Oliveira faz história em temporada insana da MotoGP e reafirma bom trabalho da KTM

Primeiro português titular da MotoGP, o piloto da Tech3 deixou uma marca na história ao vencer justamente na corrida 900 da classe rainha do Mundial. Além de um dia memorável para as escuderia de Hervé Poncharal, o competidor de 25 anos também tratou de marcar o fim das concessões à KTM

Não faz muito tempo, Hervé Poncharal revelou que Pit Beirer, chefe da divisão esportiva da KTM, o proibiu de se referir a Tech3 como “equipe júnior”. Neste domingo (23), o GP da Estíria provou que a fábrica austríaca dá à escuderia satélite as mesmas condições. Afinal, Miguel Oliveira alcançou a primeira vitória na MotoGP justamente superando Pol Espargaró, o piloto que desde a temporada de estreia da casa da Mattighofen está no comando da RC16.

E a vitória de Miguel chega cercada de detalhes memoráveis. Independente do que acontecesse na pista, o GP da Estíria seria histórico por si só, já que marcou a corrida de número 900 da classe rainha. Com a vitória, Oliveira entra em um grupo que conta com nomes como Mike Hailwood, Giacomo Agostini, Barry Sheene, Eddie Lawson, Mick Doohan, Sete Gibernau e Jorge Lorenzo, os pilotos que venceram os GPs centenários de 500cc/MotoGP.

Além disso, Miguel também deu à Tech3 a primeira vitória na elite do Mundial. Depois de 20 anos de parceria com a Yamaha, a escuderia francesa se uniu à KTM no ano passado e o que inicialmente parecia uma troca frustrada, se converteu em um acerto tremendo. Com a RC16, o time de Poncharal não tem nas mãos um protótipo consolidado, mas uma moto em constante evolução. Progresso esse que, aliás, está mais do que comprovado em 2020.

Mas não é só isso. Se já tinha feito história para Portugal ao se tornar o primeiro nativo com vaga em tempo integral na MotoGP ― antes, Felisberto Teixeira tinha sido o único português na classe rainha, mas apenas no GP da Espanha de 1998 ―, Miguel foi ainda mais fundo e assegurou seu lugar na história do esporte lusitano. Ele não só está lá, como também é capaz de vencer ― o que, por sinal, só aumenta a expectativa pela volta do GP de Portugal à programação em novembro próximo.

Oliveira ganhou um carro pela vitória (Foto: MotoGP)

Só que ainda tem mais. Com o triunfo de hoje, foi Miguel quem colocou um ponto final à era das concessões para a KTM. Como bem determina o regulamento, a fábrica austríaca perderia as benesses se somasse seis pontos de concessão ― Brad Binder juntou metade deles no GP da Tchéquia, enquanto Oliveira completou a conta neste domingo, com direito, até, a uma ‘caixinha’ de Pol Espargaró.

Assim, ao bater sete pontos na conta, a KTM perde imediatamente o direito a testes ilimitados, passando a estar sujeita às mesmas regras que hoje determinam os trabalhos de Yamaha, Ducati, Suzuki e Honda. Para o próximo ano, cai o direito de ter o piloto de testes trabalhando em qualquer pista do calendário e a marca passa a ter de nomear três traçados. Além disso, o número de motores baixa de nove para sete no ano ― 2020 é uma exceção por conta do campeonato encurtado pela pandemia do novo coronavírus ― e eles também passam a ser congelados no início do campeonato.

“Sinto-me feliz e orgulhoso. Têm muitas razões para me sentir feliz por como correu o dia de hoje. Foi uma vitória na casa da KTM e da Red Bull, o que torna tudo ainda mais especial, e é uma primeira vitória na MotoGP para mim”, comentou Oliveira. “Durante todo o fim de semana, nós trabalhamos muito bem. Tive sorte por ter uma segunda corrida, porque pude mudar o pneu dianteiro e isso permitiu que fosse mais competitivo. Estou muito feliz, com os pés na terra, mas com a mente nas nuvens. Sinto-me feliz por mim, pela minha família e pela torcida portuguesa, que é a melhor”, comemorou.

