Relação de Viñales e Yamaha ruiu como castelo de cartas. Divórcio era única opção

Não é de hoje que o relacionamento era problemático, mas desde o anúncio da saída de Esteban García do comando da equipe do piloto de Figueres as coisas pioraram mais e mais. A separação é a solução natural, mas os últimos meses de parceria prometem ainda muito constrangimento

Quartararo vence em dobradinha da Yamaha: os melhores momentos do GP da Holanda (GRANDE PRÊMIO com Reuters)

Quando o amor acaba, não resta muito a se fazer. Durante cinco temporadas, Maverick Viñales e Yamaha viveram um relacionamento que pouco construiu e os constantes desentendimentos fizeram desmoronar uma relação de bases pouco sólidas, culminando no divórcio anunciado nesta segunda-feira (28).

Viñales chegou à Yamaha em 2017, depois de dois anos de destaque na Suzuki. A missão não era simples: o espanhol foi escalado para substituir o tricampeão Jorge Lorenzo, que partiu em direção à Ducati. Logo na chegada, Maverick encantou. Além de uma excelente performance na pré-temporada com a YZR-M1, o espanhol venceu três das primeiras cinco corridas.

Maverick Viñales não vai cumprir o acordo atual com a Yamaha (Foto: Yamaha)

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Só que a expectativa nunca se confirmou. Até aqui, são apenas oito vitórias, 24 pódios e 13 poles. É preciso lembrar que, até outro dia, a MotoGP vivia uma era de domínio de Marc Márquez, uma hegemonia que só foi quebrada no ano passado por conta de uma lesão que segue causando problemas ao hexacampeão.

No entanto, não foi de Viñales que partiu a maior ameaça ao espanhol de Cervera. Por três anos, Andrea Dovizioso e a Ducati foram os principais desafiantes, deixando ao ‘Top Gun’ ― e a Yamaha ― o posto de meros coadjuvantes. Ano passado, mesmo com Marc fora de combate, o paradeiro de Maverick foi praticamente desconhecido, deixando para Fabio Quartararo e Franco Morbidelli, ambos da satélite SRT, a missão de defender a honra da YZR-M1.

Também é verdade que o protótipo dos diapasões tem lá seus problemas. A Yamaha conta com um motor menos potente do que rivais como Ducati e Honda, por exemplo, o que deixa os pilotos um tanto descobertos na hora de se defenderem de uma ultrapassagem. Além disso, houve certo atraso na introdução de novidades como o dispositivo holeshot.

Só que fica difícil apontar para a moto quando se tem um vice-campeão vigente, como Morbidelli, que foi derrotado por Joan Mir no ano passado por só 13 pontos. Fica difícil culpar a moto se ela venceu cinco das nove corridas disputadas em 2021, uma delas, inclusive, com ele.

É fácil entender que os dedos estejam apontados para Viñales. Ainda que ele tenha razão em algumas das críticas que fez à Yamaha. O problema com a aderência na traseira não é uma queixa só dele. Valentino Rossi também faz essa reclamação. A questão é que talvez seja a maneira como ele apresenta as queixas.

Aos 26 anos, Maverick já mostrou que precisa que as coisas funcionem em simetria para que ele possa ser rápido. Algo que ele nunca conseguiu na Yamaha. E aí é só ter uma coisinha fora do lugar, que o desempenho vai ladeira abaixo.

A união com o time dos diapasões teve momentos incompreensíveis, como a dispensa de Ramón Forcada. Um dos mais respeitados chefes de equipe da MotoGP, o espanhol foi rejeitado por Viñales em favor de Esteban García, com quem ele tinha trabalhado nas classes menores. Melhor para Morbidelli, que agora conta com a experiência de alguém que venceu muito ao lado de Lorenzo, por exemplo.

Mas apesar da irregularidade e até de ter feito por merecer a alcunha de ‘leão de treino’, Viñales sempre contou com o apoio da Yamaha, que várias vezes renovou o contrato antes mesmo do início da temporada. Foi assim, por exemplo, com esse vínculo que agora não será cumprido.

Mas aí veio Quartararo. Não que o francês tenha alguma culpa no degringolar do relacionamento que acontecia ao lado, mas é que ele meio que jogou na cara que dava para ser mais feliz em um casamento. Dava construir e conquistar coisas.

Enquanto Viñales depende de uma condição específica para ser o marido ideal, Fabio tem sido daqueles que companheiro e compreensivo até no perrengue. Fabio elogiava e fazia a Yamaha se sentir capaz. Maverick punha defeito e colocava a moto para baixo. E, se ninguém está feliz, a única solução é mesmo o divórcio.

E os sinais já estavam lá. Dias atrás, Viñales deu uma entrevista ao serviço de streaming DAZN e falou sobre pensar com cautela para não “cometer o mesmo erro”. Todo mundo entendeu que ele falava da Yamaha, mas o piloto se apressou em dizer que não era bem isso e que fazia referência a 2012.

Há quase nove anos, aos 17, Viñales largou a Avintia Blusens na Malásia, ainda com chances matemáticas de título na Moto2, e voltou para a Espanha, se recusando a correr as últimas três etapas. Desta vez, pelo menos, ele teve a elegância de pedir a liberação e fazer um acordo antes de virar as costas.

Só que o anúncio da Yamaha não resolve todos os problemas. Afinal, de acordo com a composição atual do calendário, o casal em processo de divórcio terá 11 ― contando o ainda sem data GP da Argentina ― eventos pela frente. E o clima dos últimos dias deixa claro que isso não será assim tão simples.

Dias atrás, quando a Yamaha decidiu trocar García por Silvano Galbusera no comando da equipe de Viñales, Massimo Meregalli, chefe do time, disse claramente à imprensa que o piloto não estava correspondendo ao investimento feito. Na Alemanha, Maverick soltou os cachorros na direção da equipe após terminar em último em Sachsenring.

Semana passada, às vésperas da corrida da Holanda, Viñales reiterou as críticas e a insatisfação ficou evidente mesmo com o domínio dos treinos. Sexta-feira, o piloto não falou com a imprensa. A versão oficial foi de que a reunião técnica tinha sido muito longa e ele queria descansar. No dia seguinte, porém, ao cravar a pole, o espanhol revelou que sequer tocou na moto desde Sachsenring. E quem precisaria de uma longa reunião para manter o acerto inalterado, não é mesmo? Só que ninguém entendeu se ele não quis ou não foi autorizado a falar.

Mas as cenas verdadeiramente constrangedoras vieram no domingo. Quartararo ofuscou completamente o companheiro de equipe apesar da dobradinha da Yamaha. No parque fechado, enquanto o francês pulava e festejava junto com a equipe, Viñales ficou isolado num canto. Depois, no pódio, o piloto que trocou o #25 pelo #12 não participou da festa do champanhe, abriu a garrafa com atraso, bebeu sozinho num canto e ainda deu um perdido para evitar uma fotografia com Meregalli. Foi tipo tentar apagar um incêndio despejando litros de gasolina.

Não tinha mais o que ser salvo neste casamento. E as cenas dos próximos capítulos prometem outros momentos de puro constrangimento.

Agora, a MotoGP entra de férias por cinco semanas e volta a correr apenas no dia 8 de agosto, no Red Bull Ring, para o GP da Estíria. Acompanhe a cobertura do GRANDE PRÊMIO sobre o Mundial de Motovelocidade.

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