Sem vacilar, colocou dois nomes: um mais pelo momento todo e outro por finalmente poder levar a taça.
 
"Talvez o favorito seja o Josef Newgarden. Ele está muito bem, numa fase muito boa, cresceu muito dentro da Penske também, isso ajuda. Mas um cara que seria a minha ficha é o Alexander Rossi. Acho que esse ano vai ser o cara a ser batido", cravou.
 
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