Para completar a festa, a vitória veio apenas nos metros finais, com um bote duplo para cima de Jack Miller e Pol Espargaró em uma corrida reduzida, já que a prova foi interrompida para troca do air fence após Maverick Viñales se jogar da moto sem freios e a Yamaha incendiar após colidir com o muro da curva 1.

“Não dá para prever muita coisa em uma corrida de 12 voltas. Fui para a frente e não tinha de me preocupar em controlar combustível e pneus. Nesse sentido, era uma corrida mais fácil”, considerou. “Sabia que Jack e Pol eram muito fortes. Não imaginava que pudesse ultrapassá-los de maneira limpa por assim dizer. Pol começou a fechar a porta para Jack um pouco mais, e Jack tratava de buscar a vitória nas voltas finais. Sabia que seria assim e que eu podia me beneficiar da briga. Fui seguro e, de forma inteligente, me meti por dentro para acabar em primeiro”, relatou.

A vitória de Oliveira é mais uma mostra do salto dado pela KTM com a performance da moto neste ano.

A entrada para a última curva (Foto: MotoGP)

“A KTM mostrou que no que quer que ela se meta, ela não vai para perder e acho que é ótimo que eles tenham conseguido isso na MotoGP em tão pouco tempo”, elogiou Miguel. “Não é só uma questão de ter dinheiro e os recursos financeiros para fazer as coisas, mas competição é sobre reunir o grupo certo de pessoas para trabalhar no projeto, e eles conseguiram fazer isso desde o início. Acho que Mike Leitner é também muito responsável por isso, um cara com muita experiência, que, no fim das contas, empurrou muito o projeto para o próximo nível. Nós, os pilotos, estamos nos beneficiando disso e a partir de agora, só precisamos correr como qualquer outro”, ponderou.

Vale destacar que o fim de semana da KTM não foi glorioso apenas por Oliveira. No sábado, Pol Espargaró deu à marca a primeira pole-position. Na corrida, as quatro motos garantiram o top-10.

“Difícil encontrar as palavras certas depois de um dia tão incrível. Lembro-me muito bem da nossa primeira corrida no Catar, quando começamos na última colocação e eu disse ao nosso diretor-executivo, o Sr. [Stefan] Pierer, que daríamos a volta por cima e colocaríamos a nossa moto do outro lado do grid. Fizemos isso em dobro hoje: pole e vitória na nossa corrida de casa na Moto3, assim como todas as nossas quatro motos da MotoGP no top-10 com duas no pódio”, exaltou Pit Beirer, diretor de esporte a motor da KTM. “O projeto, em geral, tem sido incrível. Seguimos nosso próprio caminho e a abordagem está dando resultado. O espírito de equipe e a atmosfera com tantas pessoas aqui no circuito e na fábrica pressionando como loucos para trazer esse resultado. É como um sonho que se torna realidade. Vou precisar de algum tempo para assimilar tudo que aconteceu nessas últimas semanas”, concluiu.

Além disso, é também preciso destacar a insanidade da temporada 2020. E não é que a ausência de Marc Márquez não seja sentida, mas verdade seja dita, a MotoGP deu conta de manter o espetáculo sem o protagonista das últimas temporadas e, mais do que isso, ganhou um tom de imprevisibilidade que há muito faltava.

As imagens do GP da Estíria de MotoGP deste domingo no Red Bull Ring

O pódio no GP da Estíria (Foto: MotoGP)

Passada a quinta das 14 etapas previstas para este tumultuado ano, 11 pilotos diferentes já passaram pelo pódio, quatro deles com vitórias ― Fabio Quartararo, Binder, Andrea Dovizioso e Oliveira. Enquanto a Yamaha lidera o Mundial de Construtores, o francês da SRT está no topo da classificação da disputa pelo título, mas vê os rivais mais e mais próximos. Concluída a passagem pelo Red Bull Ring, são nove pilotos separados por 27 pontos.

Em um ano tão tumultuado, a MotoGP aparece como um alívio para quem gosta de boas corridas. Marc Márquez pode estar de molho em Cervera, mas não faltam talentos para encantar até o mais desatento dos espectadores.

A história dos 900 GPs da classe rainha do Mundial de Motovelocidade

Jarno Saarinen foi o primeiro piloto a vencer com um motor de dois tempos e quatro cilindros. O ano é de 1973 (Foto: Reprodução)

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